O que provoca o hipotireoidismo?

Hipotireoidismo: Causas, Diagnóstico e Tratamento

19/02/2023

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A tireoide, uma pequena glândula em forma de borboleta localizada na base do pescoço, desempenha um papel gigantesco no funcionamento do nosso corpo. Ela é responsável pela produção de hormônios essenciais, a tri-iodotironina (T3) e a tiroxina (T4), que regulam o metabolismo, influenciando desde a temperatura corporal e o batimento cardíaco até o humor e os níveis de energia. Quando essa glândula não funciona adequadamente, seja produzindo hormônios em excesso (hipertireoidismo) ou em quantidade insuficiente (hipotireoidismo), todo o organismo pode ser afetado.

O hipotireoidismo é uma das disfunções endócrinas mais prevalentes, afetando uma parcela significativa da população, especialmente mulheres e indivíduos acima dos 45 anos. No Brasil, estima-se que 1 a cada 10 pessoas sofra dessa condição. Alarmantemente, uma grande parte dessas pessoas nem sequer sabe que possui a doença, e muitos que sabem não buscam o tratamento adequado. Compreender o que causa o hipotireoidismo, como ele é diagnosticado e quais são as opções de tratamento é fundamental para garantir uma boa qualidade de vida e prevenir complicações.

Índice de Conteúdo

O Que Causa o Hipotireoidismo?

O hipotireoidismo primário, a forma mais comum da doença, ocorre quando a própria tireoide não consegue produzir quantidades adequadas dos hormônios T4 e T3. Essa falha leva a um aumento nos níveis do hormônio tireoestimulante (TSH), produzido pela hipófise, em uma tentativa de estimular a tireoide a trabalhar mais. Diversos fatores podem levar a essa condição:

1. Doenças Autoimunes: A Tireoidite de Hashimoto

Nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo, a causa mais frequente do hipotireoidismo é uma inflamação autoimune. A Tireoidite de Hashimoto é uma doença crônica na qual o sistema imunológico do corpo, por engano, ataca e danifica as células da tireoide. Esse ataque progressivo compromete a capacidade da glândula de produzir hormônios. Inicialmente, a tireoide pode apresentar um bócio firme (aumento da glândula), mas, com o tempo, ela pode se tornar fibrótica e diminuída, perdendo quase toda a sua função.

2. Tratamentos para Hipertireoidismo

O hipotireoidismo pós-terapêutico é a segunda causa mais comum da condição. Isso ocorre principalmente após tratamentos para hipertireoidismo, como a terapia com iodo radioativo ou cirurgias para remover parte ou toda a tireoide (tireoidectomia), seja para tratar o hipertireoidismo, bócio volumoso ou câncer de tireoide. Embora esses tratamentos sejam eficazes para o hipertireoidismo, eles frequentemente resultam em uma tireoide subativa.

3. Deficiência de Iodo

O iodo é um micronutriente vital para a síntese dos hormônios tireoidianos (T3 e T4 contêm átomos de iodo em suas moléculas). A deficiência severa de iodo pode levar ao bócio endêmico e ao hipotireoidismo. Em resposta à falta de iodo, o TSH é liberado em excesso, tentando compensar a baixa produção hormonal, o que causa o aumento da tireoide e uma captação ávida de iodo, resultando no bócio. Embora rara em países como os Estados Unidos e o Brasil (devido à iodação do sal de cozinha e farinhas), a deficiência de iodo ainda é uma causa importante de hipotireoidismo congênito (anteriormente conhecido como cretinismo endêmico) em regiões do mundo com carência grave desse mineral, sendo uma das principais causas de deficiência intelectual.

