21/01/2023
A recente recaptura dos dois últimos fugitivos da prisão de Vale de Judeus, Rodolfo Lohrmann e Mark Roscaleer, em Alicante, Espanha, marcou o desfecho de uma caçada humana que durou meses e expôs severas fragilidades no sistema prisional português. Este evento, que culminou na demissão do diretor-geral de Reinserção e Serviços Prisionais, acendeu um alerta sobre a segurança das nossas cadeias e a necessidade urgente de reformas. A fuga de cinco reclusos em setembro passado não foi um mero incidente, mas sim um espetáculo que colocou em xeque a confiança pública e as autoridades, revelando a audácia dos criminosos e a persistência das forças policiais.

- A Espetacular Evasão de Vale de Judeus: Um Desafio à Segurança Prisional
- A Caçada Humana: O Rasto dos Foragidos e Suas Capturas
- Perfis dos Fugitivos Mais Perigosos: Uma Análise Aprofundada
- O Futuro dos Recapturados: Prisão de Alta Segurança e Punições Adicionais
- O Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus: Por Dentro das Instalações
- O Panorama Prisional Português: Desafios e Fragilidades
- Perguntas Frequentes sobre a Fuga de Vale de Judeus
A Espetacular Evasão de Vale de Judeus: Um Desafio à Segurança Prisional
Na madrugada de setembro passado, um evento chocante abalou a tranquilidade do Estabelecimento Prisional de Alcoentre, em Vale de Judeus. Cinco reclusos considerados de alta periculosidade conseguiram evadir-se, numa ação que parecia retirada de um filme. Para alcançarem a liberdade, os foragidos necessitaram de algo tão simples quanto um escadote, utilizado para transpor um muro da prisão, e a cumplicidade de três indivíduos que os aguardavam no exterior com um veículo de fuga. Este método rudimentar, mas eficaz, pôs a nu as deficiências de segurança do sistema prisional português, levando a um escrutínio público sem precedentes e à imediata demissão do diretor-geral de Reinserção e Serviços Prisionais. A sociedade questionava como era possível que criminosos com longas penas e históricos de crimes graves pudessem escapar com tamanha facilidade, transformando a fuga numa metáfora das vulnerabilidades existentes.
A Caçada Humana: O Rasto dos Foragidos e Suas Capturas
A partir do momento da fuga, iniciou-se uma intensa operação de busca e captura, envolvendo diversas forças policiais e cooperação internacional. A prioridade era clara: trazer de volta os cinco homens que representavam um perigo para a sociedade. A cada recaptura, a tensão diminuía, mas o mistério sobre o paradeiro dos restantes aumentava, especialmente sobre os mais perigosos.
Fábio Loureiro: O Primeiro a Cair em Marrocos
O primeiro a ser localizado e recapturado foi Fábio Loureiro, de 34 anos. A sua liberdade durou pouco mais de um mês, tendo sido apanhado a 6 de outubro em Tânger, Marrocos. A sua captura foi resultado de uma vigilância meticulosa à sua companheira, que acabou por conduzir as autoridades ao seu paradeiro. Loureiro cumpria uma pena de 25 anos por crimes graves como associação criminosa, branqueamento de capitais e furto qualificado. Apesar da captura, a sua extradição para Portugal ainda aguarda resposta das autoridades marroquinas, um processo que se tem revelado mais demorado do que o esperado, mantendo-o detido fora do território nacional.
Fernando Ferreira: De Volta à Prisão de Alta Segurança
O segundo foragido a ser devolvido à justiça foi Fernando Ferreira, de 61 anos. A sua recaptura ocorreu a 22 de novembro, numa residência em Castanheira de Chã, Montalegre. Ferreira, que cumpria uma pena de 24 anos por tráfico de estupefacientes, associação criminosa, furto, roubo e rapto, foi rapidamente transferido para a prisão de alta segurança de Monsanto, onde deverá continuar a cumprir a sua sentença. A sua captura em território nacional demonstrou a capacidade das autoridades portuguesas em rastrear e deter criminosos mesmo em áreas mais recônditas.
