05/03/2024
O fibrocimento, popularmente conhecido como lusalite, foi um material revolucionário nas construções das décadas de 70 e 80, amplamente utilizado em telhados, pavimentos, portas corta-fogo e outras estruturas. Sua popularidade devia-se à notável resistência e durabilidade que oferecia. Contudo, por trás dessa aparente vantagem, escondia-se um perigo silencioso: o amianto. A descoberta de que as fibras de amianto são altamente cancerígenas levou à sua proibição rigorosa em muitos países, incluindo Portugal (em 2005) e o Brasil (em 2017). Mas como saber se o fibrocimento que ainda existe em edifícios antigos contém amianto? E, mais importante, como agir para garantir a segurança de todos? Este artigo irá guiá-lo por esse processo complexo, desde a identificação até o descarte correto.

- O Legado do Amianto: Resistência com Risco
- Identificando o Amianto: O Que Você Precisa Saber
- Riscos à Saúde e a Importância da Boa Conservação
- Quando a Remoção é Necessária e Como Proceder
- Descarte Correto: O Amianto é um Resíduo Perigoso
- Precauções Essenciais ao Manusear Materento (Apenas para Profissionais)
- Perguntas Frequentes sobre Amianto
O Legado do Amianto: Resistência com Risco
O fibrocimento, uma mistura de cimento e amianto, marcou uma era na construção civil. Era um material versátil e económico, ideal para a rápida expansão urbana da época. Sua capacidade de formar placas leves, mas robustas, o tornou a escolha preferencial para coberturas de telhados e divisórias. A facilidade de manuseio e o baixo custo eram atrativos inegáveis. No entanto, a ciência avançou e revelou a face sombria do amianto. As fibras microscópicas presentes neste material, quando inaladas, representam uma ameaça grave e silenciosa à saúde humana. A proibição não foi um capricho, mas uma resposta urgente à evidência esmagadora de seus efeitos nocivos, que podem se manifestar décadas após a exposição.
Identificando o Amianto: O Que Você Precisa Saber
Muitas pessoas olham para uma telha antiga de fibrocimento e se perguntam: “Será que tem amianto?”. A verdade é que, à primeira vista, é quase impossível ter certeza. Embora a presença de amianto seja comum em materiais de fibrocimento instalados antes das proibições (2005 em Portugal, 2017 no Brasil), a única forma de confirmar a sua existência é através de uma análise laboratorial especializada. Não confie em métodos caseiros ou na aparência do material; a segurança exige precisão.
Sinais de Alerta e a Necessidade de Análise Profissional
Se a sua propriedade foi construída ou renovada antes das datas de proibição, e possui materiais como telhas, caixas d'água, tubulações ou portas corta-fogo de fibrocimento, há uma alta probabilidade de que contenham amianto. Materiais que estão danificados, quebrados, esfarelando ou que foram cortados ou perfurados são particularmente preocupantes, pois é nesse estado que as fibras de amianto podem ser libertadas para o ar. Contudo, a mera suspeita não é suficiente. Para uma confirmação definitiva e segura, é imperativo:
- Contratar um Técnico ou Empresa Especializada: Estes profissionais têm o conhecimento e os equipamentos necessários para recolher amostras do material de forma segura, minimizando a libertação de fibras.
- Análise em Laboratório Acreditado: As amostras recolhidas são enviadas para um laboratório que realizará testes específicos para determinar a presença e o tipo de amianto. Esta é a única forma de obter uma resposta conclusiva e fiável.
Lembre-se: tentar recolher as amostras por conta própria pode ser extremamente perigoso e contraproducente, pois pode inadvertidamente libertar as fibras tóxicas no ambiente.
Riscos à Saúde e a Importância da Boa Conservação
A presença de amianto em um edifício, por si só, não constitui um risco imediato para a saúde, desde que o material esteja em excelente estado de conservação. O perigo surge quando o material é danificado, seja por ações como corte, perfuração, quebra, ou simplesmente pela degradação natural ao longo do tempo. É nesse momento que as fibras microscópicas de amianto são libertadas para o ar e podem ser inaladas.
As Doenças Associadas à Exposição ao Amianto
A Direção-Geral da Saúde (DGS) de Portugal e a Organização Mundial da Saúde (OMS) são claras: todas as variedades de amianto são agentes cancerígenos. As doenças associadas à inalação destas fibras podem demorar anos, até décadas, a manifestar-se, tornando o amianto um inimigo silencioso e traiçoeiro. As condições mais comuns incluem:
- Cancro do Pulmão: Uma das doenças mais devastadoras, frequentemente ligada à exposição ocupacional ao amianto.
