24/12/2021
Por muito tempo, acreditou-se que o avanço tecnológico na saúde e as mudanças demográficas levariam a uma diminuição significativa das doenças infecciosas, como malária, dengue e tuberculose. A expectativa era que essas enfermidades cedessem lugar a doenças crônicas não transmissíveis, completando o que se chamou de transição epidemiológica. No entanto, a emergência da AIDS na década de 80 serviu como um alerta contundente, mostrando que a era das doenças infecciosas estava longe de terminar. De fato, os mesmos fatores que se esperava reduzissem essas doenças podem, paradoxalmente, propiciar seu surgimento e disseminação, tornando o cenário da saúde pública mais complexo e desafiador do que nunca.

A urbanização acelerada, por exemplo, é um dos determinantes que, ao invés de controlar, favoreceu o ressurgimento da dengue nas Américas. A constante identificação de novos agentes infecciosos e o retorno de doenças que se consideravam sob controle colocam as "doenças emergentes e reemergentes" no centro das discussões entre profissionais de saúde, acadêmicos, gestores e formuladores de políticas públicas, tanto nacionais quanto internacionais. Compreender a dinâmica dessas enfermidades é crucial para desenvolver estratégias eficazes de prevenção e controle.
- O Que São Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes?
- Fatores Determinantes na Emergência e Reemergência de Doenças
- Desafios no Enfrentamento das Doenças Emergentes e Reemergentes
- Perguntas Frequentes sobre Doenças Emergentes e Reemergentes
- 1. Qual a principal diferença entre doença emergente e reemergente?
- 2. Por que as doenças infecciosas estão voltando, mesmo com a tecnologia avançada?
- 3. O que é a "transição epidemiológica" e por que ela não se aplicou perfeitamente no Brasil?
- 4. Como posso me proteger das doenças emergentes e reemergentes?
- 5. Qual o papel da farmácia no contexto das doenças emergentes e reemergentes?
- Considerações Finais
O Que São Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes?
Para entender a magnitude do desafio, é fundamental diferenciar esses dois conceitos que, embora relacionados, possuem nuances distintas:
Doenças Emergentes: Novas Ameaças no Horizonte
Uma "doença emergente" refere-se ao surgimento ou à identificação de um novo problema de saúde ou de um novo agente infeccioso. Isso pode incluir patógenos completamente novos para a ciência ou microrganismos que antes afetavam apenas animais e agora são capazes de infectar seres humanos. Alguns exemplos notáveis incluem:
- A febre hemorrágica pelo vírus Ebola.
- A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS), causada pelo HIV.
- A hepatite C.
- A encefalite espongiforme, popularmente conhecida como "doença da vaca louca".
- O vírus da Febre do Nilo Ocidental.
- O hantavírus.
- O vírus da influenza aviária (A/H5N1), que, desde 1997, mantém a comunidade internacional em alerta para o risco potencial de uma nova pandemia de gripe em humanos, dada sua elevada letalidade, embora a transmissão eficiente de pessoa para pessoa ainda não tenha sido observada.
A constante vigilância sobre esses novos agentes é vital para monitorar sua circulação e impacto, especialmente quando há risco de adaptação e maior transmissibilidade para a população humana.
Doenças Reemergentes: Velhos Conhecidos, Novas Ameaças
Já as "doenças reemergentes" indicam uma mudança no comportamento epidemiológico de doenças já conhecidas. São aquelas que haviam sido controladas ou reduzidas, mas que voltaram a representar uma ameaça significativa à saúde humana. Isso pode ocorrer pela introdução de agentes já conhecidos em novas populações de hospedeiros suscetíveis ou por fatores que favorecem seu ressurgimento. No Brasil, a história recente registra exemplos marcantes como:
- O retorno da dengue, que havia sido controlada em certas regiões.
- A reintrodução e expansão do cólera.
- A expansão da leishmaniose visceral para novas áreas.
A tuberculose pulmonar, embora muitas vezes rotulada como reemergente, é um caso particular no Brasil. Estudos apontam que ela nunca declinou significativamente, permanecendo em nosso meio com prevalência importante e incidência elevada, especialmente após o advento da AIDS, o que a caracteriza mais como uma doença persistente com recrudescência em determinados contextos.
