Como é que a OMS define morte materna?

Guia Essencial: Consultas e Exames do Pré-Natal

08/12/2021

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A gestação é um período de grandes transformações e expectativas, e o acompanhamento pré-natal é a chave para que essa jornada seja saudável e segura. Mais do que uma série de consultas e exames, o pré-natal é um espaço de cuidado integral, que visa não apenas o desenvolvimento saudável do bebê e a saúde da gestante, mas também aborda aspectos psicossociais e oferece atividades educativas e preventivas. Conforme o Ministério da Saúde, o objetivo central do pré-natal é assegurar o desenvolvimento da gestação, permitindo o parto de um recém-nascido saudável, sem impacto para a saúde materna.

Quais são as consultas da gravidez?
Até a 12º semana gestacional \u2013 deve ocorrer a 1º consulta de pré-natal. Até a 28º semana gestacional\u2013 as consultas devem ser mensais. Do 28º à 36º semana gestacional \u2013 as consultas devem ser quinzenais. Da 36º à 41º semana gestacional \u2013 as consultas devem ser semanais.
Índice de Conteúdo

A Importância Vital do Pré-Natal no Brasil

No Brasil, houve um notável aumento na cobertura da assistência pré-natal, alcançando 98,7%, com a maioria das mulheres (75,8%) iniciando o acompanhamento antes da 16ª semana gestacional e 73,1% comparecendo a seis consultas ou mais. Embora esses números demonstrem um avanço significativo, ainda existem desafios a serem superados para garantir a qualidade da assistência. É fundamental que o pré-natal seja pensado como uma intervenção efetiva para anular impactos negativos na saúde da mulher e diminuir a morbimortalidade materna e neonatal.

O pré-natal é uma oportunidade ímpar para a manutenção da saúde da mulher, pois permite a solicitação de exames de rastreamento importantes que podem identificar e tratar condições que, se não gerenciadas, poderiam comprometer a gestação ou a saúde futura da mãe. É um momento de acolhimento e preparação para a chegada do bebê, envolvendo não só a gestante, mas toda a família.

Periodicidade das Consultas: Um Roteiro Essencial

A frequência das consultas pré-natais é escalonada de acordo com o avanço da gestação, garantindo um acompanhamento mais intensivo nos momentos de maior necessidade. Não existe 'alta' do pré-natal; a alta é dada pela maternidade após o nascimento do bebê e a avaliação da equipe de saúde.

  • Até a 12ª semana gestacional: Deve ocorrer a 1ª consulta de pré-natal.
  • Até a 28ª semana gestacional: As consultas devem ser mensais.
  • Da 28ª à 36ª semana gestacional: As consultas devem ser quinzenais.
  • Da 36ª à 41ª semana gestacional: As consultas devem ser semanais.

Exames de Rotina: A Base para uma Gestação Segura

A realização de exames laboratoriais é um pilar fundamental do pré-natal, permitindo o rastreamento, diagnóstico e monitoramento de diversas condições que podem afetar a gestante e o bebê. Embora alguns serviços possam solicitar exames adicionais, há um conjunto mínimo de investigações consideradas essenciais já na primeira consulta:

Exames Mínimos Desejáveis na Primeira Consulta:

  • Hemograma: Avalia a saúde geral, com foco na detecção de anemia, uma condição comum na gravidez.
  • Tipagem Sanguínea e Fator Rh: Essencial para identificar o tipo sanguíneo da mãe e o fator Rh, prevenindo a isoimunização Rh, que pode causar complicações na gravidez.
  • Coombs indireto: Solicitado se a gestante for Rh negativo, para rastrear a presença de anticorpos irregulares.
  • Glicemia em jejum: Fundamental para rastrear e diagnosticar diabetes pré-gestacional ou gestacional.
  • Eletroforese de Hemoglobina: Recomendado para mulheres negras, com histórico familiar de anemia falciforme ou anemia crônica, devido à alta prevalência da doença na população brasileira.
  • Testes rápidos para Sífilis e/ou VDRL: Para diagnóstico e tratamento precoce da sífilis, evitando a sífilis congênita.
  • Teste rápido para HIV – Anti HIV: Para diagnóstico e início do tratamento, prevenindo a transmissão vertical do vírus.
  • Toxoplasmose IgM e IgG: Avalia a imunidade da gestante à toxoplasmose e, se necessário, orienta medidas preventivas.
  • Sorologia para Hepatite B (HBsAg): Rastreamento para Hepatite B, importante para a saúde da mãe e para a profilaxia do recém-nascido.
  • Urina I/Urocultura: Detecta infecções urinárias, que são comuns e podem levar a complicações se não tratadas.
  • Ecografia obstétrica: Embora não seja obrigatória na primeira consulta, é valiosa para verificar a idade gestacional e outras necessidades clínicas.
  • Citopatológico de colo do útero: Se necessário e não estiver em dia com a periodicidade recomendada.
  • Exame de secreção vaginal: Se houver indicação clínica.
  • Parasitológico de fezes: Se houver indicação clínica.

