Como é feito o rastreio do colo do útero?

Rastreio do Colo do Útero: Prevenção Essencial

02/11/2022

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O cancro do colo do útero, uma doença que afeta predominantemente mulheres jovens entre os 35 e os 50 anos, representa a sexta neoplasia mais frequente no sexo feminino na Europa. No entanto, há uma notícia encorajadora: é também um dos tipos de cancro mais controláveis e passíveis de prevenção eficaz através de programas de rastreio bem estruturados. A detecção precoce de lesões pré-cancerosas e do cancro em fases iniciais é a chave para um tratamento bem-sucedido e para a redução drástica da morbilidade e mortalidade associadas a esta condição. Compreender como funciona este rastreio e a sua importância é fundamental para todas as mulheres.

Como é feito o rastreio do colo do útero?
Consiste na realização de um teste de pesquisa do Vírus do Papiloma Humano e, se necessário, uma citologia em meio líquido. O rastreio regular é a melhor forma de detetar precocemente alterações do colo uterino.
Índice de Conteúdo

O Que É o Rastreio do Cancro do Colo do Útero?

O rastreio do colo do útero é um conjunto de procedimentos destinados a identificar alterações celulares ou a presença do Papilomavírus Humano (HPV) antes que se desenvolvam em cancro. A principal ferramenta de rastreio é a citologia cervical, mais conhecida como teste de Papanicolau.

  • Citologia Convencional (Papanicolau): Este método envolve a recolha de células da superfície do colo do útero e do canal cervical, que são depois espalhadas numa lâmina e examinadas ao microscópio para detetar anomalias.
  • Citologia em Meio Líquido: Uma evolução do Papanicolau convencional. As células são recolhidas e colocadas num meio líquido especial, que permite uma melhor preservação das amostras e, por vezes, a realização de testes adicionais a partir da mesma amostra, como a tipagem viral do HPV.

Além da citologia, a identificação do Vírus do Papiloma Humano (HPV) de alto risco tem-se tornado um componente crucial do rastreio. O HPV é a principal causa de cancro do colo do útero, e a sua deteção permite identificar mulheres com maior risco, mesmo antes de existirem alterações celulares visíveis. O “Coteste” combina a citologia com a tipagem HPV, sendo uma abordagem mais abrangente para mulheres acima de certas idades, pois a presença do vírus é muito comum em jovens e nem sempre indica risco imediato.

A Importância da Prevenção: Rastreio e Vacinação HPV

A prevenção do cancro do colo do útero pode ser dividida em dois pilares essenciais: a prevenção primária e a prevenção secundária.

Prevenção Primária: A Vacinação contra o HPV

A vacinação é a forma mais eficaz de prevenção primária, protegendo contra os tipos de HPV mais frequentemente associados ao cancro do colo do útero. Existem dois tipos principais de vacinas:

  • Vacina Bivalente: Oferece proteção contra os tipos de HPV 16 e 18, responsáveis pela maioria dos casos de cancro cervical.
  • Vacina Quadrivalente: Além de proteger contra os tipos 16 e 18, também previne contra os tipos 6 e 11, que causam as verrugas genitais (condilomas).

É crucial salientar que, mesmo as mulheres vacinadas contra o HPV, devem continuar a realizar o rastreio citológico de acordo com as recomendações, pois a vacina não cobre todos os tipos de HPV que podem causar cancro, nem protege contra infeções contraídas antes da vacinação.

Como detectar cancro do colo do útero?
Diagnóstico do câncer do colo do útero. Exames de Papanicolau de rotina conseguem detectar células pré-cancerosas anormais (displasia) na superfície do colo do útero. Os médicos fazem exames em mulheres com células pré-cancerosas em intervalos regulares.

Prevenção Secundária: O Rastreio Organizado e Oportunista

O rastreio oportunista é aquele realizado na consulta de ginecologia, sem um programa de base populacional. O rastreio organizado, como o implementado pela ARSLVT, é um programa de base populacional que visa garantir o acesso universal e gratuito a todas as mulheres elegíveis, com controlo de qualidade e seguimento dos casos.

Quem Deve Fazer o Rastreio e Com Que Frequência?