Fatores Determinantes na Emergência e Reemergência de Doenças
A complexidade do cenário atual da saúde pública reside na multicausalidade por trás da emergência e reemergência de doenças infecciosas. Uma série de fatores interligados contribui para essa dinâmica. Compreender esses determinantes é crucial para a formulação de políticas públicas eficazes e para a prevenção de futuros surtos.
Tabela Comparativa: Doenças Emergentes vs. Reemergentes
| Característica | Doença Emergente | Doença Reemergente |
|---|---|---|
| Definição | Surgimento de novo agente ou problema de saúde. | Mudança no comportamento epidemiológico de doença conhecida e controlada. |
| Agente Infeccioso | Novo para humanos ou identificado recentemente. | Já conhecido, mas com ressurgimento da ameaça. |
| Exemplos | Ebola, AIDS, Hantavírus, Influenza Aviária (H5N1). | Dengue (retorno), Cólera (retorno), Leishmaniose Visceral (expansão). |
| Desafio Principal | Identificação precoce e contenção de um agente desconhecido. | Readequação de estratégias de controle e vigilância para uma ameaça familiar. |
Principais Fatores Associados:
- Modelos de Desenvolvimento Econômico: Grandes obras (hidrelétricas, rodovias), urbanização acelerada sem infraestrutura adequada, e processos migratórios podem alterar ecossistemas, aproximar populações humanas de reservatórios de patógenos e criar condições propícias para a disseminação de doenças.
- Fatores Ambientais: O desmatamento, as mudanças climáticas (como o aquecimento global) e eventos extremos (secas e inundações) modificam habitats, alteram a distribuição de vetores e reservatórios, e podem forçar populações a se deslocarem para áreas de risco.
- Aumento do Intercâmbio Internacional: A globalização e a facilidade de viagens internacionais transformam o fluxo de pessoas e mercadorias em um "vetor cultural" para a disseminação rápida de agentes infecciosos de um continente a outro em questão de horas.
- Incorporação de Novas Tecnologias Médicas: O uso disseminado de procedimentos invasivos, transplantes e imunossupressores, embora benéficos, pode criar novas portas de entrada para infecções ou aumentar a vulnerabilidade de pacientes a microrganismos oportunistas.
- Ampliação do Consumo de Alimentos Industrializados: Especialmente os de origem animal, podem introduzir novos patógenos na cadeia alimentar ou ampliar a exposição a agentes infecciosos presentes em produtos não processados adequadamente.
- Desestruturação/Inadequação dos Serviços de Saúde: A falta de investimento, a desorganização ou a desatualização das estratégias de controle de doenças enfraquecem a capacidade de resposta do sistema de saúde, permitindo que surtos se alastrem.
- Aprimoramento das Técnicas de Diagnóstico: Embora seja um avanço positivo, a melhoria na capacidade de diagnóstico etiológico também contribui para a "descoberta" de mais doenças, que talvez já circulassem, mas não eram identificadas com precisão.
- Processo de Evolução de Microrganismos: Mutações virais e a emergência de bactérias resistentes a antimicrobianos (como as responsáveis por infecções hospitalares de alta mortalidade) são exemplos claros de como os patógenos se adaptam, tornando tratamentos existentes ineficazes e exigindo constante pesquisa e desenvolvimento de novas terapias.
Esses fatores interagem de forma complexa, moldando um quadro sanitário que desafia a visão simplista de uma transição epidemiológica linear. No Brasil, essa complexidade é ainda mais evidente, com marcadas desigualdades regionais e sociais que mantêm doenças infecciosas como um problema persistente em muitas subpopulações, mesmo com a diminuição do seu peso relativo na morbimortalidade geral.
A AIDS, a dengue e as infecções por bactérias resistentes são exemplos claros dessa modificação no comportamento das doenças infecciosas. Se no passado a associação era majoritariamente com más condições socioeconômicas, saneamento básico deficiente e higiene precária, hoje, novos padrões de ocorrência emergem, fruto da complexa interação entre agentes, ambiente e a vulnerabilidade das populações.