4. Medicamentos e Outras Substâncias

Alguns medicamentos podem interferir na função da tireoide e causar hipotireoidismo. Exemplos incluem:

  • Lítio: Usado no tratamento de transtornos bipolares, pode inibir a liberação de hormônios pela tireoide.
  • Amiodarona: Um fármaco cardíaco que contém iodo e pode afetar a tireoide.
  • Interferon-alfa: Usado no tratamento de certas infecções virais e cânceres.
  • Inibidores do ponto de checagem e inibidores da tirosina quinase: Medicamentos utilizados em terapias contra o câncer.
  • Propiltiouracila e Metimazol: Embora sejam usados para tratar o hipertireoidismo, um excesso na dosagem pode induzir hipotireoidismo temporário, que geralmente desaparece após a suspensão do tratamento.

5. Radioterapia

A radioterapia direcionada à região do pescoço, como no tratamento de câncer de laringe ou linfoma de Hodgkin, pode danificar a tireoide e levar ao hipotireoidismo permanente. Nesses casos, a função da tireoide deve ser monitorada regularmente, geralmente a cada 6 a 12 meses, através da medição do TSH sérico.

6. Defeitos Enzimáticos Hereditários Raros

Em casos mais raros, defeitos enzimáticos genéticos podem comprometer a síntese de hormônios tireoidianos, resultando em hipotireoidismo com bócio.

Qual o Valor do TSH Considerado Hipotireoidismo?

O hormônio TSH (Hormônio Estimulador da Tireoide) é um indicador crucial da saúde da tireoide. Ele é produzido pela hipófise, uma pequena glândula localizada no cérebro, e sua função é estimular a tireoide a produzir T3 e T4. Quando a tireoide não está produzindo hormônios suficientes, a hipófise aumenta a produção de TSH na tentativa de "acelerar" a tireoide. Por isso, um TSH alto é um forte indicativo de hipotireoidismo.

O Que Significa um TSH Alto?

Um nível elevado de TSH no sangue sugere que a tireoide está trabalhando de forma insuficiente. Por outro lado, um TSH baixo pode indicar hipertireoidismo, onde a tireoide está produzindo hormônios em excesso, e a hipófise reduz o TSH para tentar frear essa produção.

Valores de Referência do TSH

O diagnóstico de hipotireoidismo é relativamente simples e envolve exames de sangue que medem os níveis de TSH e T4 livre. Os valores de referência podem variar ligeiramente entre laboratórios, mas geralmente seguem as seguintes diretrizes:

Nível de TSHInterpretação
< 4,5 μUI/mLNíveis normais de TSH, baixa probabilidade de hipotireoidismo.
4,5 a 10 μUI/mLAlteração no nível de TSH, podendo indicar hipotireoidismo subclínico ou leve. Requer acompanhamento.
> 10 μUI/mLNível alto de TSH, com grandes chances de hipotireoidismo clínico. Quase sempre indica necessidade de tratamento.

Além do TSH, o exame de T4 livre é fundamental. Os níveis normais de T4 livre geralmente estão entre 0,9 e 1,8 ng/dL. Se o TSH estiver alto e o T4 livre estiver abaixo dessa margem, o diagnóstico de hipotireoidismo é confirmado.

Para investigar a causa do hipotireoidismo, especialmente se houver suspeita de doença autoimune como a Tireoidite de Hashimoto, o médico pode solicitar exames de Anti-TPO (anti-tireoide peroxidase) e Anti-Tg (anti-tireoglobulina). É importante notar que 10 a 15% dos pacientes com Hashimoto podem ter resultados negativos para esses anticorpos, mas ainda assim ter a doença.

Quais os Principais Sintomas do Hipotireoidismo?

Os sintomas do hipotireoidismo podem ser variados e, muitas vezes, inespecíficos, o que pode atrasar o diagnóstico. No hipotireoidismo subclínico (TSH alto, mas T3 e T4 normais), o paciente geralmente não apresenta sintomas. No entanto, no hipotireoidismo clínico, a deficiência hormonal se manifesta de diversas formas, afetando múltiplos sistemas do corpo. Os sintomas mais comuns incluem:

  • Fadiga, cansaço excessivo e letargia
  • Ganho de peso inexplicável
  • Intolerância ao frio, sensação constante de frio
  • Pele seca e cabelos ásperos ou queda de cabelo
  • Unhas quebradiças
  • Constipação (prisão de ventre)
  • Dor muscular e nas articulações
  • Esquecimento, perda de memória e dificuldade de concentração
  • Depressão e alterações de humor
  • Distúrbios menstruais e infertilidade em mulheres
  • Diminuição da sudorese
  • Visão borrada e diminuição da audição (em casos mais avançados)
  • Voz rouca
  • Inchaço no rosto e nas pálpebras

Devido à natureza geral desses sintomas, o hipotireoidismo pode ser confundido com outras condições, o que reforça a importância de procurar um médico ao notar esses sinais.

