16/01/2026
No vasto universo das bebidas, poucas marcas alcançaram o status icónico e a presença global da Coca-Cola. O seu nome ressoa em quase todos os cantos do planeta, sinónimo de refrescância e momentos partilhados. No entanto, a trajetória desta gigante vai muito além do que a maioria das pessoas imagina. Por trás do efervescente líquido caramelizado, esconde-se uma história rica e surpreendente, que se inicia não numa fábrica de refrigerantes, mas sim no balcão de uma farmácia, sob a visão de um homem com conhecimentos de química e medicina. Prepare-se para desvendar os segredos da origem, da ascensão meteórica e dos desafios que moldaram a Coca-Cola na marca que conhecemos hoje, desde as suas humildes raízes farmacêuticas até à sua complexa e fascinante jornada por todo o mundo, incluindo a sua chegada e o seu impacto duradouro em Portugal.
A Origem Inesperada: A Visão de um Farmacêutico
A história da Coca-Cola começa de uma forma que desafia as expectativas modernas de um gigante das bebidas. O seu criador foi John Stith Pemberton, um farmacêutico com sede em Atlanta, Geórgia, nos Estados Unidos. Pemberton, que já era conhecido pela distribuição de outros produtos, como a "French Wine Coca" – uma mistura de vinho Bordeaux com extrato de coca –, estava à procura de uma nova fórmula. A sua motivação em 1886 era clara: desenvolver uma bebida não alcoólica, capaz de satisfazer a crescente procura de um mercado norte-americano que se tornava cada vez mais puritano, afastando-se das bebidas alcoólicas. Foi neste contexto que, a 8 de maio de 1886, Pemberton serviu o primeiro copo do que viria a ser a Coca-Cola, ao preço de cinco centavos de dólar.
Inicialmente, este novo xarope caramelizado era vendido em farmácias não como uma bebida recreativa, mas sim como um remédio concebido para aliviar dores de cabeça e distúrbios do sistema nervoso. A fórmula original era uma mistura intrigante de extrato e folhas de coca descocainizada, cafeína e água. Para aprimorar o sabor e a estabilidade da sua invenção, Pemberton adicionou cuidadosamente uma série de óleos aromatizantes, incluindo limão, laranja, lima, noz-moscada, cássia (uma forma de canela chinesa), coentro e baunilha. O ácido fosfórico foi igualmente incorporado para garantir a estabilidade química do produto. O nome e o logótipo "Coca-Cola" são atribuídos a Frank Robinson, que era o gerente da Pemberton Chemical Company. Apesar do seu génio inovador, John Pemberton faleceu apenas dois anos depois, em 1888, sem testemunhar a dimensão global que a sua refrescante invenção alcançaria.
A Transformação em Império: Da Farmácia ao Mercado Global
Após a morte de John Pemberton, o destino da sua invenção recaiu sobre ombros capazes de a impulsionar para muito além das farmácias de Atlanta. Em 1887, Pemberton vendeu a fórmula a Asa Candler, um farmacêutico perspicaz que viria a ser a força motriz por trás da expansão da Coca-Cola. Candler, em conjunto com o contabilista de Pemberton, Frank Robinson – o mesmo que idealizou a marca e desenhou o icónico logótipo da Coca-Cola –, e o seu irmão, John S. Candler, fundou a atual The Coca-Cola Company em 1892, registando-a como sociedade anónima no estado da Geórgia. Este foi o ponto de viragem que transformou um xarope medicinal numa bebida de consumo massivo.
A ascensão da Coca-Cola foi notável. Em 1895, a bebida já havia conquistado os Estados Unidos, solidificando a sua presença em todo o território americano. Na virada do século, a expansão transbordou as fronteiras nacionais, chegando aos vizinhos mais próximos: Canadá, Inglaterra, Cuba e Porto Rico. No entanto, foi a partir de 1919 que a Coca-Cola iniciou a sua verdadeira escalada mundial, estabelecendo-se em cerca de 200 países, incluindo mercados tão desafiadores como a Rússia e a China. A multinacional, com a sua matriz firmemente sediada em Atlanta, Estados Unidos, opera sob um modelo de negócio engenhoso: o seu principal foco não é a produção e distribuição da bebida final em todos os mercados, mas sim a venda de franquias para o uso do xarope concentrado e da marca. As filiais estrangeiras são responsáveis apenas pelo tratamento industrial final dos produtos, garantindo que a essência da fórmula desenvolvida por Pemberton se mantenha consistente globalmente.
A presença global da Coca-Cola não esteve isenta de desafios. Em 1939, por exemplo, a entrada da bebida no Brasil foi marcada por uma alteração legislativa controversa. O então presidente Getúlio Vargas emitiu um decreto que modificou o uso de aditivos químicos em refrigerantes, permitindo a utilização do ácido fosfórico. Esta decisão gerou polémica, pois pesquisas médicas indicavam que o ácido fosfórico poderia combinar-se com o cálcio no organismo, potencialmente levando à descalcificação de ossos e dentes. Anos mais tarde, em 1999, a empresa enfrentou um sério revés na Europa. A 14 de junho, a Bélgica proibiu a venda de refrigerantes da Coca-Cola após mais de 200 pessoas terem sido intoxicadas. França, Holanda e Luxemburgo seguiram o exemplo. A empresa atribuiu a contaminação ao dióxido de carbono usado nas suas fábricas na Antuérpia, Bélgica, e em Dunquerque, França. Apesar do incidente ter sido resolvido e a comercialização retomada em poucos dias, estes episódios sublinham a complexidade da gestão de uma marca de dimensão verdadeiramente global.