Atenção a Condições Específicas e Seus Manejos

Fator Rh e Isoimunização

Se a gestante for Rh+, apenas a pesquisa de anticorpos irregulares (PAI) é solicitada. Se for Rh- ou o fator Rh for desconhecido, a tipagem e o fator Rh do pai devem ser confirmados. Caso o pai seja Rh-, não há necessidade de mais exames. No entanto, se o pai for Rh+ ou desconhecido, a PAI deve ser repetida mensalmente a partir da 24ª semana. Uma PAI positiva exige encaminhamento imediato para pré-natal de alto risco.

Em alguns estados, como São Paulo, a profilaxia da isoimunização Rh com Imunoglobulina Anti-D é realizada entre a 28ª e 34ª semana, e repetida no parto ou em situações de risco.

Sífilis (VDRL e Teste Treponêmico)

Durante a gestação, qualquer titulação de VDRL (teste não treponêmico) indica tratamento. Se o VDRL for não reator, um teste rápido treponêmico é essencial. Se o teste rápido for não reator, o VDRL deve ser repetido no 3º trimestre. Se o teste rápido for positivo ou indeterminado, o tratamento e acompanhamento mensal com VDRL são cruciais.

Infecção Urinária (Urina I e Urocultura)

A Urina Tipo I é importante para identificar infecções urinárias e, crucialmente, para rastrear proteinúria, um sinal de alerta para pré-eclâmpsia. Traços de proteína na urina, mesmo sem pressão arterial elevada ou edema, requerem repetição do exame em 15 dias. Se houver proteinúria com pressão alta e/ou edema, exames para pré-eclâmpsia são necessários. Proteinúria maciça ou cilindrúria indicam encaminhamento para pré-natal de alto risco. Hematúria persistente também demanda avaliação de alto risco. A urocultura é essencial para confirmar infecções e monitorar o tratamento, especialmente em casos de bacteriúria assintomática, que devem ser tratadas na gestação para evitar complicações.

Anemia (Hemograma)

Hemoglobina ≥ 11 g/dl é considerada normal. O Ministério da Saúde recomenda profilaxia com 20 mg/dia de Ferro Elementar e 5 mg/dia de Ácido Fólico após a 20ª semana, com repetição do exame após a 30ª semana. Anemia leve a moderada (8g/dl < hemoglobina < 11 g/dl) exige orientação dietética, investigação de parasitoses e tratamento com ferro elementar, com repetição do hemograma em 30 a 60 dias. Hemoglobina ≤ 8 g/dl indica anemia grave e encaminhamento para pré-natal de alto risco.

Diabetes Gestacional (Glicemia em Jejum e TOTG)

A avaliação da glicemia é crucial. Se o pré-natal inicia antes da 20ª semana e a glicemia em jejum é ≥ 126 mg/dl, é diabetes pré-gestacional, exigindo tratamento. Se for 92 mg/dl ≤ glicemia em jejum ≤ 126 mg/dl, é diabetes gestacional, também com necessidade de tratamento. Se a glicemia em jejum for ≤ 92 mg/dl, o Teste Oral de Tolerância à Glicose (TOTG 75g) é solicitado entre a 24ª e 28ª semana; um único valor alterado já diagnostica diabetes gestacional. Para pré-natal que inicia após a 20ª semana, o TOTG 75g é o exame inicial, com os mesmos critérios de diagnóstico para Diabetes Mellitus, Diabetes Gestacional e Diabetes Pré-gestacional.