Shergili Farjiani: Recapturado em Itália
Já em dezembro, no dia 10, o georgiano Shergili Farjiani foi o terceiro a ser recapturado. A sua detenção aconteceu em Pádua, Itália, demonstrando a importância da cooperação internacional na localização de fugitivos que tentam cruzar fronteiras. Farjiani cumpria uma pena de sete anos por furto, violência, subtração e falsificação de documentos, e a sua rápida localização fora de Portugal sublinhou a eficácia das redes de informação entre as polícias europeias.
Rodolfo Lohrmann e Mark Roscaleer: O "Retorno Final" em Espanha
Os dois últimos e mais procurados fugitivos, o argentino Rodolfo Lohrmann e o britânico Mark Roscaleer, foram finalmente capturados em Alicante, no sul de Espanha. A sua detenção, noticiada pela CNN Portugal e confirmada pelo PÚBLICO, ocorreu dentro de um carro, na via pública, pondo fim a cinco meses de intensa busca. A Polícia Judiciária (PJ) designou esta operação de "Retorno Final", um nome que simboliza o desfecho bem-sucedido de um dos casos mais mediáticos do ano. Segundo o comunicado da PJ, a captura foi o resultado de um "persistente e ininterrupto trabalho de recolha e de troca de informação com as autoridades espanholas", revelando que os dois homens, embora capturados juntos, não passaram todo o período da fuga sempre na companhia um do outro. A ministra da Justiça, Rita Júdice, não tardou a felicitar a PJ, sublinhando a importância desta vitória para a confiança dos cidadãos nas forças de segurança portuguesas: "É muito gratificante ver que, cinco meses depois da fuga de cinco reclusos perigosos de Vale de Judeus, todos foram recapturados. Este êxito é uma prova da confiança que os cidadãos devem ter nas nossas polícias."
Perfis dos Fugitivos Mais Perigosos: Uma Análise Aprofundada
Os perfis de Rodolfo Lohrmann e Mark Roscaleer destacam-se pela periculosidade e pela complexidade das suas histórias criminais, tornando a sua recaptura um feito ainda mais significativo.

Rodolfo Lohrmann: O Cérebro Invisível e Procurado Internacionalmente
Hoje com 59 anos, Rodolfo José Lohrmann fixou-se em Portugal em 2014, conseguindo manter uma fachada de invisibilidade perante as autoridades, enquanto, na realidade, orquestrava uma série de assaltos a bancos por todo o território nacional. Este homem, que aparentava ser um cidadão comum, fazendo companhia a uma vizinha idosa todas as tardes, era, na verdade, o cérebro por detrás de assaltos meticulosamente planeados, que duravam meros segundos e lhe renderam, até 2016, pelo menos 235 mil euros. A sua tática era infalível: só avançava após os seus cúmplices estudarem durante um mês as rotinas das sucursais a serem atacadas. Embora geralmente evitasse a violência, registou-se um incidente em Cascais onde esbofeteou uma mulher grávida e a ameaçou de morte durante um assalto, revelando a sua capacidade de crueldade quando necessário.
A sua detenção pela Polícia Judiciária em novembro de 2016, em Aveiro, juntamente com um cúmplice, ocorreu quando se preparavam para assaltar uma carrinha de transporte de valores. Contudo, só um mês depois, ao contactarem as polícias latino-americanas, as autoridades portuguesas perceberam a dimensão da sua captura: tinham em mãos dois dos homens mais perigosos e procurados da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil, suspeitos de sequestros e homicídios de grande notoriedade. Lohrmann, também conhecido como "Russo", cumpria em Portugal uma pena de 20 anos, estando fugido à justiça argentina há mais de uma década. Em 2003, na Argentina, ele e o seu cúmplice raptaram Cristian Schaerer, filho de um antigo ministro da Saúde, cujo paradeiro permanece desconhecido até hoje. Após este crime, os dois fugiram para a Europa.
