27/06/2026
A história de uma profissão é muitas vezes contada através dos seus marcos institucionais, e no caso da farmácia em Portugal, a trajetória da Ordem dos Farmacêuticos é um testemunho de resiliência, dedicação e busca contínua por um espaço que represente a dignidade e a importância da sua missão. Desde os seus primórdios, a instituição que hoje conhecemos como Ordem dos Farmacêuticos tem percorrido um longo caminho, enfrentando desafios e celebrando conquistas que moldaram não apenas a sua estrutura física, mas também o seu papel fundamental na sociedade portuguesa. Este artigo convida-o a uma viagem no tempo, explorando as raízes, a evolução e as aspirações futuras da casa que acolhe os farmacêuticos de Portugal.

- As Raízes Históricas: Da SFL à Ordem dos Farmacêuticos
- A Busca por um Lar Definitivo: A Sede Própria de 1901
- Um Imóvel com Alma: Arquitetura e Arte na Sede da OF
- Desafios e Transformações: A Reabilitação e Ampliação do Espaço
- A Visão Futura: Preservação e Modernização para o Século XXI
- Cronologia da Sede da Ordem dos Farmacêuticos
- Perguntas Frequentes (FAQs) sobre a Ordem dos Farmacêuticos
As Raízes Históricas: Da SFL à Ordem dos Farmacêuticos
A génese da Ordem dos Farmacêuticos remonta a um período de grande efervescência no século XIX, com a fundação da Sociedade Farmacêutica Lusitana (SFL) em 1835. Este marco inaugural ocorreu num local simbólico, a Botica do Hospital de São José, em Lisboa, estabelecendo as bases para uma organização que viria a ser a legítima continuadora da representação dos farmacêuticos portugueses. Nos seus primeiros anos, a SFL experimentou uma fase de itinerância, refletindo talvez a própria juventude e a necessidade de consolidação da profissão na época. Inicialmente, a sua sede esteve localizada no Convento dos Carmelitas Descalços, atualmente conhecido como Quartel da Graça, um local com rica história e arquitetura. Contudo, esta não seria a sua morada definitiva por muito tempo. A SFL mudou-se subsequentemente para o Convento de São João Nepumoceno e, mais tarde, para o Recolhimento da Mouraria. Até ao final do século XIX, a instituição continuaria a sua busca por estabilidade, ocupando várias casas alugadas, a última das quais no número 234 da Rua dos Fanqueiros. Esta sucessão de moradas provisórias, embora demonstrasse a vitalidade da SFL, também fez crescer entre os seus membros um desejo profundo e partilhado: a aquisição de uma casa própria, um espaço que pudesse verdadeiramente simbolizar a sua permanência e a sua importância no panorama nacional. Este anseio por um lar definitivo para a farmácia portuguesa seria o motor de uma nova fase na história da instituição.
A Busca por um Lar Definitivo: A Sede Própria de 1901
O virar do século XIX para o XX marcou um ponto de viragem decisivo para a Sociedade Farmacêutica Lusitana. O desejo coletivo de possuir uma sede própria, que oferecesse a estabilidade e o prestígio que a profissão merecia, começou a materializar-se. Em janeiro de 1900, um anúncio carregado de esperança comunicava a futura instalação da SFL em casa própria, prevista para janeiro do ano seguinte. Este projeto ambicioso foi impulsionado por uma "Comissão da Casa", que apresentou um relatório detalhado com a proposta de angariação de fundos. A estratégia passava pela emissão de 8.000$00 em obrigações de 10$00, um esforço conjunto para financiar a aquisição e construção. Embora a receita obtida tenha ficado aquém das expectativas iniciais, a Comissão demonstrou uma notável perseverança. Não vacilou perante os desafios financeiros e prosseguiu com o plano, propondo a compra de um terreno de 444,5 m², a um custo de 3$60 por metro quadrado. A construção do novo edifício foi então entregue à Companhia de Crédito Edificadora Portuguesa, por um montante de 7.339$00. Este processo culminou num momento histórico: em fevereiro de 1901, a SFL inaugurou finalmente a sua sede, um marco que lhe custou a importância total de 9.503$39. Este edifício, que se tornou a sede histórica da Ordem dos Farmacêuticos, está estrategicamente localizado numa zona de Lisboa que mantém o seu charme centenário, entre o Marquês de Pombal e o Campo dos Mártires da Pátria. A sua localização no gaveto formado pela Rua Bernardim Ribeiro e pela antiga Rua n.º 4 do Bairro Camões é particularmente significativa, pois esta última foi rebatizada como Rua da Sociedade Farmacêutica. Esta mudança de nome foi um claro reconhecimento do município de Lisboa pelos relevantes serviços prestados pela SFL à comunidade e ao país, solidificando o seu lugar na toponímia e na história da cidade. O local, embora de fácil acesso viário e pedonal, apresenta o desafio comum da capital: a dificuldade de parqueamento em superfície. Contudo, a zona é bem servida por transportes públicos, mitigando parte desse constrangimento, apesar de a estação de metropolitano mais próxima exigir uma caminhada considerável.
