29/09/2023
A saúde global é um campo complexo, interconectado por organizações e acordos que visam proteger e promover o bem-estar de bilhões de pessoas. No centro dessa rede está a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma agência vital das Nações Unidas. Recentemente, o cenário da cooperação internacional em saúde foi abalado por uma decisão de grande impacto: a saída dos Estados Unidos da OMS sob o governo de Donald Trump. Este movimento não apenas redefine a relação de uma das maiores potências mundiais com a principal entidade de saúde global, mas também levanta sérias questões sobre o futuro da vigilância de doenças, o financiamento de programas essenciais e a própria natureza da resposta a crises sanitárias em escala planetária. Compreender as motivações por trás dessa decisão e suas potenciais repercussões é crucial para todos que se preocupam com a saúde pública em um mundo cada vez mais interligado.

- Quais Países Não Fazem Parte da OMS?
- A Saída dos Estados Unidos da OMS: Um Histórico de Tensões
- As Consequências Profundas da Retirada Americana
- A Relação entre a OMS e os Estados Unidos
- Trump, a Extrema-Direita e a OMS: Uma Lente Política sobre a Saúde
- Em Que Consiste a Organização Mundial da Saúde (OMS)?
- Comparativo de Contribuições e Participação na OMS
- Perguntas Frequentes sobre a OMS e a Saída dos EUA
Quais Países Não Fazem Parte da OMS?
A Organização Mundial da Saúde, fundada em 1948, é composta por 194 Estados-Membros, representando a vasta maioria das nações do mundo. A adesão à OMS é um passo fundamental para qualquer país que busque alinhar suas políticas de saúde com padrões globais e participar de esforços coordenados para combater doenças e promover o bem-estar. No entanto, surpreendentemente, há uma exceção notável entre os 193 países-membros da ONU. O único país que, até o momento, não faz parte da OMS é o Liechtenstein. Este pequeno principado europeu, embora membro da ONU, optou por não aderir à organização de saúde, destacando-se como uma singularidade no panorama da saúde global.
A Saída dos Estados Unidos da OMS: Um Histórico de Tensões
A decisão dos Estados Unidos de se retirar da Organização Mundial da Saúde, sob a liderança de Donald Trump, não foi um evento isolado, mas o culminar de um período de críticas e tensões. Em 2020, ainda em seu primeiro mandato, Trump já havia sinalizado sua intenção de abandonar a OMS, alegando uma má gestão da pandemia de COVID-19 e criticando o que considerava gastos excessivos e uma suposta concentração da organização nos interesses da China. Contudo, o processo de saída de um país da OMS é burocrático, levando um ano para ser consolidado. Essa janela de tempo permitiu que, com a posse de Joe Biden em 2021, a decisão fosse revertida, mantendo os EUA como membros.
No entanto, a questão ressurgiu com a possibilidade de um segundo mandato de Trump. Determinado a concretizar sua visão, o presidente assinou a ordem executiva retirando os EUA da OMS logo no primeiro dia de seu segundo mandato, em 20 de janeiro. As justificativas para tal medida reiteraram as preocupações anteriores: a percepção de que a OMS teria falhado na gestão da crise sanitária global da COVID-19 e a alegação de que os pagamentos exigidos dos Estados Unidos seriam "injustamente onerosos" e desproporcionais em comparação com outros países. Trump destacou, em particular, a disparidade entre a contribuição dos EUA e a da China, afirmando que, apesar de uma população três vezes maior, a contribuição chinesa seria aproximadamente 90% menor. Este argumento, detalhado no decreto, sublinha uma visão de desequilíbrio financeiro e de influência percebida dentro da organização.
As Consequências Profundas da Retirada Americana
A saída dos Estados Unidos da OMS é vista por muitos especialistas em saúde pública como um retrocesso significativo, com implicações profundas tanto para a nação norte-americana quanto para a comunidade global. Deisy Ventura, professora titular da Faculdade de Saúde Pública da USP, ressalta que essa decisão vai além de um simples afastamento; ela representa uma ameaça direta a políticas de saúde que foram cuidadosamente construídas e consolidadas com base em rigorosas evidências científicas. Em suas palavras, é "uma forma de combate às evidências científicas como parâmetro das políticas de saúde", sugerindo um desvio perigoso da abordagem baseada em dados para a formulação de estratégias sanitárias.