As indicações para o rastreio variam ligeiramente entre as diretrizes nacionais e internacionais, mas convergem em pontos chave:

  • O rastreio deve começar por volta dos 21 anos de idade, independentemente do início da vida sexual.
  • Para mulheres sem histórico de lesões significativas (CIN 2 ou CIN 3), o rastreio pode ser descontinuado entre os 65 e os 70 anos, desde que os resultados das últimas citologias tenham sido normais nos últimos 10 anos (geralmente, três negativos consecutivos).
  • Mulheres que foram submetidas a uma histerectomia total (extração do útero) por razões que não estejam relacionadas com patologia do colo do útero podem suspender a realização de citologias.
  • No entanto, se a histerectomia foi realizada devido a lesões de alto grau (CIN 2 ou CIN 3), a citologia da cúpula vaginal (a parte superior da vagina que ficou após a remoção do útero) deve ser continuada até que se obtenham três resultados negativos consecutivos.

A frequência da repetição dos exames dependerá dos resultados anteriores, da idade da mulher e de quaisquer condições clínicas específicas. O médico assistente irá explicar o plano de rastreio individualizado. É importante lembrar que, independentemente da periodicidade das citologias, as mulheres devem manter consultas ginecológicas anuais para uma avaliação geral da saúde feminina.

Comparativo: Tipos de Citologia e Co-teste HPV

Tipo de ExameDescriçãoVantagensRecomendação
Citologia Convencional (Papanicolau)Células espalhadas em lâmina para análise morfológica.Método estabelecido e amplamente disponível.Início do rastreio aos 21 anos.
Citologia em Meio LíquidoCélulas suspensas em solução líquida para análise.Melhor preservação, permite testes adicionais (HPV).Alternativa superior ao convencional, pode ser a preferencial.
Co-teste (Citologia + Tipagem HPV)Combinação de citologia com teste de HPV de alto risco.Maior sensibilidade para detecção de lesões de alto grau.Não recomendado para mulheres com menos de 30 anos (devido à alta prevalência de HPV transitório). Indicado para ASC-US se > 26 anos.

O Programa de Rastreio Oncológico da ARSLVT: Um Modelo de Excelência

A Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) implementou um Programa de Rastreio Oncológico do Cancro do Colo do Útero de base populacional, garantindo acesso universal e gratuito. Este programa inovador procura otimizar a prática clínica através de várias melhorias:

  • Integração de Cuidados: Diminui a necessidade de atos médicos repetidos e otimiza o uso de exames complementares de diagnóstico, ao integrar todo o processo entre os cuidados de saúde primários e os cuidados hospitalares.
  • Plataforma de Registo Centralizada: Uma plataforma digital centraliza toda a informação de rastreio de cada pessoa, facilitando a comunicação e a articulação entre os diferentes níveis de cuidados.
  • Gratuitidade: Todo o processo de rastreio e acompanhamento é gratuito para a utente.
  • Controlo de Qualidade: Garante a qualidade em todas as etapas do processo, desde a recolha das amostras até ao diagnóstico e seguimento.
  • Utilização de Teste HPV: Incorpora um teste de identificação de genótipos de alto risco do Vírus do Papiloma Humano (HPV), permitindo uma deteção mais precisa do risco.
  • Colposcopias de Qualidade: As colposcopias são realizadas com garantia de qualidade, segurança do procedimento e fiabilidade dos resultados.

Objetivos e Finalidade do Programa de Rastreio

Os objetivos do Programa de Rastreio são claros e ambiciosos:

  • Diagnosticar precocemente lesões pré-neoplásicas e neoplasia do colo do útero.
  • Reduzir a proporção de neoplasia maligna diagnosticada na fase clínica (sintomática), onde o tratamento é mais complexo e o prognóstico menos favorável.
  • Aumentar a proporção de rastreios em utentes sem médico de família, garantindo que ninguém fica para trás.
  • Garantir a escolha informada sobre a decisão de participação no programa, empoderando as mulheres na gestão da sua saúde.
  • Garantir a qualidade em todo o processo inerente ao programa de rastreio.

A finalidade última é reduzir a morbilidade (doença) e a mortalidade (mortes) por cancro do colo do útero e promover a equidade no acesso a este rastreio vital.

Como são Detetadas as Alterações Pré-cancerosas e o Cancro?

O cancro do colo do útero, quase invariavelmente, é causado por uma infeção persistente pelo HPV. As alterações pré-cancerosas (displasia ou neoplasia intraepitelial cervical – NIC) e o cancro em estágio inicial raramente causam sintomas. O primeiro sintoma, quando o tumor já está mais desenvolvido, costuma ser sangramento vaginal anómalo, frequentemente após a atividade sexual, mas também pode ocorrer entre os períodos menstruais ou estes podem ser invulgarmente intensos. Tumores maiores podem causar secreção vaginal com mau odor e dor pélvica.