- Mesotelioma: Um tipo raro e agressivo de cancro que afeta o revestimento dos pulmões, abdómen ou coração, quase exclusivamente causado pela exposição ao amianto.
- Asbestose: Uma doença pulmonar crónica que causa cicatrização dos tecidos pulmonares, dificultando a respiração.
- Cancro Gastrointestinal: Estudos também indicam uma ligação entre a inalação de fibras de amianto e o aumento do risco de cancro no trato gastrointestinal.
Dada a gravidade destas doenças, a DGS recomenda que a exposição a qualquer tipo de fibra de amianto seja reduzida ao mínimo possível. A prevenção é a única forma eficaz de proteção.
Material Intacto vs. Material Danificado: Um Quadro Comparativo
A decisão de remover ou manter o amianto depende fundamentalmente do seu estado de conservação. Veja as diferenças:
| Característica | Material com Amianto Intacto e Bem Conservado | Material com Amianto Danificado ou Degradado |
|---|---|---|
| Risco para a Saúde | Baixo, desde que não haja agressão direta. Fibras não são libertadas. | Elevado, com risco significativo de libertação de fibras respiráveis. |
| Aparência | Superfície lisa, sem fissuras, quebras, esfarelamento ou desgaste visível. | Presença de fissuras, quebras, áreas esfareladas, pó, musgo ou desintegração. |
| Ação Recomendada | Manter o material, monitorizar o estado de conservação periodicamente. Não intervir. | Contactar especialistas para avaliação, análise laboratorial e eventual remoção. |
| Manuseio | Evitar qualquer tipo de intervenção que possa danificar o material. | Absolutamente proibido manuseio por não-profissionais. Risco de inalação imediato. |
Quando a Remoção é Necessária e Como Proceder
Se, após a avaliação profissional e a análise laboratorial, for confirmada a presença de amianto e o material estiver em mau estado de conservação, com risco de libertação de fibras para o ar, a remoção e substituição tornam-se imperativas. Este é um processo que exige a máxima cautela e deve ser realizado exclusivamente por especialistas.
Contratando a Empresa Certa para a Remoção
A remoção de amianto não é uma tarefa para amadores. As empresas especializadas possuem o conhecimento técnico, os equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados e os procedimentos de segurança para garantir que as fibras não se espalhem durante o processo. Ao escolher uma empresa, considere os seguintes pontos:
- Experiência Comprovada: Procure empresas com um histórico sólido na remoção de amianto. Peça referências e verifique projetos anteriores.
- Procedimentos de Segurança: Antes de contratar, questione a empresa sobre os métodos que utilizarão. Eles devem ser capazes de explicar como vão garantir a segurança dos trabalhadores e do ambiente circundante, incluindo a remoção das peças inteiras e a aspiração de resíduos.
- Autorizações e Licenças: Em Portugal, as empresas devem ter alvará de construção do Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção (IMPIC) e autorização da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) para obras que envolvam amianto. No Brasil, devem ser devidamente cadastradas em órgãos reguladores estaduais, como a SP Regula em São Paulo.
- Orçamentos Detalhados: Solicite pelo menos dois ou três orçamentos. A remoção de amianto pode ser cara, mas a segurança não tem preço. Os orçamentos devem incluir não apenas a remoção, mas também o transporte e o descarte final do material, bem como a substituição, se aplicável.
Após a remoção, a empresa contratada tem a responsabilidade de garantir que a área fica totalmente livre de poeiras e partículas de amianto em todas as estruturas, equipamentos e zona envolvente. A limpeza pós-remoção é tão crítica quanto a própria remoção.
Descarte Correto: O Amianto é um Resíduo Perigoso
Um dos aspetos mais críticos e, por vezes, negligenciados do manuseio do amianto é o seu descarte. O amianto é classificado como um resíduo perigoso (Classe D, conforme a Resolução 307 do CONAMA no Brasil). Isso significa que ele não pode, em hipótese alguma, ser descartado em lixeiras comuns, ecopontos, aterros sanitários não licenciados ou na coleta seletiva domiciliar. O descarte incorreto coloca em risco a saúde pública e o meio ambiente.

Onde Depositar Materiais com Amianto?