Como é o Tratamento do Hipotireoidismo?

Se você receber o diagnóstico de TSH elevado, o primeiro passo é procurar um médico. Ele solicitará exames adicionais para confirmar o hipotireoidismo e determinar sua causa. O tratamento do hipotireoidismo é, na maioria dos casos, simples e altamente eficaz, consistindo na reposição hormonal.

O principal medicamento utilizado é a levotiroxina, uma versão sintética do hormônio T4 que a tireoide não consegue produzir em quantidade suficiente. Este medicamento deve ser tomado diariamente, geralmente em jejum, para garantir sua absorção ideal. A dosagem da levotiroxina é individualizada e ajustada com base nos níveis de TSH do paciente, que são monitorados regularmente através de exames de sangue.

Para a maioria dos pacientes, o tratamento com levotiroxina é de longo prazo, muitas vezes por toda a vida. No entanto, existem casos de hipotireoidismo temporário, que podem ser causados por reações a outros medicamentos ou por alterações hormonais durante a gravidez. Nesses cenários, a função da tireoide pode se autorregular após um tempo, e o tratamento medicamentoso pode não ser necessário ou ser apenas provisório.

É crucial seguir rigorosamente a prescrição médica e não interromper ou alterar a dosagem do medicamento por conta própria. A função da tireoide pode mudar com o tempo, exigindo ajustes na dosagem da levotiroxina para manter os níveis hormonais em equilíbrio. O uso inadequado do medicamento pode levar a outros problemas de saúde, como sintomas de hipertireoidismo (se a dose for muito alta) ou a persistência dos sintomas de hipotireoidismo (se a dose for muito baixa).

É Possível Controlar o TSH Elevado Naturalmente?

Muitas pessoas buscam abordagens naturais para controlar o TSH elevado. É importante ressaltar que, embora certas mudanças no estilo de vida e na dieta possam complementar o tratamento medicamentoso, elas raramente substituem a necessidade da levotiroxina em casos de hipotireoidismo estabelecido. O tratamento com levotiroxina continua sendo o padrão ouro para a maioria dos pacientes.

No entanto, algumas estratégias podem ajudar a otimizar a função tireoidiana e melhorar o bem-estar geral:

1. Alimentação Balanceada e Nutrientes Essenciais

A dieta desempenha um papel importante na saúde da tireoide. Nutrientes como iodo, selênio e zinco são cruciais para a produção e conversão dos hormônios tireoidianos. Incluir alimentos ricos nesses nutrientes pode ser benéfico:

  • Iodo: Presente em frutos do mar (peixes, algas), sal iodado e laticínios. No entanto, o excesso de iodo pode ser prejudicial para algumas pessoas com doenças tireoidianas, por isso a suplementação deve ser supervisionada.
  • Selênio: Encontrado em castanha-do-pará (uma ou duas por dia são suficientes), sementes de girassol, ovos e peixes. O selênio é um antioxidante que protege a tireoide e auxilia na conversão de T4 em T3.
  • Zinco: Presente em carne vermelha, ostras, feijão, nozes e sementes. O zinco é necessário para a síntese hormonal.

É aconselhável evitar o consumo excessivo de alimentos que podem interferir na absorção de nutrientes ou na função tireoidiana, como a soja em grandes quantidades e alimentos ultraprocessados, que são pobres em nutrientes e ricos em substâncias inflamatórias.

