O que se entende por obesidade de acordo com a OMS?

Obesidade: Uma Epidemia Global Que Exige Ação

03/07/2025

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A obesidade não é meramente uma questão estética ou uma falha de caráter; é uma doença crônica, progressiva e recidivante, reconhecida como uma epidemia global pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais de um bilhão de adultos em todo o mundo estão acima do peso, e cerca de 500 milhões são considerados obesos. Essa realidade alarmante se estende às crianças, com mais de 40 milhões de menores de cinco anos já apresentando excesso de peso. No Brasil, os números são igualmente preocupantes, com 60,3% dos adultos, ou 96 milhões de pessoas, lidando com o excesso de peso, sendo a prevalência maior entre as mulheres.

O que é obesidade e quais são as principais causas dela?
A obesidade é o acúmulo de gordura no corpo causado quase sempre por um consumo de energia na alimentação, superior àquela usada pelo organismo para sua manutenção e realização das atividades do dia-a-dia. Ou seja: a ingestão alimentar é maior que o gasto energético correspondente.

O Dia Mundial da Obesidade, organizado pela World Obesity Federation, reforça anualmente a mensagem de que “Todos precisam agir” para melhorar a compreensão, a prevenção e o tratamento dessa condição. A campanha visa não apenas aumentar a conscientização de que a obesidade é uma doença com raízes complexas, mas também mudar a forma como ela é abordada na sociedade, criando um ambiente saudável que a priorize como um problema de saúde pública. É fundamental combater o estigma que pessoas com obesidade enfrentam no trabalho, em casa e no sistema de saúde, pois a mudança só se tornará uma realidade com ações coordenadas nos níveis local, nacional e global.

Índice de Conteúdo

Entendendo a Obesidade Segundo a OMS

A Organização Mundial da Saúde define a obesidade como o excesso de gordura corporal em quantidade que determine prejuízos à saúde. O diagnóstico é estabelecido principalmente pelo Índice de Massa Corporal (IMC), uma ferramenta de triagem simples e amplamente utilizada. O IMC é calculado dividindo-se o peso de um indivíduo em quilogramas pela sua altura em metros ao quadrado (IMC = peso (kg) / altura (m)²).

De acordo com a OMS, uma pessoa é considerada obesa quando seu IMC é maior ou igual a 30 kg/m². A faixa de peso normal e saudável, por sua vez, varia entre 18,5 e 24,9 kg/m². Indivíduos com IMC entre 25 e 29,9 kg/m² são diagnosticados com sobrepeso, uma condição que já pode acarretar prejuízos à saúde devido ao excesso de gordura. É importante notar que, embora o IMC seja um indicador valioso, ele pode ser complementado por outros métodos de avaliação corporal, como medição da massa gorda, massa muscular e perímetro abdominal, para uma análise mais completa.

Classificação do IMC e Implicações para a Saúde

A classificação do IMC pela OMS é a seguinte:

Índice de Massa Corporal (IMC)ClassificaçãoImplicação para a Saúde
Menor que 18,5 kg/m²Abaixo do pesoPode indicar desnutrição ou outros problemas de saúde.
Entre 18,5 e 24,9 kg/m²Peso normal/SaudávelMenor risco de doenças associadas ao peso.
Entre 25 e 29,9 kg/m²SobrepesoAumento do risco de algumas condições, como diabetes tipo 2 e hipertensão.
Igual ou acima de 30 kg/m²ObesidadeRisco significativamente aumentado para diversas doenças crônicas.
Igual ou acima de 35 kg/m²Obesidade SeveraRisco muito elevado de complicações graves, como doenças cardíacas e apneia do sono.
Igual ou acima de 40 kg/m²Obesidade MórbidaRisco extremo de morbidade e mortalidade, frequentemente necessitando de intervenções mais agressivas.