Impactos Diretos e Indiretos da Saída:
- Acesso a Dados e Vigilância Epidemiológica: Agências americanas de renome mundial, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e a Food and Drug Administration (FDA), dependem crucialmente do acesso aos dados globais da OMS. Sem essa colaboração, a qualidade de suas ações em cenários de emergências sanitárias pode ser seriamente comprometida. A OMS reúne e dissemina informações vitais de vigilância epidemiológica de todos os cantos do mundo, essenciais para a detecção precoce de surtos, o rastreamento de doenças infecciosas e a coordenação de respostas eficazes. A interrupção desse fluxo de informações pode deixar os EUA e o mundo mais vulneráveis a novas ameaças sanitárias.
- Programas de Enfrentamento a Doenças Infecciosas: Muitos programas globais de combate a doenças infecciosas, que dependem da coordenação e dos dados fornecidos pela OMS, podem ser drasticamente afetados. A capacidade de monitorar a propagação de patógenos, desenvolver diretrizes de tratamento e implementar campanhas de vacinação em larga escala é inerentemente global. A ausência dos EUA, um ator crucial, enfraquece essa rede de proteção.
- Financiamento e Resposta a Crises Sanitárias: Os Estados Unidos sempre foram um dos maiores financiadores da OMS, e uma parcela considerável de sua contribuição é direcionada para as atividades de resposta a crises sanitárias em todo o mundo. A retirada desse suporte financeiro pode comprometer seriamente a capacidade da organização de atuar em emergências futuras, limitando sua agilidade e o alcance de suas intervenções em regiões mais vulneráveis. Programas cruciais de combate ao HIV e à tuberculose, por exemplo, que recebem grande parte de seu financiamento dos EUA, correm o risco de sofrer cortes significativos, revertendo anos de progresso.
Em essência, a saída dos EUA não é apenas uma questão de soberania nacional, mas um golpe na infraestrutura da cooperação multilateral em saúde, um sistema construído ao longo de décadas para enfrentar desafios que transcendem fronteiras.
A Relação entre a OMS e os Estados Unidos
A Organização Mundial da Saúde (OMS) foi estabelecida em 1948 como uma agência especializada das Nações Unidas, com a missão primordial de enfrentar os desafios de saúde que afetam seus países-membros. Desde sua fundação, os Estados Unidos têm sido um participante ativo e um dos pilares da organização.
O modelo de financiamento da OMS é híbrido. Todos os países-membros são obrigados a fazer contribuições ao orçamento da agência, cujos valores são definidos com base em critérios como população e riqueza de cada nação. Além dessas contribuições obrigatórias, os países têm a opção de fazer doações voluntárias. Os Estados Unidos, ao longo da história da OMS, destacaram-se como um dos maiores doadores voluntários. Essa contribuição voluntária tem sido fundamental em diversas ocasiões, desempenhando um papel crucial na gestão de crises sanitárias de grande escala, como as epidemias de ebola e zika, e mais recentemente, a pandemia de COVID-19.
A magnitude da contribuição americana é notável: o país é responsável por pouco menos de 20% do orçamento total da OMS. Para os anos de 2024 e 2025, por exemplo, o jornal "The New York Times" reportou que os EUA doaram a impressionante soma de 6,8 bilhões de dólares à organização. Essa injeção financeira não apenas garante o funcionamento da OMS, mas também potencializa sua capacidade de implementar programas, realizar pesquisas e coordenar respostas globais a ameaças de saúde. A retirada de um doador dessa envergadura, portanto, cria um vácuo financeiro e estratégico que a OMS terá de se esforçar para preencher.

Trump, a Extrema-Direita e a OMS: Uma Lente Política sobre a Saúde
A postura de Donald Trump em relação à OMS e, de forma mais ampla, à Organização das Nações Unidas (ONU), reflete uma tendência observada na extrema-direita global de contestar e descreditar instituições multilaterais. Mesmo antes de sua primeira eleição em 2017, Trump já expressava seu ceticismo em relação à ONU, descrevendo-a em 2016 como "apenas um clube de pessoas que se encontram, conversam e se divertem".
