O que entende por deontologia profissional?

Deontologia Profissional: O Dever na Saúde

13/03/2022

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A palavra Deontologia, com suas raízes na Grécia antiga, especificamente em “déon, déontos” (dever) e “lógos” (discurso ou tratado), surge como um pilar fundamental para a compreensão da conduta humana, especialmente no âmbito profissional. Mais do que um simples termo, ela representa a essência da atuação com base em um conjunto de deveres, princípios e normas que um grupo de indivíduos, em particular os profissionais, adota para nortear suas ações. Criada pelo influente filósofo inglês Jeremy Bentham, a Deontologia é reconhecida como a ciência do dever e da obrigação, situando-se como um ramo vital da ética.

O que entende por deontologia profissional?
Podemos considerar a palavra Deontologia Profissional como uma norma de conduta, que traz um conjunto de princípios e regras para conduzir uma determinada profissão, sendo dada a cada profissional \u2014 indivíduo/grupo de indivíduos \u2014 sua deontologia própria de acordo com o Código de Ética da área de atuação.

Em sua concepção mais pura, a Deontologia aborda as escolhas dos indivíduos, definindo o que é moralmente necessário e o que, de fato, deve ser feito. Por essa razão, é carinhosamente conhecida como “A Teoria do Dever”. No contexto profissional, a Deontologia Profissional é a adaptação da ética para o exercício de uma profissão específica, orientando o indivíduo a agir corretamente. Contribuições significativas, como as de Immanuel Kant, um dos mais importantes filósofos da era moderna, aprofundaram o conceito, dividindo-o em razão prática e liberdade, onde agir por dever confere valor moral à ação, e a perfeição moral é alcançada através de uma vontade livre. Assim, a Deontologia Profissional pode ser vista como uma norma de conduta, um conjunto de princípios e regras que guiam o exercício de uma profissão, codificados por meio dos Códigos de Ética de cada área de atuação.

Índice de Conteúdo

A Essência da Deontologia: Origem e Conceito Fundamental

A jornada da Deontologia começa na Antiguidade Clássica, mas ganha forma e nome próprio com Jeremy Bentham. Ele a concebeu como um sistema ético que se concentra no dever e nas regras, independentemente das consequências. Para Bentham, a moralidade de uma ação residia na sua conformidade com um dever, e não nos resultados que ela pudesse gerar. Isso a diferenciava de outras abordagens éticas que priorizavam o bem-estar ou a utilidade.

A influência de Immanuel Kant, posteriormente, solidificou a visão deontológica, ao argumentar que a moralidade de uma ação não reside em suas inclinações ou em seus resultados, mas unicamente na intenção por trás dela, ou seja, no cumprimento do dever. Para Kant, uma ação tem valor moral genuíno apenas se for realizada por dever, e não meramente em conformidade com o dever. Ele introduziu o conceito de imperativo categórico, uma regra universal que deve ser seguida por todos, em todas as situações, sem exceção. Essa ideia de universalidade e de princípios incondicionais é um pilar da ética deontológica.

Em suma, a Deontologia é a bússola moral que orienta as ações baseando-se em princípios e obrigações intrínsecas, independentemente das circunstâncias ou dos resultados esperados. É a convicção de que existem ações que são intrinsecamente corretas ou incorretas, e o profissional tem o dever de seguir o caminho do que é certo.

Deontologia Profissional: O Compromisso com a Ação Correta

Quando aplicamos a Deontologia ao contexto das profissões, ela se transforma em um guia prático para a conduta diária. A Deontologia Profissional é, portanto, o conjunto de deveres e princípios éticos que regulam o exercício de uma determinada profissão, garantindo que o profissional atue de forma íntegra, responsável e em benefício da sociedade. Cada profissão possui seu próprio código de conduta, que é a materialização desses princípios deontológicos. Esses códigos não são apenas documentos formais; são a alma da profissão, refletindo seus valores mais profundos e as expectativas da sociedade em relação àqueles que a exercem.

A primeira Deontologia Profissional formalmente criada, como a história nos mostra, foi na Medicina, nos Estados Unidos. Isso não é um acaso, dada a natureza crítica e a responsabilidade inerente à vida e à saúde humanas. A criação desses códigos é um esforço contínuo para traduzir o sentimento ético universal em regras aplicáveis às particularidades de cada grupo profissional, buscando sempre o bem maior.