No Rio Grande do Sul, por exemplo, persiste a coexistência de doenças crônicas e agravos por violência com doenças infecciosas como hepatite C, leptospirose, tuberculose e AIDS. Adicionalmente, registram-se surtos de psitacose, casos de síndrome cardiopulmonar por hantavírus, esquistossomose autóctone, leishmaniose tegumentar americana, febre maculosa brasileira, dengue e, mais recentemente, a possibilidade da febre amarela. Isso reitera que as doenças infecciosas retomaram um espaço central na agenda de prioridades da Saúde Pública.
Desafios no Enfrentamento das Doenças Emergentes e Reemergentes
O enfrentamento eficaz das doenças emergentes e reemergentes exige uma abordagem multifacetada e integrada, com o fortalecimento de diversas áreas da saúde pública. Os desafios são imensos, mas as estratégias para superá-los são claras:
1. Fortalecimento da Vigilância Epidemiológica
A capacidade de detecção precoce é a primeira linha de defesa. Isso implica:
- Capacitação Profissional: Médicos, enfermeiros, médicos veterinários e outros profissionais da assistência devem ser continuamente treinados para identificar casos suspeitos, auxiliar nas investigações e desencadear medidas de controle rapidamente.
- Epidemiologistas Qualificados: É fundamental ter profissionais capazes de realizar investigações de campo, monitorar o comportamento das doenças em indivíduos e populações, e operar um sistema de informações ágil que permita a tomada de decisão em tempo oportuno.
- Vigilância em Saúde Integrada: Fortalecer a vigilância ambiental e sanitária, bem como a saúde pública veterinária, é crucial, pois muitas dessas doenças resultam da interação entre humanos, animais e o ambiente. O monitoramento rotineiro de fauna sinantrópica e das condições sanitárias de alimentos e populações animais pode alertar precocemente para riscos.
- Comunicação Ágil: Mecanismos de comunicação eficientes entre os diferentes serviços envolvidos são essenciais para uma resposta coordenada.
- Programas de Treinamento: Iniciativas como o Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS (EPI-SUS), em parceria com instituições internacionais, são vitais para a formação de epidemiologistas de campo.
2. Ampliação da Capacidade de Diagnóstico Laboratorial
Um diagnóstico rápido e preciso é a base para qualquer resposta. Para isso, é preciso:
- Rede de Laboratórios Resolutiva: Desenvolver uma rede de laboratórios de Saúde Pública (LACENs, laboratórios federais e universitários – incluindo patologia clínica, microbiologia, parasitologia, virologia, imunologia, entomologia, zoologia, ecologia, ornitologia, micologia e medicina veterinária) que seja hierarquizada, bem equipada e com suprimento oportuno de insumos.
- Profissionais Capacitados e Biossegurança: Garantir que os laboratórios contem com profissionais altamente treinados e que todas as normas de biossegurança sejam rigorosamente seguidas para proteger tanto os trabalhadores quanto a comunidade.
- Conexão Internacional: Integrar a rede laboratorial nacional às redes internacionais organizadas por organismos como a OPAS/OMS, facilitando o intercâmbio de informações e o acesso a tecnologias avançadas.
3. Biossegurança e Controle de Riscos
A globalização e o potencial uso de agentes etiológicos como armas biológicas elevam a biossegurança a um patamar crítico. Os desafios incluem:
- Controle de Importação de Animais: Vigilância sanitária rigorosa sobre a importação de animais para experimentação, especialmente primatas, que podem ser reservatórios de novos agentes infecciosos. As condições de transporte, acomodação e manutenção desses animais devem ser monitoradas.
- Normas em Ambientes Clínicos e Laboratoriais: Implementar e fiscalizar normas de biossegurança no manejo clínico de casos suspeitos em hospitais e em laboratórios de identificação de agentes etiológicos, protegendo profissionais de saúde, pacientes e a população em geral.
- Preparação para Tráfego Global de Viroses: Reconhecer a velocidade com que vírus podem se espalhar globalmente via viagens aéreas e desenvolver planos de contingência para conter surtos transfronteiriços.
4. Desenvolvimento de Pesquisa e Inovação
A pesquisa é a base para o conhecimento e a inovação em saúde. É fundamental:
- Investimento em Pesquisa Básica e Aplicada: Fomentar a pesquisa em universidades e institutos, com foco em novas tecnologias de diagnóstico (incluindo biologia molecular), epidemiologia, e desenvolvimento de fármacos e vacinas.