2. Controle do Estresse

O estresse crônico pode impactar negativamente a função da tireoide, pois eleva os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. O cortisol em excesso pode interferir na produção e conversão dos hormônios tireoidianos. Práticas de relaxamento como meditação, ioga, exercícios físicos leves a moderados e garantir um sono de qualidade podem ajudar a reduzir os níveis de estresse e, consequentemente, apoiar a saúde da tireoide.

3. Suplementação Cautelosa

Se houver deficiências nutricionais comprovadas, a suplementação pode ser considerada. No entanto, é fundamental que qualquer suplementação (seja de iodo, selênio, zinco ou outros) seja feita sob orientação médica e com exames de sangue para monitorar os níveis. O uso inadequado de suplementos, especialmente o iodo, pode piorar a condição da tireoide para algumas pessoas.

Perguntas Frequentes sobre Hipotireoidismo

TSH elevado é perigoso?

Um TSH elevado por si só indica que a tireoide está subfuncionando e que o corpo está tentando compensar essa deficiência. Se não for tratado, o hipotireoidismo pode levar a complicações sérias a longo prazo, como aumento do colesterol, maior risco de doenças cardiovasculares, infertilidade, problemas neurológicos e, em casos extremos, coma mixedematoso. Portanto, embora o TSH elevado não seja uma emergência imediata, ele é um sinal de alerta que exige atenção médica e tratamento para evitar o agravamento da condição e suas complicações.

Como o hipotireoidismo é diagnosticado?

O diagnóstico é feito principalmente por meio de exames de sangue que medem os níveis de TSH e T4 livre. Um TSH elevado em conjunto com um T4 livre baixo ou normal (no caso de hipotireoidismo subclínico) sugere a condição. Exames adicionais, como o Anti-TPO e Anti-Tg, podem ser solicitados para identificar a presença de uma doença autoimune, como a Tireoidite de Hashimoto, como a causa subjacente.

O hipotireoidismo pode ser curado?

Na maioria dos casos, especialmente quando a causa é autoimune (Hashimoto) ou pós-cirúrgica/radioterapia, o hipotireoidismo é uma condição crônica que requer tratamento contínuo com levotiroxina por toda a vida. No entanto, em algumas situações, como hipotireoidismo induzido por medicamentos (que pode ser revertido ao suspender o fármaco) ou alterações hormonais temporárias (por exemplo, após a gravidez), a condição pode ser transitória e não necessitar de tratamento permanente.

Posso engravidar com hipotireoidismo?

Sim, é possível engravidar com hipotireoidismo, mas é crucial que a condição esteja bem controlada antes e durante a gravidez. O hipotireoidismo não tratado ou mal controlado pode aumentar o risco de complicações para a mãe (como pré-eclâmpsia, anemia, aborto espontâneo) e para o bebê (como parto prematuro, baixo peso ao nascer e problemas no desenvolvimento neurológico). Mulheres grávidas com hipotireoidismo geralmente precisam de um aumento na dose de levotiroxina, e os níveis de TSH devem ser monitorados de perto durante toda a gestação.

Quais alimentos devo evitar se tenho hipotireoidismo?

Embora não haja uma dieta específica que cure o hipotireoidismo, alguns alimentos podem interferir na função da tireoide ou na absorção da levotiroxina. Alimentos bociogênicos (como brócolis, couve-flor, repolho, couve) consumidos em grandes quantidades e crus podem, teoricamente, interferir na produção de hormônios, mas geralmente não são um problema se cozidos e consumidos com moderação. A soja em excesso também pode ter um efeito semelhante. O mais importante é evitar alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares e gorduras ruins, que contribuem para a inflamação e o ganho de peso. Além disso, a levotiroxina deve ser tomada separadamente de suplementos de cálcio, ferro e alguns antiácidos, pois eles podem prejudicar sua absorção.

Em suma, o hipotireoidismo é uma condição que exige atenção, mas que, com o diagnóstico correto e o tratamento adequado, permite que os pacientes levem uma vida plena e saudável. Acompanhamento médico regular e a adesão ao tratamento são chaves para o sucesso no controle dessa condição.

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