A detecção inicia-se com os exames de rastreio (Papanicolau e/ou HPV). Se estes exames detetarem células anormais, o próximo passo é geralmente uma colposcopia. A colposcopia é um procedimento no qual um instrumento com uma lente binocular (colposcópio) é inserido na vagina para examinar o colo do útero sob ampliação, permitindo ao médico identificar áreas anormais e selecionar o melhor local para uma biópsia. Existem dois tipos principais de biópsia:

  • Biópsia Cervical: Remoção de um pequeno pedaço de tecido diretamente do colo do útero.
  • Curetagem Endocervical: Raspagem de tecido do interior do canal cervical.

Se o diagnóstico ainda não for claro, ou se houver suspeita de lesões mais extensas, pode ser realizada uma biópsia de cone (também conhecida como procedimento de excisão eletrocirúrgica com alça, LEEP, ou conização a frio/laser). Este procedimento remove um segmento de tecido em forma de cone do colo do útero, permitindo uma análise mais aprofundada. As NIC são classificadas em grau 1 (leve), 2 (moderada) ou 3 (grave), indicando a probabilidade de progressão para cancro se não forem tratadas.

Quando fazer rastreio HPV?
O rastreio deve ser feito aos 21 anos de idade, independentemente de ter iniciado vida sexual há mais tempo. Se a mulher não teve qualquer doença do colo do útero (lesões CIN 2 ou CIN3) pode terminar o rastreio entre os 65 e 70 anos.

Compreendendo o Estadiamento do Cancro do Colo do Útero

Após o diagnóstico de cancro do colo do útero, é crucial determinar o seu tamanho exato e a extensão da sua disseminação (estadiamento). O estadiamento orienta o tratamento e permite prever o prognóstico. Este processo geralmente envolve um exame físico da pélvis, radiografia de tórax e exames de imagem avançados como Tomografia Computorizada (TC), Ressonância Magnética (RM) ou PET-TC. Em alguns casos, podem ser necessários exames específicos de órgãos como cistoscopia (bexiga) ou sigmoidoscopia (reto) para verificar a disseminação direta.

O estadiamento do cancro do colo do útero é classificado de I a IV, com base na sua disseminação:

  • Estágio I: O cancro está confinado ao colo do útero.
  • Estágio II: O cancro espalhou-se para além do útero, mas ainda está confinado à pélvis, atingindo os dois terços superiores da vagina ou os tecidos circundantes, mas sem atingir a parede pélvica inferior.
  • Estágio III: O cancro espalhou-se por toda a pélvis, e/ou para o terço inferior da vagina, e/ou bloqueia os ureteres, e/ou causa disfunção renal, e/ou espalhou-se para os gânglios linfáticos próximos da aorta.
  • Estágio IV: O cancro espalhou-se para fora da pélvis, e/ou para a bexiga ou reto, ou para órgãos distantes.

A avaliação dos gânglios linfáticos é fundamental, frequentemente realizada através de exames de imagem ou biópsia, incluindo a técnica de dissecção do linfonodo sentinela, que identifica o primeiro gânglio para onde as células cancerosas teriam maior probabilidade de se espalhar.

Opções de Tratamento para o Cancro do Colo do Útero

O tratamento do cancro do colo do útero é individualizado e depende do estágio da doença, da saúde geral da paciente e do desejo de preservar a fertilidade. As opções incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia, frequentemente combinadas.

  • Lesões Pré-cancerosas e Estágio I Inicial: Nestes casos, o objetivo é remover as células anormais preservando ao máximo o colo do útero. Uma biópsia de cone (LEEP, laser ou bisturi) pode ser suficiente. Se a mulher não desejar preservar a fertilidade, uma histerectomia (remoção do útero) pode ser uma opção. Se o cancro se espalhou mais profundamente no colo do útero ou nos vasos, pode ser necessária uma histerectomia radical modificada (remoção do colo do útero e parte do tecido adjacente) com remoção dos gânglios linfáticos adjacentes ou radioterapia externa combinada com braquiterapia (implantes radioativos no colo do útero).
  • Estágio I Avançado e Estágio II Inicial: O tratamento mais comum é a histerectomia radical (remoção do útero, tecidos circundantes e parte superior da vagina) e avaliação dos gânglios linfáticos. Se o cancro já se espalhou para fora do colo do útero, a radioterapia combinada com quimioterapia é preferida.
  • Estágio II Avançado a Estágio IV Inicial: Para o cancro mais disseminado, o tratamento principal é a radioterapia combinada com quimioterapia. A quimioterapia é frequentemente administrada para tornar o tumor mais suscetível à radioterapia.
  • Disseminação Ampla ou Recidiva: Nestes casos, a quimioterapia é o tratamento principal, por vezes complementada com imunoterapia para prolongar a sobrevida. Se o cancro persistir na pélvis após a radioterapia, pode ser considerada uma exenteração pélvica, uma cirurgia complexa que remove os órgãos pélvicos (útero, vagina, bexiga, reto, etc.), criando aberturas permanentes para a urina e fezes.