O encaminhamento e a deposição final de resíduos com amianto são uma competência de operadores licenciados. Em Portugal, a Agência Portuguesa para o Ambiente (APA) disponibiliza uma listagem de operadores licenciados para o tratamento de resíduos de construção e demolição com amianto. No Brasil, os aterros devem ser licenciados por órgãos ambientais competentes, como a CETESB em São Paulo, e as empresas coletoras devem ser cadastradas em agências reguladoras como a SP Regula.
A responsabilidade pelo encaminhamento é do produtor ou detentor do resíduo. Portanto, ao contratar uma empresa para a remoção, certifique-se de que ela tem a capacidade e a licença para transportar e depositar o amianto num dos operadores de gestão de resíduos devidamente autorizados a receber este tipo de material. Exija a documentação que comprove o descarte adequado.
Precauções Essenciais ao Manusear Materento (Apenas para Profissionais)
Embora a recomendação seja sempre deixar o manuseio para profissionais, é vital entender as precauções que devem ser tomadas, caso você se depare com uma situação onde o amianto possa estar presente antes da chegada dos especialistas. Estas diretrizes são cruciais para minimizar a exposição e são uma prática padrão para quem trabalha com este material:
- Identificação Correta: Se houver rótulos ou informações no produto, verifique-os. Se não, a suspeita deve levar à busca por ajuda profissional para identificação.
- Uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs): Qualquer pessoa que se aproxime ou manuseie amianto, mesmo que por um breve período, deve usar EPIs completos: máscara facial de alta eficiência (P3 ou N100), luvas resistentes, óculos de proteção e um macacão descartável que cubra todo o corpo.
- Evitar Ações que Libertem Fibras: A regra de ouro é NUNCA cortar, serrar, perfurar, lixar ou quebrar o material que contém amianto. Estas ações são as principais responsáveis pela libertação das fibras microscópicas no ar. O ideal é remover as peças inteiras, sem qualquer tipo de fratura.
- Embalagem Adequada: O amianto removido (mesmo as peças inteiras) deve ser imediatamente embalado em sacos resistentes e duplos, selados hermeticamente e claramente etiquetados como "RESÍDUO PERIGOSO" ou "CONTÉM AMIANTO". Isso evita a dispersão das fibras durante o transporte e armazenamento temporário.
Seguir estas precauções é fundamental para a segurança e para evitar a contaminação do ambiente e a exposição de outras pessoas.
Perguntas Frequentes sobre Amianto
1. O amianto é perigoso mesmo se não for tocado?
Se o material com amianto estiver intacto, selado, em bom estado de conservação e não for perturbado (cortado, perfurado, quebrado), o risco de libertação de fibras para o ar é baixo. O perigo surge quando o material se degrada ou é danificado, libertando as fibras.
2. Posso remover o amianto sozinho para economizar?
Não, de forma alguma. A remoção de amianto é uma tarefa de alta complexidade e risco, que exige conhecimento técnico, equipamentos de proteção específicos e procedimentos rigorosos para evitar a libertação de fibras. Tentar remover o amianto por conta própria pode levar a uma exposição perigosa e à contaminação de sua propriedade e de si mesmo, com consequências graves para a saúde a longo prazo. É um trabalho exclusivo para especialistas.
3. Como sei se uma empresa é qualificada para remover amianto?
Verifique se a empresa possui experiência comprovada neste tipo de serviço. Em Portugal, ela deve ter alvará de construção do IMPIC e autorização da ACT para trabalhos com amianto. No Brasil, verifique o cadastro junto aos órgãos reguladores estaduais, como a SP Regula em São Paulo, e peça referências ou comprovantes de descarte em aterros licenciados.
4. Onde posso encontrar uma lista de locais de descarte licenciados?
Em Portugal, a Agência Portuguesa para o Ambiente (APA) costuma disponibilizar listas de operadores licenciados para a gestão de resíduos perigosos, incluindo amianto. No Brasil, você pode consultar as agências ambientais estaduais (como a CETESB em São Paulo) ou as agências reguladoras de serviços públicos para obter informações sobre aterros e empresas de descarte licenciadas.
5. Quanto custa remover amianto?
Os custos de remoção de amianto variam significativamente dependendo da quantidade de material, do tipo de estrutura, da complexidade do trabalho e da localização geográfica. Geralmente, envolvem a remoção, o transporte seguro e o descarte em aterros licenciados. É fundamental solicitar vários orçamentos de empresas especializadas para comparar e entender o escopo do serviço.
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