Um Imóvel com Alma: Arquitetura e Arte na Sede da OF
A sede da Ordem dos Farmacêuticos não é apenas um edifício; é um guardião de memórias e um repositório da história da profissão. Inicialmente, o imóvel foi concebido com dois pisos, apresentando uma particularidade interessante na sua área bruta de construção: a do segundo piso era superior à do primeiro. Esta característica arquitetónica peculiar explica-se pela forte inclinação da Rua Bernardim Ribeiro, um desafio topográfico que os construtores da época souberam integrar de forma engenhosa. A estrutura do edifício, típica das construções do início do século XX em Lisboa, é robusta e duradoura, assente em alvenaria de pedra. Os elementos de madeira, nomeadamente na constituição dos pavimentos e na estrutura da cobertura, conferem-lhe uma solidez e um charme que resistem ao tempo. Embora as suas linhas arquitetónicas externas possam ser descritas como de grande simplicidade, o verdadeiro esplendor do edifício revela-se no seu interior. É aqui que se encontram elementos decorativos de grande beleza e riqueza, que não só adornam o espaço mas também contam a história da profissão farmacêutica. Destacam-se, em particular, os tetos e o mobiliário do Salão Nobre, um espaço de grande dignidade onde se realizam cerimónias e reuniões importantes. A Biblioteca, um santuário do conhecimento, e o Gabinete do Bastonário, centro da liderança da Ordem, também exibem um mobiliário de época e detalhes artísticos que enriquecem a experiência de quem os visita. Entre os elementos mais notáveis, encontra-se um vitral ricamente policromado, que ostenta o símbolo da Farmácia. Posicionado estrategicamente sobre a entrada, este vitral não é apenas uma peça de arte, mas um emblema visível da identidade da Ordem. Outro elemento de destaque é o painel de azulejos, que representa uma gravura clássica do alquimista, envolta por uma majestosa cercadura barroca. Estas duas obras de arte foram instaladas em 1927, um ano de grande significado para a profissão, pois coincidiu com a realização do 1.º Congresso Nacional de Farmácia. A sua presença na sede sublinha a ligação intrínseca da farmácia à sua herança científica e cultural, celebrando tanto o passado alquímico quanto o futuro da ciência farmacêutica.
Desafios e Transformações: A Reabilitação e Ampliação do Espaço
Apesar da sua beleza e importância histórica, o tempo não poupa edifícios, e a sede da Ordem dos Farmacêuticos não foi exceção. A partir da década de 60 do século passado, tornou-se cada vez mais evidente o estado de degradação a que o velho imóvel havia chegado. Não se tratava apenas de uma questão estética, que não condizia com o mínimo de dignidade exigível para uma Ordem profissional de tamanha importância e significado. Os problemas eram mais profundos, afetando a insuficiência e a funcionalidade dos serviços administrativos, que se tornavam cada vez mais complexos com o crescimento da Ordem. Além disso, a própria segurança do edifício estava em causa, com indícios de ameaça de ruína que exigiam uma intervenção urgente. Foi neste contexto desafiador que, no início dos anos 80, a Direção da Ordem eleita, liderada pelo bastonário Alfredo Albuquerque (1982-1989), tomou uma decisão crucial. A intervenção não se limitaria a obras de conservação e reforço da segurança; visava também uma ambiciosa beneficiação das instalações existentes, através de um aumento significativo da área disponível. Esta ampliação foi obtida com o engenhoso desaterro do rés-do-chão, uma obra que permitiu adicionar cerca de 200m² de área utilizável. Esta intervenção valorizou extraordinariamente o imóvel, ajudando a resolver os sérios problemas de índole administrativa que então existiam e elevando a área bruta de construção do edifício para 808m². Uma década mais tarde, a Ordem viu surgir uma nova oportunidade de expansão: a possibilidade de adquirir o prédio contíguo às instalações da sede histórica. Tratava-se de um edifício bastante degradado, com uma área total de 142m² – dividida entre