Américo Tomás e o Amanhecer do 25 de Abril

24/12/2022

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A história de Portugal é pontuada por momentos de profunda transformação, e poucos são tão emblemáticos quanto o 25 de Abril de 1974. Esse dia não só alterou o curso político do país, mas também redefiniu a vida de muitos dos seus protagonistas. Entre eles, destacava-se Américo Tomás, o último Presidente da República do regime do Estado Novo. A pergunta sobre o seu paradeiro naquele dia fatídico e as subsequentes reviravoltas na sua vida são elementos cruciais para compreender a transição de uma ditadura para a democracia.

Índice de Conteúdo

A Ascensão e o Apogeu de Américo Tomás

Nascido em Alcântara, Lisboa, a 19 de novembro de 1894, Américo Rodrigues Tomás iniciou a sua jornada num contexto de simplicidade. Filho de criados, a sua determinação levou-o ao Liceu da Lapa e, posteriormente, ao Liceu Passos Manuel, concluindo a formação secundária em 1911. A sua passagem pela Faculdade de Ciências foi breve, de 1912 a 1914, antes de ingressar na Escola Naval, um passo decisivo que moldaria a sua carreira e o seu destino.

Carreira Militar e Contribuições Notáveis

Ao concluir o curso da Escola Naval em 1916, Américo Tomás mergulhou na vida militar, servindo em diversas embarcações durante a Primeira Guerra Mundial, como o couraçado Vasco da Gama e os contratorpedeiros Douro e Tejo. A sua ascensão foi constante: primeiro-tenente em 1918, capitão-tenente em 1931, e sucessivas promoções até atingir o posto de almirante em 1970. A sua competência e dedicação eram inegáveis.

Um dos períodos mais significativos da sua carreira foi o serviço no navio hidrográfico 5 de Outubro, onde permaneceu por dezasseis anos, desempenhando funções vitais na Missão Hidrográfica da Costa Portuguesa e em diversas comissões técnicas. A sua expertise valeu-lhe várias condecorações, demonstrando o seu reconhecimento no seio das Forças Armadas.

O Ministro da Marinha e a Modernização Naval

Em 1936, Américo Tomás foi nomeado chefe de gabinete do Ministro da Marinha, e de 1944 a 1958, ele próprio assumiu a pasta de Ministro da Marinha. Durante este período, a sua liderança foi fundamental para a reestruturação e modernização da Marinha Mercante portuguesa. O ponto alto da sua ação foi a elaboração e aplicação do Despacho 100, de 10 de agosto de 1945. Este diploma não só revolucionou a frota mercante, permitindo a constituição de uma indústria de construção naval moderna no país, mas também granjeou-lhe um respeito duradouro nos meios navais, um legado que, em contraste com a sua imagem pública posterior, ainda hoje é recordado com admiração.

A Presidência da República: Um Rosto Cerimonial

Em 1958, Américo Tomás foi o candidato escolhido pela União Nacional para suceder a Craveiro Lopes na Presidência da República, com o aval de António de Oliveira Salazar. A escolha recaiu sobre ele não só pela sua lealdade ao regime, mas também pela perceção de que seria um presidente pouco interventivo. Nas eleições de 8 de junho de 1958, teve como adversário o General Humberto Delgado, numas eleições marcadas por controvérsias e alegações de fraude. Américo Tomás foi oficialmente declarado vencedor com 75% dos votos.

A sequência dessas eleições, cujos resultados nunca foram oficialmente publicados no Diário do Governo, levou a uma revisão constitucional em 1959, que alterou o método de eleição presidencial de direto para indireto, passando a ser responsabilidade de um colégio eleitoral composto exclusivamente por membros da União Nacional. Esta medida visava solidificar o poder do regime e evitar qualquer futura ameaça democrática através do voto popular. Desta forma, Tomás foi reeleito em 1965 e 1972.

Durante a sua presidência, Américo Tomás residiu na sua casa particular, utilizando o Palácio de Belém apenas para funções oficiais e cerimónias. A sua figura pública era predominantemente cerimonial, o que lhe valeu o apodo de "o corta-fitas", devido às inúmeras inaugurações de exposições e eventos. Era também alvo de chacota pelo seu talento limitado para o discurso público, com várias "gafes" que se tornaram parte do imaginário popular, como "É a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive" ou "Hoje visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei". Contudo, apesar do seu papel aparentemente limitado, foi decisivo na sucessão de Salazar, impondo a Marcelo Caetano a manutenção da política colonial.

O 25 de Abril e a Queda de um Regime

Onde o Presidente se Encontrava na Madrugada da Revolução

Quando a Revolução dos Cravos irrompeu a 25 de Abril de 1974, Américo Tomás encontrava-se a poucos meses de completar 80 anos e tinha já determinado deixar o cargo presidencial. Naquela madrugada histórica, o Presidente da República estava, como habitualmente, na sua residência particular, alheio aos movimentos militares que se iniciavam para derrubar o regime que ele representava. A revolução apanhou-o de surpresa, tal como a maioria da população e da elite política.

Com o desenrolar dos acontecimentos e a tomada de posições estratégicas por parte do Movimento das Forças Armadas (MFA), a comunicação para com as figuras do regime tornou-se inevitável. Tomás foi confrontado com a realidade da insurreição e a iminência da queda do Estado Novo. Não houve resistência militar significativa em seu nome, e a transição de poder, ainda que tensa, foi relativamente pacífica em termos de confrontos armados.