Durante a pandemia de COVID-19, as críticas de Trump à OMS se intensificaram. Ele chegou a acusar a organização de estar excessivamente concentrada nos interesses da China, negligenciando as necessidades de outros países afetados pela crise. Essa retórica se alinha a um movimento político mais amplo, como observa Deisy Ventura, que vê a retirada da OMS como parte de "um movimento mais amplo de contestação da cooperação multilateral, especialmente da ONU e suas entidades associadas".
A extrema-direita, com Donald Trump como uma de suas figuras mais proeminentes, frequentemente enxerga a saúde não apenas como uma área de política pública, mas como um terreno fértil para a manipulação política. Dada a linguagem complexa e o potencial de gerar comoção que os temas de saúde possuem, eles se tornam um palco propício para a disseminação de desinformação. Durante a pandemia, isso se manifestou em narrativas que questionavam a gravidade do vírus, a eficácia das vacinas ou as recomendações de saúde pública, muitas vezes sem base científica.
A preocupação de especialistas como Deisy Ventura é que essa abordagem possa levar a acordos com outras instituições que, em vez de fornecer evidências científicas sólidas, alimentem o governo com "falsas evidências", resultando em deturpações de toda ordem e comprometendo a saúde da população.
Em resposta à decisão dos EUA, a própria OMS expressou seu lamento e a esperança de que os Estados Unidos reconsiderem. Em sua página na internet, a organização afirmou: "Esperamos que os Estados Unidos reconsiderem e esperamos obter um diálogo construtivo para manter a parceria entre os EUA e a OMS, para o benefício da saúde e do bem-estar de milhões de pessoas em todo o mundo". Este apelo sublinha a importância da colaboração contínua para enfrentar os desafios sanitários globais.
Em Que Consiste a Organização Mundial da Saúde (OMS)?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) é a autoridade diretora e coordenadora da saúde internacional dentro do sistema das Nações Unidas. Sua missão fundamental é ambiciosa e abrangente: "construir um futuro melhor e mais saudável para as pessoas em todo o mundo".
Para cumprir essa missão, a OMS opera em uma escala verdadeiramente global, trabalhando em estreita colaboração com seus 194 Estados-Membros, distribuídos em seis regiões geográficas e com uma presença em mais de 150 escritórios em todo o planeta. Os funcionários da OMS, independentemente de sua localização, estão unidos por um compromisso comum de alcançar "uma melhor saúde para todos, em todos os lugares".
As atividades da OMS são vastas e diversificadas, abordando os mais prementes desafios de saúde que a humanidade enfrenta:
- Combate a Doenças: A organização atua incansavelmente na luta contra uma ampla gama de doenças. Isso inclui doenças transmissíveis, como a gripe, o HIV/AIDS, a tuberculose e a malária, para as quais desenvolve estratégias de prevenção, controle e tratamento. Igualmente importante é seu trabalho com doenças não transmissíveis, como o câncer, doenças cardíacas e diabetes, que representam uma carga crescente para os sistemas de saúde globais.
- Saúde Materno-Infantil: Um pilar central da OMS é garantir que mães e crianças não apenas sobrevivam, mas prosperem. Isso envolve programas de saúde reprodutiva, cuidados pré-natais e pós-natais, imunização infantil e nutrição, visando assegurar que as novas gerações possam crescer saudáveis e ter a expectativa de uma velhice digna.
- Segurança Ambiental e Sanitária: A OMS desempenha um papel crucial na garantia da segurança dos fatores ambientais que afetam a saúde humana. Isso inclui monitorar e estabelecer padrões para a qualidade do ar que as pessoas respiram, a segurança dos alimentos que consomem e a potabilidade da água que bebem. Essa vigilância é vital para prevenir doenças transmitidas pelo meio ambiente e promover ambientes saudáveis.