A sua capacidade de se manterem à margem da lei era notável: submeteram-se a intervenções cirúrgicas para alterar a aparência, utilizavam nomes e documentos falsos, trocavam frequentemente de número de telefone, comunicavam por códigos, pagavam as rendas a tempo em várias casas que alugavam em simultâneo e mantinham vidas pacatas e sem luxos. Dos cinco evadidos, o argentino era aquele cuja captura se afigurava mais difícil, dada a sua astúcia e experiência em permanecer indetetável.
Mark Roscaleer: Violência e Tentativas Anteriores de Evasão
Mark Cameron Roscaleer, de 35 anos, o cidadão britânico, estava a cumprir uma pena de nove anos por sequestro e roubo. O seu historial criminal em Inglaterra incluía a invasão de um pub, onde, encapuzado e armado com um martelo e uma faca, roubou o equivalente a quase 7700 euros. Juntamente com um parceiro de crime, ameaçou "esmagar o crânio" de um empregado do The Gunners Arms caso este não cooperasse, demonstrando a sua índole violenta.
A sua propensão para a evasão não era novidade. Em 2019, após ser transferido da prisão de média segurança em Silves, de onde já havia tentado escapar, para o Estabelecimento Prisional de Lisboa, Roscaleer partiu a janela da sua cela e planeava serrar as grades, cobrindo-se com óleo para facilitar a passagem. Foi apanhado a tempo, impedindo uma fuga iminente. Contudo, em 2024, conseguiu finalmente evadir-se de Vale de Judeus com os outros quatro homens, concretizando aquilo que há muito planeava.
O Futuro dos Recapturados: Prisão de Alta Segurança e Punições Adicionais
Com a recaptura de todos os fugitivos, a questão do seu futuro e das medidas a serem tomadas torna-se premente. Tal como os dois foragidos que já se encontram em Monsanto – Fernando Ferreira e Shergili Farjiani – também Rodolfo Lohrmann e Mark Roscaleer, quando extraditados para Portugal, irão ingressar nesta cadeia de alta segurança. Na Prisão de Monsanto, os reclusos ficam em celas individuais e têm direito a apenas duas horas de recreio por dia, um regime significativamente mais restrito do que em prisões de menor segurança. Além das penas que já estavam a cumprir, os cinco reclusos deverão agora enfrentar um agravamento das suas sentenças, com a adição de pelo menos mais dois anos de prisão devido ao crime de evasão. Este acréscimo serve como um desincentivo a futuras tentativas de fuga e uma punição pela violação da custódia judicial.
O processo de extradição, no entanto, pode ser complexo. O advogado de Lohrmann, Lopes Guerreiro, referiu que ainda não teve oportunidade de falar com o seu cliente para saber se este tenciona opor-se à extradição. Caso Lohrmann não se oponha, o seu regresso a Portugal será mais célere do que o de Fábio Loureiro, que, apesar de representado pelo mesmo advogado, continua detido em Marrocos desde outubro, aguardando que as autoridades marroquinas respondam ao pedido de extradição português. Esta disparidade nos tempos de extradição realça as complexidades legais e diplomáticas envolvidas em casos transfronteiriços.

O Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus: Por Dentro das Instalações
A fuga de Vale de Judeus colocou os holofotes sobre este estabelecimento prisional, levando a uma investigação aprofundada a cargo do Serviço de Auditoria e Inspeção da DGRSP, coordenada por um magistrado do Ministério Público. Para entender as fragilidades expostas, é crucial conhecer as características da prisão.
O Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus tem uma lotação para 560 lugares e recebeu o seu primeiro recluso em 1977. Curiosamente, a sua construção começou em 1960, mas as instalações foram inicialmente ocupadas por serviços das Forças Armadas. A DGRSP explica que "após a ocorrência da conhecida grande evasão de 1978, as instalações foram encerradas e só em 1981 entrou em funcionamento o Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus".