- Parcerias Estratégicas: Estimular a colaboração entre instituições acadêmicas, governamentais e o setor privado para acelerar a descoberta e a implementação de soluções.
Perguntas Frequentes sobre Doenças Emergentes e Reemergentes
Diante da complexidade e da constante evolução do cenário, algumas dúvidas são comuns. Respondemos às mais frequentes para esclarecer o tema.
1. Qual a principal diferença entre doença emergente e reemergente?
A principal diferença reside no "grau de novidade". Doenças emergentes são aquelas que surgem ou são identificadas pela primeira vez em uma população (como a AIDS ou o Ebola), enquanto as reemergentes são doenças já conhecidas que haviam sido controladas, mas que voltaram a representar uma ameaça à saúde pública (como a dengue ou o cólera em certas regiões).
2. Por que as doenças infecciosas estão voltando, mesmo com a tecnologia avançada?
A volta de doenças infecciosas é um fenômeno complexo, impulsionado por uma combinação de fatores. Isso inclui mudanças ambientais (desmatamento, aquecimento global), urbanização desordenada, aumento do intercâmbio internacional (viagens), falhas nos sistemas de saúde, evolução dos microrganismos (mutações, resistência a antibióticos) e até mesmo novas práticas médicas invasivas. A interação desses fatores cria um cenário propício para o surgimento e a disseminação de patógenos.
3. O que é a "transição epidemiológica" e por que ela não se aplicou perfeitamente no Brasil?
A transição epidemiológica é um conceito que descreve a mudança nos padrões de saúde de uma população: de doenças infecciosas e parasitárias para doenças crônicas não transmissíveis, geralmente associada ao envelhecimento populacional e ao desenvolvimento socioeconômico. No Brasil, essa transição não foi perfeita devido às profundas desigualdades regionais e sociais. Enquanto algumas áreas avançaram, outras ainda enfrentam desafios significativos de doenças infecciosas, resultando na coexistência de diferentes perfis de morbimortalidade.
4. Como posso me proteger das doenças emergentes e reemergentes?
A proteção individual e coletiva passa por várias medidas: manter a vacinação em dia (para as doenças que possuem vacina), praticar boa higiene (lavar as mãos frequentemente), consumir alimentos seguros, evitar contato com animais silvestres ou desconhecidos, usar repelentes em áreas de risco para doenças transmitidas por vetores (como mosquitos), e buscar atendimento médico ao primeiro sinal de sintomas incomuns. Além disso, apoiar e exigir investimentos em saneamento básico e saúde pública é fundamental.
5. Qual o papel da farmácia no contexto das doenças emergentes e reemergentes?
As farmácias desempenham um papel crucial. Além de serem pontos de acesso a medicamentos, elas são locais de orientação à saúde. Farmacêuticos podem educar a população sobre prevenção, higiene, uso correto de medicamentos (evitando a resistência antimicrobiana) e a importância da vacinação. Em casos de surtos, podem atuar na distribuição controlada de insumos e na disseminação de informações oficiais de saúde pública.
Considerações Finais
O Brasil e, em particular, o Rio Grande do Sul, apresentam condições climáticas, geográficas, ambientais e socioeconômicas que os tornam propícios para a emergência e reemergência de doenças infecciosas e parasitárias. Este cenário ressalta a importância de uma abordagem integrada e colaborativa para enfrentar esses desafios.
É imperativo que todos os setores da sociedade unam esforços para fortalecer as atividades de vigilância em saúde em todas as esferas de governo. Parcerias entre serviços, profissionais e instituições públicas e privadas são imprescindíveis para a troca de conhecimentos, o desenvolvimento de pesquisas e a implementação de ações efetivas. Tão importante quanto isso é o investimento contínuo na melhoria das condições de vida da população, que inclui saneamento básico, acesso à saúde de qualidade e educação. Somente com essa abordagem abrangente e proativa estaremos verdadeiramente preparados para enfrentar esses "novos (velhos)" problemas de saúde pública que continuam a desafiar a humanidade.
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