uma área coberta de 112m² e um logradouro de 30m². Esta aquisição oferecia uma oportunidade única para uma maior ampliação da sede, elevando a superfície total edificável para 657m² se fosse integrada. Uma comissão foi prontamente nomeada para angariar fundos e apoios junto das empresas e dos próprios farmacêuticos. O esforço foi bem-sucedido, reunindo as condições necessárias para a celebração do ato oficial de escritura de compra e venda, que ocorreu na própria sede da Ordem, na presença do então bastonário, Carlos Silveira, e da presidente da Secção Regional de Lisboa, Clara Carneiro. Contudo, nem todos os projetos se concretizam como planeado. Um projeto pioneiro, que tinha por base um regime de co-propriedade com outras organizações farmacêuticas, não reuniu as condições necessárias para ser posto em prática e acabou por ser rejeitado em Assembleia Geral. Apesar deste revés, a busca por uma solução para a construção de novas instalações no mesmo local, desta vez de propriedade exclusiva da OF, manteve-se por muito tempo. A concretização de uma obra mais ambiciosa – que passaria pelo aproveitamento e/ou demolição do imóvel existente e a construção de um novo edifício que integrasse o espaço recém-adquirido – revelou-se um projeto de difícil execução. Os desafios eram múltiplos: desde os aspetos técnicos relacionados com a execução da obra e o seu financiamento, até à necessidade de transferir provisoriamente os serviços da Ordem para outro local durante a construção. Infelizmente, uma série de circunstâncias fez com que o projeto fosse sucessivamente adiado. O prédio contíguo adquirido continuou a degradar-se, sem que tivesse qualquer serventia digna de registo para a Ordem, um testemunho das complexidades inerentes a projetos de grande envergadura e da dificuldade em conciliar aspirações com a realidade prática.
A Visão Futura: Preservação e Modernização para o Século XXI
Os constrangimentos relacionados com a sede histórica da Ordem dos Farmacêuticos persistiram ao longo dos anos, chegando até aos dias de hoje. Apesar dos fortes aspetos históricos e sentimentais evocados por muitos farmacêuticos, que defendiam a permanência da OF no edifício centenário que ocupa, a necessidade de encontrar soluções sustentáveis e funcionais tornou-se premente. Vários grupos de trabalho foram nomeados ao longo dos anos por diferentes bastonários – João Silveira (1998), José Aranda da Silva (2001) e Carlos Maurício Barbosa (2010) – com a missão de estudar e propor alternativas viáveis para acolher a casa dos farmacêuticos. Foi neste contexto de busca por um futuro que os farmacêuticos aprovaram, em Assembleia Geral, a aquisição de novos imóveis em locais estratégicos de Lisboa: um no Parque das Nações, em 2005, e outro na Avenida Almirante Gago Coutinho, em 2009. No entanto, o destino destes imóveis foi revisto. Ambos foram posteriormente alienados, também por decisão da Assembleia Geral, com um objetivo renovado e focado: a concretização de um projeto que permitisse à OF manter-se na emblemática Rua da Sociedade Farmacêutica. A nova visão passa pela reabilitação e integração dos dois edifícios existentes – a sede histórica e o prédio contíguo adquirido – transformando-os numa solução coesa e modernizada para acolher tanto a Direção Nacional quanto a Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas (SRSRA-OF). Esta abordagem reflete um compromisso com o património e a identidade da Ordem, ao mesmo tempo que procura responder às exigências de funcionalidade e modernidade de uma instituição do século XXI. O desafio é grande, mas a determinação em dotar a Ordem dos Farmacêuticos de uma sede que seja simultaneamente um símbolo da sua rica história e um espaço funcional para o futuro da profissão permanece inabalável. A história da sede da OF é, em última análise, a história de uma comunidade que valoriza o seu passado enquanto olha com esperança e estratégia para o futuro, garantindo que a casa dos farmacêuticos continue a ser um pilar da saúde em Portugal.