O Fim de uma Era: Demissão e Exílio

A revolução culminou na demissão de Américo Tomás do cargo de Presidente da República. Não só foi destituído da sua posição política, mas também foi expulso compulsivamente da Marinha, a instituição à qual dedicara a maior parte da sua vida. Após ser demitido, foi enviado para a Madeira, de onde partiu pouco depois para o exílio no Brasil. Este desterro marcou um abrupto e doloroso fim para a sua longa carreira pública e para o regime que ele simbolizava.

O Regresso e os Últimos Anos

A Vida Pós-Revolução: Desafios e Isolamento

Em 1980, o então Presidente da República, Ramalho Eanes, permitiu o regresso de Américo Tomás a Portugal. No entanto, a vida pós-revolução foi marcada por grandes desafios e um profundo isolamento. Foi-lhe negado o reingresso na Marinha e, de forma significativa, não lhe foi concedido o regime de pensão extraordinária que viria a ser estabelecido para ex-presidentes da República. Viveu com uma pensão de militar reformado, o que, comparado com o seu estatuto anterior, o colocou em sérias dificuldades financeiras. Foi obrigado a vender vários presentes e objetos de valor que havia acumulado durante a sua presidência para conseguir sobreviver.

Apesar das adversidades, Américo Tomás ainda publicou o seu último livro de memórias em 1983, um testemunho final da sua perspetiva sobre os acontecimentos que moldaram a sua vida e a nação.

O Desfecho Final

Américo Tomás faleceu em sua casa, em Cascais, a 18 de setembro de 1987, aos 92 anos, vítima de uma infeção generalizada. O seu funeral foi simples e modesto, sem qualquer representação ou honras militares ou de Estado, contrastando vividamente com a pompa que outrora o rodeou como chefe de Estado. Foi sepultado no Cemitério da Ajuda, encerrando um capítulo complexo da história portuguesa.

Américo Tomás: Antes e Depois do 25 de Abril

A trajetória de Américo Tomás é um espelho das profundas transformações vividas por Portugal. A tabela abaixo ilustra o contraste marcante entre a sua vida antes e depois da Revolução dos Cravos:

CaracterísticaAntes do 25 de Abril de 1974Depois do 25 de Abril de 1974
Estatuto PolíticoPresidente da República do Estado NovoEx-Presidente, demitido
Carreira MilitarAlmirante, respeitado na MarinhaExpulso compulsivamente da Marinha, reingresso negado
ResidênciaPalácio de Belém (escritório), residência particular confortávelExílio no Brasil, posteriormente residência particular em Portugal
Situação FinanceiraConfortável, com privilégios de EstadoSérias dificuldades financeiras, obrigado a vender bens
Reconhecimento PúblicoFigura de Estado, mas alvo de chacota popularIsolamento, sem honras de Estado ou militares no funeral
PensãoSalário e regalias presidenciaisPensão de militar reformado, pensão de ex-Presidente negada

Perguntas Frequentes sobre Américo Tomás e o 25 de Abril

Quem foi Américo Tomás?

Américo Tomás foi um militar da Marinha Portuguesa que ascendeu a Almirante e serviu como Ministro da Marinha. Mais tarde, tornou-se o último Presidente da República do regime do Estado Novo, de 1958 a 1974.

Qual era o papel de Américo Tomás antes do 25 de Abril?

Antes do 25 de Abril, Américo Tomás desempenhou um papel predominantemente cerimonial como Presidente da República, embora tenha tido influência em decisões-chave, como a sucessão de Salazar. Como Ministro da Marinha, foi fundamental na modernização da Marinha Mercante.

Onde estava Américo Tomás no dia 25 de Abril de 1974?

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, Américo Tomás estava na sua residência particular, em Lisboa. Foi apanhado de surpresa pela Revolução dos Cravos, que culminou na sua demissão e no fim do Estado Novo.

O que aconteceu a Américo Tomás após o 25 de Abril?

Após o 25 de Abril, Américo Tomás foi demitido do cargo de Presidente e expulso da Marinha. Foi enviado para a Madeira e, de seguida, para o exílio no Brasil.

Américo Tomás regressou a Portugal?

Sim, Américo Tomás regressou a Portugal em 1980, após ter-lhe sido permitido o regresso pelo Presidente Ramalho Eanes.

Como viveu Américo Tomás após o regresso do exílio?

Após o regresso do exílio, Américo Tomás viveu em isolamento e enfrentou sérias dificuldades financeiras, pois foi-lhe negado o reingresso na Marinha e a pensão de ex-Presidente. Teve de vender bens pessoais para sobreviver.

Como morreu Américo Tomás?

Américo Tomás morreu em sua casa, em Cascais, a 18 de setembro de 1987, aos 92 anos, devido a uma infeção generalizada. O seu funeral foi simples e sem honras de Estado.

Conclusão

A vida de Américo Tomás é um testemunho da complexidade da história portuguesa. De um jovem determinado a um almirante respeitado e, finalmente, ao último Presidente de um regime que viria a ser derrubado, a sua trajetória foi marcada por altos e baixos. O 25 de Abril de 1974 não foi apenas o fim de uma era para Portugal, mas também o início de um período de profundas mudanças pessoais para Américo Tomás. O seu destino, marcado pelo exílio, pelas dificuldades financeiras e pelo isolamento, reflete o preço da mudança e a inevitabilidade do tempo. A sua memória, embora por vezes eclipsada pelas controvérsias do regime que liderou, permanece como uma peça essencial na tapeçaria da história contemporânea de Portugal.

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