Em termos de infraestrutura, a prisão é constituída por quatro pavilhões de três pisos, dispostos num sistema de "poste telegráfico", um pavilhão de admissão, dois edifícios oficinais e um edifício administrativo. No coração do complexo prisional, existe uma vasta área de recreio, ladeada pelas instalações da escola, das oficinas, dos armazéns, da cozinha, da padaria, da lavandaria e da capela. A população prisional é predominantemente composta por reclusos condenados a penas de longa duração, com uma proporção significativa de reclusos estrangeiros, como era o caso de três dos cinco homens que conseguiram escapar no dia da fuga, o que adiciona uma camada de complexidade à gestão e segurança da prisão.
O Panorama Prisional Português: Desafios e Fragilidades
A fuga de Vale de Judeus não é um incidente isolado, mas um sintoma de problemas mais amplos no sistema prisional português. Com 49 estabelecimentos prisionais e um total de 12.193 reclusos, Portugal enfrenta desafios significativos. Mais de 70 por cento das prisões portuguesas operam com uma ocupação superior a 90 por cento, uma taxa que as classifica como de "alto risco". Esta sobrelotação não só compromete a segurança, aumentando a tensão e a probabilidade de incidentes, como também dificulta a reinserção social dos reclusos, que é um dos objetivos primordiais do sistema prisional. A alta ocupação pode levar à deterioração das condições de vida, à sobrecarga dos guardas prisionais e à diminuição da vigilância eficaz. A situação de Vale de Judeus, onde criminosos perigosos conseguiram evadir-se, serve como um lembrete vívido da urgência de investir em infraestruturas, tecnologia e recursos humanos para garantir a segurança e a eficácia do sistema prisional, protegendo tanto a sociedade quanto os próprios reclusos e funcionários.
Perguntas Frequentes sobre a Fuga de Vale de Judeus
Onde foram capturados os últimos fugitivos de Vale de Judeus?
Os últimos dois fugitivos, Rodolfo Lohrmann e Mark Roscaleer, foram capturados em Alicante, no sul de Espanha, dentro de um carro, na via pública.
Quantos presos fugiram de Vale de Judeus?
Cinco reclusos conseguiram evadir-se da prisão de Vale de Judeus em setembro passado.

O que se sabe sobre Rodolfo Lohrmann?
Rodolfo Lohrmann, de 59 anos, é um argentino com um vasto cadastro de crimes graves, incluindo raptos e homicídios na Argentina, onde era um dos mais procurados. Em Portugal, era o cérebro por trás de assaltos a bancos e cumpria uma pena de 20 anos. Era conhecido por usar identidades e documentos falsos e por viver de forma discreta para evitar a deteção.
Qual a capacidade da Prisão de Vale de Judeus?
O Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus tem uma lotação para 560 lugares.
Quantas prisões existem em Portugal?
Atualmente, Portugal possui 49 estabelecimentos prisionais.
Os fugitivos recapturados terão pena adicional?
Sim, além das penas que já estavam a cumprir, deverão ser acrescentados pelo menos mais dois anos de prisão a cada um dos reclusos por causa da evasão.
Para qual prisão os fugitivos serão enviados?
Todos os fugitivos recapturados, incluindo Lohrmann e Roscaleer após extradição, serão transferidos para a prisão de alta segurança de Monsanto, onde ficarão em celas individuais e com regime restrito.
A recaptura de todos os fugitivos da prisão de Vale de Judeus é, sem dúvida, um testemunho da persistência e da capacidade de coordenação das autoridades portuguesas e internacionais. Contudo, este episódio serve como um lembrete contundente das vulnerabilidades que ainda persistem no sistema prisional do país. A fuga, que expôs fragilidades estruturais e de segurança, deve impulsionar uma reflexão profunda e a implementação de medidas robustas para garantir que eventos como este se tornem cada vez mais raros, reforçando a segurança pública e a confiança na justiça.
Se você quiser conhecer outros artigos parecidos com A Grande Fuga de Vale de Judeus: Todos Recapturados, pode visitar a categoria Saúde.