Cronologia da Sede da Ordem dos Farmacêuticos
Para melhor visualizar a evolução da sede da Ordem dos Farmacêuticos, apresentamos uma cronologia dos principais marcos:
| Ano/Período | Acontecimento Principal | Localização/Detalhes |
|---|---|---|
| 1835 | Fundação da Sociedade Farmacêutica Lusitana (SFL) | Botica do Hospital de São José, Lisboa |
| 1835 - Fim do séc. XIX | Fase de itinerância da SFL | Convento dos Carmelitas Descalços, Convento de São João Nepumoceno, Recolhimento da Mouraria, Rua dos Fanqueiros n.º 234 |
| Jan. 1900 | Anúncio da futura sede própria | Início do projeto de aquisição e construção |
| Fev. 1901 | Inauguração da Sede Própria da SFL | Rua da Sociedade Farmacêutica (antiga Rua n.º 4 do Bairro Camões), Lisboa. Custo: 9.503$39. |
| 1927 | Instalação de elementos decorativos notáveis | Vitral com símbolo da Farmácia e painel de azulejos do alquimista (por altura do 1.º Congresso Nacional de Farmácia) |
| Década de 1960 | Início da notória degradação do imóvel | Problemas de funcionalidade e segurança |
| Início dos anos 1980 (Bastonário Alfredo Albuquerque) | Grandes obras de reabilitação e ampliação | Aumento de 200m² de área útil, área bruta total de 808m² |
| Início dos anos 1990 (Bastonário Carlos Silveira) | Aquisição do prédio contíguo | 142m² (112m² cobertos + 30m² logradouro). Projeto de co-propriedade rejeitado. |
| 2005 | Aquisição de imóvel no Parque das Nações | Posteriormente alienado por decisão da Assembleia Geral |
| 2009 | Aquisição de imóvel na Av. Almirante Gago Coutinho | Posteriormente alienado por decisão da Assembleia Geral |
| Atualmente | Projeto de reabilitação e integração dos edifícios da Rua da Sociedade Farmacêutica | Manutenção da Direção Nacional e SRSRA-OF na sede histórica |
Perguntas Frequentes (FAQs) sobre a Ordem dos Farmacêuticos
- Quando foi fundada a Ordem dos Farmacêuticos?
- A Ordem dos Farmacêuticos, na sua forma atual, é a legítima continuadora da Sociedade Farmacêutica Lusitana (SFL), que foi fundada em 1835. Portanto, as suas raízes institucionais remontam a esse ano.
- Onde se localiza a sede da Ordem dos Farmacêuticos?
- A sede histórica da Ordem dos Farmacêuticos localiza-se na Rua da Sociedade Farmacêutica, em Lisboa, numa zona entre o Marquês de Pombal e o Campo dos Mártires da Pátria. Esta rua foi rebatizada em honra da instituição.
- Qual a importância histórica da sede da OF?
- A sede de 1901 representa a concretização de um desejo antigo dos farmacêuticos portugueses por uma casa própria, simbolizando a estabilidade e o prestígio da profissão. O edifício contém elementos artísticos e arquitetónicos que contam a história da farmácia em Portugal, como o vitral com o símbolo da Farmácia e o painel de azulejos do alquimista, instalados por ocasião do 1.º Congresso Nacional de Farmácia.
- Quais foram as principais obras de ampliação da sede?
- A mais significativa obra de ampliação ocorreu no início dos anos 80, sob a liderança do bastonário Alfredo Albuquerque, que incluiu o desaterro do rés-do-chão, aumentando a área utilizável em cerca de 200m². Uma década depois, foi adquirido o prédio contíguo, com o objetivo de uma nova ampliação, embora este projeto tenha enfrentado desafios.
- Por que a Ordem dos Farmacêuticos buscou novas instalações e depois reavaliou?
- A busca por novas instalações deveu-se aos problemas de degradação do edifício histórico, insuficiência e funcionalidade dos serviços administrativos, e questões de segurança. Embora imóveis no Parque das Nações (2005) e na Av. Almirante Gago Coutinho (2009) tenham sido adquiridos, foram posteriormente alienados por decisão da Assembleia Geral. O objetivo atual é manter a OF na Rua da Sociedade Farmacêutica, através da reabilitação e integração dos dois edifícios existentes, garantindo a preservação do património e a modernização das instalações.
A jornada da Ordem dos Farmacêuticos e da sua sede é um espelho da evolução da própria profissão em Portugal. Desde os seus humildes e itinerantes primórdios como Sociedade Farmacêutica Lusitana até à consolidação na sua sede própria, o percurso tem sido marcado por uma constante procura de excelência e representatividade. Os desafios estruturais e funcionais enfrentados ao longo das décadas apenas reforçaram a determinação em preservar o valioso património edificado, enquanto se adapta às exigências do presente e do futuro. A sede na Rua da Sociedade Farmacêutica não é apenas um conjunto de paredes e tetos; é o coração pulsante da farmácia portuguesa, um testemunho da sua história rica, da sua resiliência e da sua visão para continuar a servir a saúde pública com a dignidade e a inovação que a caracterizam. A sua história é um lembrete de que as instituições mais duradouras são aquelas que conseguem honrar o seu passado enquanto constroem um futuro sólido e promissor.
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