- Acesso a Medicamentos e Vacinas: A organização trabalha para garantir que as pessoas em todo o mundo tenham acesso aos medicamentos e vacinas de que precisam. Isso envolve a formulação de políticas para a disponibilidade e acessibilidade de produtos farmacêuticos essenciais, o combate à falsificação de medicamentos e a promoção de campanhas de vacinação em massa para erradicar doenças preveníveis.
Em resumo, a OMS é um pilar da governança global em saúde, coordenando esforços, fornecendo diretrizes baseadas em evidências e mobilizando recursos para enfrentar os desafios sanitários mais complexos do nosso tempo.
Comparativo de Contribuições e Participação na OMS
| Aspecto | Estados Unidos | China | Outros Países (Generalizado) |
|---|---|---|---|
| População (aproximada) | ~330 milhões | ~1.4 bilhão | Variável (mais de 190 nações) |
| Contribuição para a OMS (Proporção) | Pouco menos de 20% do orçamento total | Aprox. 90% menor que a dos EUA (segundo Trump) | Definida por população e riqueza |
| Tipo de Contribuição | Historicamente, maior doador voluntário, além das contribuições obrigatórias | Contribuições obrigatórias e voluntárias | Ambas (obrigatórias e voluntárias) |
| Valor Doado (Exemplo 2024/2025) | US$ 6,8 bilhões (reportado antes da saída) | Desconhecido, mas significativamente menor que os EUA | Variável |
| Participação na OMS | Membro fundador (até a saída sob Trump) | Membro ativo | Membros ativos |
Perguntas Frequentes sobre a OMS e a Saída dos EUA
Para esclarecer as principais dúvidas sobre este tema complexo, compilamos algumas perguntas e respostas importantes:
- 1. O que é a Organização Mundial da Saúde (OMS)?
- A OMS é uma agência especializada das Nações Unidas, fundada em 1948, responsável por coordenar a saúde internacional dentro do sistema da ONU. Sua missão é construir um futuro melhor e mais saudável para as pessoas em todo o mundo, atuando no combate a doenças, promoção da saúde materno-infantil, segurança ambiental e garantia de acesso a medicamentos e vacinas.
- 2. Quais são os países que não fazem parte da OMS?
- A vasta maioria dos países do mundo são membros da OMS. Entre os 193 países-membros da ONU, o único que não faz parte da Organização Mundial da Saúde é o pequeno principado de Liechtenstein.
- 3. Por que os Estados Unidos decidiram sair da OMS?
- Sob o governo de Donald Trump, os EUA alegaram má gestão da pandemia de COVID-19 por parte da OMS e criticaram o que consideravam pagamentos "injustamente onerosos" e desproporcionais do país para a organização, especialmente em comparação com a contribuição da China. Trump via a saída como uma forma de reavaliar o compromisso americano com instituições multilaterais.
- 4. Quais as principais consequências da saída dos EUA para a saúde global?
- As consequências são múltiplas e severas. Incluem a perda de acesso a dados cruciais de vigilância epidemiológica para agências americanas como o CDC e o FDA, o comprometimento de programas globais de combate a doenças infecciosas (como HIV e tuberculose) devido à perda de financiamento, e o enfraquecimento da capacidade da OMS de responder a futuras crises sanitárias globais, dado que os EUA eram um dos seus maiores doadores.
- 5. Como a OMS é financiada?
- A OMS é financiada por uma combinação de contribuições obrigatórias dos Estados-Membros, que são definidas com base na população e riqueza de cada país, e doações voluntárias. Os Estados Unidos, até sua saída, eram o maior doador voluntário da organização, respondendo por pouco menos de 20% do seu orçamento.
- 6. Os EUA podem retornar à OMS no futuro?
- Sim, é possível. Historicamente, o processo de saída da OMS leva um ano. Em 2020, uma tentativa anterior de Trump de sair foi revertida por Joe Biden ao assumir a presidência em 2021. Embora a decisão atual tenha sido tomada no primeiro dia de um segundo mandato de Trump, futuras administrações americanas poderiam, em teoria, reverter a decisão e solicitar a reintegração do país na organização, caso haja vontade política.
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