TOTG 75g/ResultadoDiabetes Mellitus (DM2)Diabetes GestacionalDiabetes Pré-gestacional (DM2)
Jejum≥ 92 mg/dlglicemia ≤ 92 e < 126 mg/dlglicemia ≥ 126 mg/dl
1h≥ 180 mg/dl
2h≥ 153 mg/dlglicemia < 200 mg/dlglicemia ≥ 200 mg/dl

HIV e Hepatites Virais

O teste de HIV deve ser repetido entre a 28ª e 30ª semana se o primeiro resultado for não reator. Um resultado reator exige encaminhamento para tratamento precoce. Para Hepatite B, o status vacinal e sorológico (AgHBs, Anti-HBs, Anti-HBc) é avaliado; gestantes não imunes devem ser vacinadas. Se o AgHBs for reator, a gestante é encaminhada à infectologia e o recém-nascido recebe sorovacinação. A Hepatite C não é exame de rotina, mas é indicada para populações de risco (usuários de drogas, múltiplos parceiros, histórico de transfusão).

Toxoplasmose e Rubéola

Se IgG e IgM para toxoplasmose forem desconhecidos ou não reagentes, a sorologia deve ser repetida entre a 28ª e 30ª semana, com orientação sobre prevenção. Mudança de status sorológico (IgG+ e IgM+) exige teste de avidez e acompanhamento personalizado. Não há tratamento para rubéola na gestação; a vacinação é recomendada no puerpério para proteger futuras gestações.

Ultrassonografia Obstétrica

O Ministério da Saúde recomenda uma ultrassonografia precoce (entre 11ª e 14ª semana) para datação da idade gestacional, detecção de gemelaridade e rastreamento de cromossomopatias/malformações fetais (embora não seja diagnóstica). Outras ultrassonografias podem ser solicitadas conforme protocolo local ou necessidade clínica, especialmente em casos de maior risco.

Perguntas Frequentes sobre o Pré-Natal

1. Quais os cuidados básicos que se deve ter com a gestante?

Os cuidados vão além dos exames protocolares. Incluem a captação precoce, a vinculação da família com a equipe de saúde, uma anamnese detalhada, exame físico completo, diagnósticos e planos terapêuticos bem definidos. É crucial também abordar as expectativas, medos e angústias da mulher ou do casal, e avaliar a saúde mental da gestante, tornando as consultas espaços de acolhimento e informação sobre a saúde da mulher como um todo, não apenas a gestação.

2. Deve-se mudar alguma coisa no pré-natal durante a pandemia?

Sim. Durante a pandemia, é fundamental manter os cuidados para prevenção da Covid-19, como o treinamento da equipe de saúde e a proteção de gestantes. A continuidade do pré-natal é imprescindível, pois a interrupção pode levar a desfechos maternos e neonatais negativos. Recursos virtuais podem complementar o acompanhamento em algumas situações.

3. Como a caderneta de gestante pode contribuir para a qualificação do pré-natal?

A caderneta da gestante é um documento vital que registra todas as informações relevantes das consultas, como pressão arterial, peso, medicações e diagnósticos. Seu preenchimento correto é fundamental para o manejo da gestante em diferentes serviços de saúde, garantindo a continuidade do cuidado. Além disso, a caderneta contém informações educativas sobre alimentação, amamentação, prevenção e imunização, empoderando a gestante e sua família.

4. A sorologia para Citomegalovírus não deve ser solicitada como rastreio?

Não, a sorologia para citomegalovírus não é uma rotina no pré-natal no Brasil. Pode ser solicitada em situações específicas para diagnóstico diferencial, como suspeita de infecção viral ou febre não especificada. Alguns protocolos de pré-concepção podem recomendá-la como rastreamento, mas não para o pré-natal de risco habitual.

5. Se a mãe for Rh-, não se deve solicitar também o Coombs indireto?

Sim. O Coombs indireto faz parte da pesquisa de anticorpos irregulares (PAI). Quando se solicita apenas o Coombs indireto, avalia-se somente o Anti-D. É importante pesquisar todos os anticorpos irregulares, pois o sistema AB0 também pode produzir anticorpos incompatíveis. A PAI completa é essencial.

6. A Eletroforese de Hemoglobina faz parte, há um tempo, dos exames de rotina do pré-natal. Existem muitos casos de Anemia Falciforme entre as gestantes?

Sim. Devido à significativa miscigenação da população brasileira e a prevalência da Anemia Falciforme em pessoas negras (pretos e pardos), a eletroforese de hemoglobina é fundamental como rastreio no pré-natal. Embora a indicação possa ser individualizada em alguns locais, considerar gestantes negras com histórico de anemia crônica ou familiar de Anemia Falciforme é crucial.