Para ilustrar o cálculo do IMC, consideremos um exemplo: Se João tem 83 kg e sua altura é 1,75 m. Primeiro, calculamos a altura ao quadrado: 1,75 m * 1,75 m = 3,0625 m². Em seguida, dividimos o peso pela altura ao quadrado: 83 kg / 3,0625 m² = 27,10 kg/m². De acordo com a tabela, um IMC de 27,10 indica que João está na faixa de sobrepeso.

As Raízes Profundas da Obesidade: Além da Força de Vontade

É um equívoco comum pensar que a obesidade é apenas uma questão de escolha ou falta de força de vontade. Como explica o Dr. Mario Kehdi Carra, endocrinologista da SBEM-SP, “ninguém tem obesidade porque quer ou escolhe ser obeso”. As raízes dessa doença são complexas e multifatoriais, envolvendo uma interação intrincada de fatores biológicos, genéticos, ambientais e psicossociais. A genética, por exemplo, pode contribuir com até 70% para o desenvolvimento da obesidade, somando-se a outros fatores determinantes como a alimentação e o sedentarismo.

O que é o IMC e como se calcula?
Saiba como se calcula o IMC. A forma mais comum de quantificar a obesidade é recorrer ao índice de massa corporal (IMC) que relaciona o peso corporal com a altura, através da fórmula: IMC (kg/m2) = peso (kg) / altura2 (m)

Fatores que Contribuem para a Obesidade:

  • Fatores Biológicos: O corpo humano possui mecanismos de proteção contra a inanição, que podem dificultar a manutenção da perda de peso. Após uma dieta, o metabolismo pode desacelerar, e hormônios que regulam o apetite podem ser alterados, incentivando o reganho de peso.
  • Fatores Genéticos: Genes específicos podem influenciar o metabolismo, a distribuição de gordura corporal, o apetite e a forma como o corpo armazena calorias.
  • Fatores Comportamentais e Ambientais: O aumento no consumo de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcares, gorduras e sódio, aliado a um estilo de vida cada vez mais sedentário, são catalisadores da obesidade. A falta de acesso a alimentos saudáveis e a ambientes seguros para a prática de atividade física também desempenham um papel crucial.
  • Fatores Psicológicos e Mentais: O estresse crônico pode levar ao aumento do hormônio cortisol, que favorece o acúmulo de gordura. Além disso, alguns sintomas de transtornos mentais podem requerer o uso de medicamentos que provocam ganho de peso como efeito colateral. O comer emocional, como resposta ao estresse, ansiedade ou depressão, é outro fator relevante.
  • Falta de Acesso a Cuidados de Saúde: A dificuldade em acessar profissionais de saúde, nutricionistas e programas de apoio impede a prevenção e o tratamento eficaz da obesidade.
  • Eventos da Vida: Períodos como o início da idade adulta, a gravidez precoce, certas doenças crônicas e o uso de determinados medicamentos podem desencadear ou agravar o ganho de peso.
  • Perturbações do Sono: Distúrbios do sono podem desregular hormônios que controlam o apetite (grelina e leptina), aumentando a fome e o desejo por alimentos calóricos.
  • Novas Pesquisas: Estudos recentes apontam para o papel de fatores como a poluição ambiental e as bactérias presentes no intestino (microbiota intestinal) como contribuintes para o surgimento e desenvolvimento da doença, indicando a complexidade e a natureza multifacetada da obesidade.

Complicações e Impactos Devastadores na Saúde

A obesidade não afeta apenas a aparência física; ela compromete o bom funcionamento de praticamente todos os sistemas do organismo, desde os ossos e articulações até os sistemas respiratório e cardiovascular. As complicações associadas à obesidade são inúmeras e podem levar a uma diminuição significativa da expectativa e qualidade de vida. Entre as principais, destacam-se:

  • Doenças Cardiovasculares: O excesso de peso, frequentemente associado a uma dieta rica em açúcares e gorduras e ao sedentarismo, afeta diretamente a circulação sanguínea. A acumulação de partículas de gordura nas paredes das artérias (aterosclerose) leva à formação de placas que dificultam a irrigação sanguínea ao coração, podendo resultar em angina de peito ou, em casos mais graves, enfarte do miocárdio.
  • Diabetes Tipo 2: A obesidade é o principal fator de risco para o desenvolvimento da diabetes tipo 2. O tecido adiposo em excesso, especialmente o abdominal, pode causar resistência à insulina, fazendo com que o corpo não consiga usar a insulina de forma eficaz para regular o açúcar no sangue.
  • Hipercolesterolemia: O aumento da ingestão de gorduras, principalmente as saturadas e trans, eleva os níveis de colesterol “mau” (LDL) e triglicerídeos, prejudicando a saúde cardiovascular e aumentando o risco de doenças cardíacas.
  • Hipertensão Arterial: Caracterizada pela pressão elevada do sangue nas artérias, a hipertensão é frequentemente associada à obesidade. O coração precisa trabalhar mais para bombear sangue através de um corpo maior, e o excesso de gordura pode afetar a elasticidade dos vasos sanguíneos.
  • Síndrome Metabólica: Um quadro clínico comum em pessoas obesas que reúne vários sintomas e patologias, como colesterol elevado, glicemia alterada ou diabetes, hipertensão e aumento do perímetro abdominal. Esta síndrome eleva significativamente o risco de doenças cardiovasculares.
  • Problemas Respiratórios: A obesidade interfere na capacidade pulmonar, exercendo pressão sobre as vias aéreas e músculos respiratórios. A apneia do sono, caracterizada por pausas na respiração durante o sono, é uma condição comum em pessoas obesas e pode levar ao aumento da tensão arterial. Outros problemas incluem Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e asma, cuja incidência e gravidade são maiores em indivíduos obesos.
  • Certos Tipos de Câncer: A obesidade está associada a um risco acrescido de diversos tipos de câncer, incluindo endométrio, mama, cólon, rim, vesícula e fígado. Isso se deve à ação das células adiposas na produção hormonal (estrogênios), nos níveis de insulina e nos processos inflamatórios crônicos no organismo.
  • Infertilidade: A obesidade interfere na saúde reprodutiva, tanto em homens quanto em mulheres. Em mulheres, pode afetar a ovulação e a qualidade dos óvulos, enquanto em homens, pode impactar a qualidade do esperma. Perder peso pode melhorar o prognóstico, mas requer acompanhamento médico.
  • Problemas Psicológicos e Estigma: O estigma social associado à obesidade pode levar a problemas psicológicos graves, como depressão, ansiedade, baixa autoestima e isolamento social.

Estratégias de Tratamento e o Combate ao Estigma

O tratamento da obesidade é complexo e deve ser individualizado, visando não apenas a perda de peso, mas também a melhora da saúde geral e da qualidade de vida. Dada a natureza crônica e recidivante da doença, a abordagem deve ser contínua e multidisciplinar.

Abordagens Terapêuticas:

  • Mudança no Estilo de Vida: A base do tratamento consiste na adoção de uma alimentação saudável, com diminuição da ingestão calórica e foco em alimentos nutritivos, e no aumento da atividade física regular. Essa mudança é fundamental para a perda de peso e sua manutenção a longo prazo. Não se trata de dietas restritivas temporárias, mas de uma reeducação alimentar e a incorporação de exercícios como parte da rotina diária.
  • Uso de Medicamentos: Em alguns casos, o uso de medicamentos pode ser associado às mudanças no estilo de vida. No entanto, é crucial entender que os medicamentos são um complemento e não a única forma de tratamento. Eles podem contribuir de forma modesta e temporária para a redução de peso. É imperativo que qualquer medicação seja prescrita e acompanhada rigorosamente por um médico, devido aos potenciais efeitos adversos (nervosismo, insônia, aumento da pressão, taquicardia, boca seca, intestino preso) e ao risco de dependência. Fórmulas de emagrecimento com várias substâncias misturadas são proibidas e perigosas.
  • Tratamento Cirúrgico: Em casos de obesidade mais grave (obesidade severa ou mórbida, ou obesidade com comorbidades não controladas), a cirurgia bariátrica pode ser indicada. Este é um procedimento de último recurso e requer uma avaliação médica rigorosa, além de acompanhamento multidisciplinar antes e depois da cirurgia.