Deontologia na Farmácia e Medicina: Pilares da Confiança e Segurança

No universo da saúde, a Deontologia Profissional adquire uma relevância ainda mais crítica. Farmacêuticos e médicos lidam diretamente com a vida, o bem-estar e a vulnerabilidade de indivíduos. A aplicação rigorosa dos princípios deontológicos é o alicerce sobre o qual se constrói a confiança entre profissional e paciente, essencial para um cuidado eficaz e seguro.

Para o farmacêutico, a Deontologia dita deveres como a dispensa responsável de medicamentos, garantindo que o paciente receba a medicação correta, na dosagem adequada, com as orientações necessárias e sem riscos de interações prejudiciais. Isso inclui o dever de informar sobre o uso racional dos medicamentos, combater a automedicação irresponsável e assegurar a qualidade e procedência dos produtos. A confidencialidade das informações do paciente, a ética na manipulação de fórmulas e a recusa em participar de práticas antiéticas, como a venda de medicamentos sem receita quando exigido por lei, são exemplos claros de deveres deontológicos.

Para o médico, a Deontologia abrange um espectro ainda mais amplo de responsabilidades. O dever primordial é o de zelar pela vida e pela saúde do paciente, acima de quaisquer outros interesses. Isso se manifesta na prática do consentimento informado, onde o paciente deve ser plena e claramente informado sobre seu diagnóstico, prognóstico, opções de tratamento, riscos e benefícios, para que possa tomar decisões autônomas e esclarecidas sobre sua própria saúde. A confidencialidade das informações médicas é sacrossanta, protegendo a privacidade do paciente e criando um ambiente de confiança. Além disso, o médico tem o dever de manter-se atualizado, de não abandonar o paciente sem justa causa e de agir com integridade profissional em todas as suas interações, evitando conflitos de interesse e garantindo que suas ações visem sempre o melhor para o paciente.

Ambas as profissões compartilham o dever de promover a saúde pública, participar de programas de prevenção de doenças e de contribuir para o avanço do conhecimento científico, sempre respeitando os princípios éticos na pesquisa e na prática clínica.

Os Códigos de Ética Profissional: Guias para o Exercício Deontológico

Os Códigos de Ética Profissional são a expressão formal da Deontologia de uma categoria. Eles são elaborados e atualizados pelos conselhos e ordens profissionais, como o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF) no Brasil. Esses documentos não apenas listam direitos e deveres, mas também estabelecem as sanções para o descumprimento das normas. São ferramentas essenciais para:

  • Proteger a sociedade de práticas inadequadas ou antiéticas.
  • Estabelecer padrões de conduta para os profissionais.
  • Promover a autorregulação da profissão.
  • Servir como base para a educação e formação contínua.
  • Orientar a resolução de dilemas éticos.

A existência de um código de conduta robusto e a sua aplicação rigorosa são indicativos da maturidade e responsabilidade de uma profissão. Ele é o compromisso público de que seus membros atuarão com a devida diligência e moralidade.

Deontologia vs. Outras Abordagens Éticas

É importante diferenciar a Deontologia de outras teorias éticas, pois cada uma oferece uma perspectiva única sobre o que torna uma ação moralmente correta.

AspectoDeontologiaConsequencialismoÉtica da Virtude
Foco PrincipalO dever e as regras morais intrínsecasAs consequências das açõesO caráter e as virtudes do agente
Questão Central"Qual é o meu dever, independentemente do resultado?""Qual ação produzirá o melhor resultado para o maior número?""Que tipo de pessoa ou profissional devo ser?"
MoralidadeAção é moral se cumpre o dever/regra.Ação é moral se produz bons resultados.Ação é moral se reflete o caráter virtuoso.
Exemplo (Saúde)Manter a confidencialidade do paciente, mesmo que revelar a informação pudesse evitar um dano menor a terceiros.Mentir para um paciente sobre seu prognóstico fatal se isso o ajudar a viver os últimos dias em paz.Um médico que age com compaixão, honestidade e prudência em todas as situações.

Desafios e Ameaças à Deontologia Profissional

Embora os códigos deontológicos sejam fundamentais para guiar a conduta profissional e proteger a sociedade, o texto original levanta um ponto crucial: o risco de monopolização. Isso significa que, por vezes, a autorregulação de uma profissão, embora necessária, pode levar a um fechamento excessivo do grupo profissional, priorizando os interesses internos em detrimento de questões mais amplas da sociedade. A autonomia profissional, um princípio deontológico importante, deve ser equilibrada com a responsabilidade social e a transparência.