Fertilidade e Menopausa Após o Tratamento

O tratamento do cancro do colo do útero, especialmente a histerectomia radical, quimioterapia e/ou radioterapia, pode comprometer a capacidade de engravidar e de levar uma gravidez até ao fim. Contudo, para mulheres em estágio inicial que desejam preservar a fertilidade, existem opções:

  • Conização (Biópsia de Cone): Se o cancro estiver em estágio muito precoce e não houver disseminação para os gânglios linfáticos, a remoção apenas da parte afetada do colo do útero pode ser suficiente.
  • Traquelectomia Radical: Este procedimento remove o colo do útero, o tecido próximo e os gânglios linfáticos pélvicos, mas preserva o corpo do útero e os ovários, permitindo a gravidez (com parto por cesariana).

Para mulheres na pré-menopausa que recebem radioterapia, pode ser discutida a ooforopexia, um procedimento para mover os ovários para fora do campo de radiação, a fim de evitar a menopausa precoce induzida pelo tratamento.

Prognóstico do Cancro do Colo do Útero

O prognóstico do cancro do colo do útero está diretamente relacionado com o estágio em que a doença é diagnosticada e tratada. Quanto mais cedo for detectado, melhor o prognóstico:

  • Estágio I: 80% a 90% das mulheres permanecem vivas cinco anos após o diagnóstico e tratamento.
  • Estágio II: 60% a 75%.
  • Estágio III: 30% a 40%.
  • Estágio IV: 15% ou menos.

A maioria das recidivas do cancro ocorre nos primeiros dois anos após o tratamento. Estes números reforçam a importância vital do rastreio regular e da prevenção para garantir a detecção precoce e um melhor desfecho.

Quanto tempo demora o resultado do rastreio do cancro do colo do útero?
Quando e como recebo o resultado do exame? O resultado do exame ser-lhe-á transmitido por SMS, e-mail ou carta enviada para a sua morada, num prazo, previsivelmente, não superior a 4 semanas. O seu médico de família também receberá a informação do resultado do exame.

Perguntas Frequentes sobre o Rastreio do Colo do Útero

Quanto tempo demora o resultado do rastreio do cancro do colo do útero?

O resultado do exame de rastreio ser-lhe-á normalmente transmitido num prazo não superior a 4 semanas. A comunicação pode ser feita por SMS, e-mail ou carta enviada para a sua morada. O seu médico de família também receberá esta informação.

A vacina contra o HPV dispensa a realização do rastreio?

Não. Embora a vacina contra o HPV seja uma ferramenta poderosa de prevenção primária, ela não dispensa a necessidade de continuar a realizar os exames de rastreio citológico (Papanicolau) de acordo com as recomendações. A vacina não protege contra todos os tipos de HPV que podem causar cancro do colo do útero, nem contra infeções que possam ter sido contraídas antes da vacinação.

Quais são os sintomas do cancro do colo do útero?

Em fases iniciais, o cancro do colo do útero e as lesões pré-cancerosas geralmente não causam sintomas. Quando os sintomas aparecem, podem incluir sangramento vaginal anómalo (após relações sexuais, entre menstruações, ou menstruações mais intensas), secreção vaginal com mau odor e dor na região pélvica. Em estágios mais avançados, pode haver dor lombar e inchaço das pernas.

Quando devo consultar um médico?

Deve consultar o seu médico para iniciar o rastreio do cancro do colo do útero por volta dos 21 anos de idade, ou conforme a recomendação do seu profissional de saúde. Além disso, qualquer sangramento vaginal anómalo, dor pélvica persistente ou secreção vaginal incomum deve ser avaliado por um médico o mais rapidamente possível, independentemente da sua idade ou do seu histórico de rastreio.

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