É fundamental que as pessoas não depositem todas as esperanças do tratamento apenas em medicamentos, pois o resultado depende principalmente das mudanças nos hábitos de vida. A vigilância e a educação são essenciais para evitar promessas enganosas de emagrecimento rápido e fácil, especialmente aquelas encontradas em propagandas irregulares na internet ou em locais não autorizados.

A luta contra a obesidade vai além do tratamento clínico; envolve uma mudança na percepção social. A Campanha Pública de 2022 da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) buscou identificar a percepção das pessoas sobre as causas da obesidade e a ocorrência de constrangimento por gordofobia. A participação da população nessas pesquisas é vital para que especialistas e sociedades médicas possam direcionar melhor o tratamento e as ações de combate à obesidade e ao estigma.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Quando é que é considerada obesidade?

A obesidade é considerada quando o Índice de Massa Corporal (IMC) de um indivíduo é igual ou superior a 30 kg/m². O IMC é calculado dividindo-se o peso em quilogramas pela altura em metros ao quadrado (IMC = peso (kg) / altura (m)²). Um IMC entre 25 e 29,9 kg/m² indica sobrepeso, enquanto um IMC inferior a 18,5 kg/m² é classificado como abaixo do peso e entre 18,5 e 24,9 kg/m² como peso normal.

A obesidade é uma doença?

Sim, a obesidade é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica, progressiva e recidivante. Ela é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal que causa prejuízos à saúde, e suas raízes são complexas, envolvendo fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicossociais, e não apenas uma questão de força de vontade.

Quais são as principais complicações da obesidade?
As complicações incluem doenças cardiovasculares (especialmente em pessoas com gordura abdominal excessiva), diabetes mellitus, certos tipos de câncer, colelitíase, doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica, cirrose, osteoartrite, distúrbios reprodutivos em homens e mulheres, distúrbios psicológicos ...

Quais são as principais causas da obesidade?

As principais causas da obesidade são multifatoriais e incluem: consumo de energia alimentar superior ao gasto energético do corpo (desequilíbrio calórico), predisposição genética (que pode contribuir em até 70%), sedentarismo, alto consumo de alimentos industrializados, estresse, fatores biológicos que dificultam a perda de peso, uso de certos medicamentos, distúrbios do sono, falta de acesso a cuidados de saúde adequados, e até mesmo fatores ambientais como a poluição e a composição da microbiota intestinal.

Como o IMC é calculado?

O Índice de Massa Corporal (IMC) é calculado pela fórmula: IMC = peso (em quilogramas) / (altura (em metros) x altura (em metros)). Por exemplo, se uma pessoa pesa 70 kg e mede 1,70 m, o cálculo seria: IMC = 70 / (1,70 * 1,70) = 70 / 2,89 = 24,22 kg/m².

O tratamento medicamentoso é suficiente para a obesidade?

Não, o tratamento medicamentoso não é suficiente por si só para a obesidade e nunca deve ser a única forma de tratamento. Os medicamentos podem ser um auxílio modesto e temporário na redução de peso, mas o sucesso a longo prazo depende fundamentalmente da adoção de um estilo de vida mais saudável, com mudanças na alimentação e aumento da atividade física. Além disso, o uso de medicamentos deve ser sempre prescrito e rigorosamente acompanhado por um médico, devido aos potenciais efeitos adversos e riscos de dependência.

A obesidade é um desafio global que exige uma abordagem multidisciplinar e a colaboração de todos. Ao compreendermos suas complexas raízes e os graves impactos na saúde, podemos trabalhar juntos para combater o estigma, promover ambientes saudáveis e garantir que as pessoas que vivem com obesidade recebam o apoio e o tratamento de que precisam. Lembre-se: não existe mágica; a prevenção e o tratamento eficazes da obesidade dependem de escolhas de vida saudáveis e de um sistema de saúde acessível e empático.

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