Outros desafios incluem:

  • Avanços Tecnológicos: Novas tecnologias (telemedicina, inteligência artificial) criam dilemas éticos que os códigos existentes podem não cobrir totalmente, exigindo constante atualização e reflexão.
  • Pressões Econômicas: A mercantilização da saúde pode levar a conflitos de interesse, onde o dever ético de cuidar do paciente pode ser tensionado por metas financeiras.
  • Globalização: A atuação em diferentes contextos culturais e legais exige adaptabilidade e um entendimento dos princípios éticos universais.
  • Dilemas Complexos: Situações como o fim da vida, bioética e alocação de recursos limitados desafiam os profissionais a tomar decisões difíceis, onde o dever não é sempre óbvio.

Superar esses desafios exige não apenas a existência de códigos, mas uma cultura de reflexão ética contínua e a capacidade de adaptar os princípios deontológicos a realidades em constante mudança.

A Formação Contínua e a Relevância Deontológica

A Deontologia não é um conceito estático que se aprende uma única vez na faculdade. Pelo contrário, ela é uma prática viva que exige reflexão e aprendizado contínuos. A formação continuada em ética é crucial para que os profissionais de farmácia e medicina possam navegar pelos complexos dilemas do dia a dia, manter-se atualizados sobre as melhores práticas e adaptar sua conduta às novas realidades sociais, científicas e tecnológicas.

Cursos de atualização, seminários, discussões de caso e a participação em comitês de ética são ferramentas valiosas que reforçam o compromisso com os princípios deontológicos. É através dessa dedicação à educação continuada que os profissionais garantem que seu dever de agir corretamente esteja sempre alinhado com as expectativas da sociedade e com os mais altos padrões de cuidado.

Perguntas Frequentes sobre Deontologia Profissional

O que diferencia ética de deontologia?

A ética é um campo mais amplo da filosofia que estuda a moral, os valores e o que é certo ou errado. A Deontologia, por sua vez, é um ramo da ética que se concentra especificamente nos deveres e nas regras, independentemente das consequências. Enquanto a ética pergunta "O que é o bem?", a deontologia pergunta "Qual é o meu dever?".

Quem define os códigos de deontologia?

Os códigos de deontologia são definidos pelas associações, conselhos ou ordens profissionais de cada categoria. São organismos que representam os profissionais e têm a responsabilidade de regulamentar e fiscalizar o exercício da profissão, garantindo a qualidade e a ética dos serviços prestados à sociedade.

A deontologia se aplica a todas as profissões?

Sim, o conceito de Deontologia Profissional se aplica a todas as profissões que possuem um corpo de conhecimentos específico e que exercem uma função social relevante. Embora os deveres específicos variem, o princípio de ter um conjunto de normas éticas que guiam a conduta é universal para o exercício profissional responsável.

Como a deontologia protege o paciente?

A Deontologia protege o paciente ao estabelecer um conjunto de deveres e obrigações para os profissionais de saúde. Isso inclui o dever de agir com competência, zelar pela vida e saúde, manter a confidencialidade das informações, obter consentimento informado, evitar conflitos de interesse e primar pela segurança do paciente. Esses deveres criam um arcabouço de proteção contra negligência, imperícia ou imprudência.

O que acontece se um profissional violar o código deontológico?

A violação do código deontológico pode acarretar diversas sanções disciplinares aplicadas pelo respectivo conselho ou ordem profissional. As penalidades variam conforme a gravidade da infração e podem incluir advertência, censura pública, suspensão do exercício profissional e, nos casos mais graves, a cassação do registro profissional.

Em conclusão, a Deontologia Profissional é muito mais do que um conjunto de regras; é a bússola moral que orienta a conduta de farmacêuticos e médicos, assegurando que o dever de cuidar do próximo seja sempre a prioridade máxima. Ela é a garantia de que a confiança depositada nesses profissionais será honrada, e que a saúde e o bem-estar da sociedade serão protegidos com a máxima integridade e responsabilidade. Ao compreendermos e valorizarmos a Deontologia, fortalecemos não apenas as profissões da saúde, mas a própria essência do cuidado humano.

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