7. Qual é a relação entre o pré-natal e a morte materna?

Embora não existam evidências fortes que comprovem diretamente que o pré-natal reduz a morte materna, sabe-se que consultas de qualidade podem rastrear as principais causas de morte materna. No Brasil, a hipertensão e as hemorragias pós-parto são as maiores causas. O pré-natal pode diagnosticar a hipertensão e manejar condições como anemias graves, que, se bem tratadas, reduzem consideravelmente o risco de morte. Em países de baixa e média renda, o pré-natal faz uma diferença significativa na morbimortalidade, ao contrário de países de alta renda, onde as mulheres geralmente não estão em situação de vulnerabilidade social.

8. Qual a conduta para a gestante com Citomegalovírus?

A conduta é basicamente o acompanhamento e a investigação da infecção fetal, pois não há tratamento para a infecção por citomegalovírus durante a gestação.

9. Quais condições sugerem encaminhar uma mulher para o pré-natal de alto risco? Quais resultados podem ser manejados pela atenção primária?

O Caderno de Manejo da Atenção ao Pré-Natal de Risco Habitual do Ministério da Saúde (2012) e protocolos locais definem os casos. Geralmente, anemia moderada/grave, fator Rh- com pesquisa de anticorpos positiva, sífilis (dependendo do serviço), e proteinúria na urina I justificam o encaminhamento. No entanto, muitos locais contam com matriciamento de especialistas para apoiar a atenção primária antes do encaminhamento.

10. Quanto à infecção urinária, noto que muitas mulheres são assintomáticas. Alguns artigos apontam que a infecção urinária assintomática não traz influência na prematuridade dos partos. Visto isso, deve-se tratar ou não?

Mesmo que a infecção urinária na gestação apresente sintomas atípicos ou seja assintomática (como a polaciúria isolada), se a urocultura for positiva, a gestante deve ser tratada. Embora a relação com a prematuridade possa ser debatida, a infecção urinária é uma das principais causas de morbidade na gestação e seu tratamento é fundamental para evitar complicações maiores.

11. Existe um período mais apropriado durante a gestação para coleta de citologia oncótica (citopatologia do colo do útero)?

A literatura indica que a coleta pode ser feita em qualquer período. No entanto, para evitar associar pequenos sangramentos da coleta com as perdas mais comuns no primeiro trimestre, alguns profissionais podem adiar para o segundo trimestre. É crucial que o profissional oriente sobre a técnica e os possíveis desconfortos. A coleta deve seguir a periodicidade recomendada pelo Ministério da Saúde ou protocolos institucionais.

12. Como deve ser a prescrição de Sulfato Ferroso ou Ferro Elementar?

É essencial verificar a formulação disponível e a quantidade de ferro elementar por comprimido na bula para fazer a conversão e prescrição correta. O ferro pode causar desconforto gástrico, portanto, boas orientações para amenizar os efeitos colaterais são importantes para a adesão ao tratamento.

13. Há alguma estratégia de captação precoce das gestantes no pré-natal? Algumas mulheres chegam muito tarde no pré-natal, principalmente as adolescentes.

O bom acolhimento, a busca ativa por Agentes Comunitários de Saúde e uma boa cobertura das equipes de Estratégia da Família são cruciais. Mulheres que buscam serviços de rotina devem ser questionadas sobre atraso menstrual com privacidade. A oferta de testes rápidos de gravidez e a realização de consultas precoces com solicitação de exames por enfermeiros ou médicos são de grande valia para o diagnóstico e acompanhamento oportunos.

14. O exame de streptococcus deve ser colhido como rotina do pré-natal?

Não. No Brasil, o exame para Streptococcus não é uma recomendação de rotina no pré-natal. Ele deve ser solicitado para rastreamento em situações de risco gestacional. Por exemplo, se uma mulher tem urocultura positiva para Streptococcus, ela pode ser uma candidata à profilaxia. Contudo, a universalidade dessa recomendação e os benefícios da profilaxia ainda são discutidos, não havendo indicação de rastreio universal.

O pré-natal é um período de grande significado, e a qualidade da assistência oferecida pode fazer toda a diferença. Priorizar o acolhimento, a informação e o cuidado individualizado, especialmente para as pessoas em situação de vulnerabilidade social, é fundamental para garantir um desfecho positivo para a mãe e o bebê.

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