Para contextualizar a rápida ascensão da Coca-Cola, apresentamos alguns marcos históricos importantes:
| Ano | Acontecimento |
|---|---|
| 1886 | John Pemberton serve o primeiro copo de Coca-Cola em Atlanta. |
| 1887 | John Pemberton vende a fórmula a Asa Candler. |
| 1892 | Fundação da The Coca-Cola Company por Asa Candler e parceiros. |
| 1895 | A Coca-Cola já havia conquistado os Estados Unidos. |
| 1919 | Início da escalada mundial, atingindo cerca de 200 países. |
| 1939 | Entrada da Coca-Cola no Brasil, após alteração legislativa. |
| 1977 | Primeira venda oficial de Coca-Cola em Portugal. |
| 1978 | Inauguração da fábrica da Coca-Cola em Azeitão, Portugal. |
A Longa Espera: A Chegada da Coca-Cola a Portugal
Enquanto a Coca-Cola se expandia por grande parte do globo, a sua chegada a Portugal foi marcada por uma história peculiar e uma longa espera. Muitos conhecem um dos mais célebres slogans publicitários criados para a marca: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”. O que poucos sabem é que esta frase icónica foi concebida já em 1927, pela agência publicitária onde o próprio Fernando Pessoa trabalhava. Contudo, apesar deste reconhecimento precoce, a Coca-Cola não viria a entrar em Portugal tão cedo. Pelo contrário, a bebida acabaria por ser alvo de uma proibição por parte da Justiça Portuguesa e do Estado Novo, o regime autoritário que governava o país na época. As razões exatas para esta proibição são complexas, mas estavam ligadas a preocupações com a saúde pública, a concorrência com produtos nacionais e, possivelmente, uma postura de defesa da identidade cultural contra influências estrangeiras. Independentemente das motivações, esta decisão manteve a Coca-Cola fora do mercado português por impressionantes 50 anos.
Foi apenas a 4 de julho de 1977, num café na Baixa de Lisboa, que a primeira Coca-Cola foi finalmente vendida em Portugal. Este evento marcou o fim de meio século de espera e o início de uma nova era para a bebida no país. No mesmo ano, a Coca-Cola lançou o seu primeiro anúncio oficial em Portugal, acompanhado do slogan “Coca-Cola, a Tal”, que rapidamente se enraizou na cultura popular. O ano seguinte, 1978, foi igualmente significativo com a inauguração da fábrica da Coca-Cola em Azeitão, Setúbal. Esta unidade fabril tornou-se a espinha dorsal da produção da bebida no país, sendo responsável por cerca de 90% das bebidas que chegam diariamente a todos os cantos de Portugal. A fábrica de Azeitão é um pilar importante para a economia local, empregando diretamente 350 pessoas e contribuindo para a criação de mais de 8 mil postos de trabalho diretos e indiretos em toda a cadeia de valor.
O Impacto da Coca-Cola em Portugal: Mais do que uma Bebida
Ao longo dos últimos 45 anos, desde a sua entrada oficial, a Coca-Cola em Portugal tem sido muito mais do que apenas uma bebida refrescante. A marca acompanhou de perto as profundas mudanças culturais e sociais do país, testemunhando e participando ativamente no seu desenvolvimento e modernização. A sua presença manifestou-se através do apoio a eventos marcantes que ressoam na memória coletiva dos portugueses. A Coca-Cola foi parceira em iniciativas de grande visibilidade, como o Campeonato do Mundo de Juniores em 1991, um evento que capturou a atenção do país, a Expo 98, que projetou Lisboa para o mundo, o Euro 2004, que uniu a nação em torno do futebol, e a Taça Coca-Cola, que promoveu o desporto.
Além do patrocínio de grandes eventos, a Coca-Cola tem demonstrado um forte compromisso com a cultura portuguesa. Um exemplo notável foi a promoção de duas edições da coleção “Património Revisitado”, onde a embalagem de uma bebida icónica foi colocada ao serviço de monumentos históricos do país, unindo o consumo diário à valorização do legado nacional. Estas e muitas outras ações desenvolvidas ao longo das últimas décadas sublinham o papel ativo da empresa no apoio à cultura e à identidade portuguesa.
Mais recentemente, a Coca-Cola tem focado os seus esforços em programas de sustentabilidade social e ambiental, refletindo uma consciência crescente das necessidades do país e da atualidade global. Em 2019, foi lançado o programa ‘BORA Mulheres em Portugal, com o objetivo claro de promover o empreendedorismo feminino. Este programa, que já vai na sua quarta edição, tem sido um sucesso, contando com a participação de mais de 600 mulheres, empoderando-as e contribuindo para a sua autonomia económica. Complementarmente, o ‘BORA Jovens é o programa mais recente na área da sustentabilidade social, com a sua primeira edição em 2021. O seu propósito é ambicioso: contribuir para a retoma da economia nacional, apoiando jovens inseridos em contextos mais vulneráveis a integrarem o mercado de trabalho, oferecendo-lhes ferramentas e oportunidades para construírem um futuro mais promissor.
No que toca à sustentabilidade ambiental, a Coca-Cola em Portugal tem implementado ações concretas no âmbito do seu plano de ação "Avançamos". Com o objetivo de contribuir para a restauração hídrica, a empresa desenvolveu o projeto “Plantar Água” em parceria com a ANP|WWF. Iniciado em 2019, este projeto visa o restauro ecológico de várias áreas afetadas pelo devastador incêndio florestal da Catraia em 2012, através da instalação de mais de 50 mil árvores e arbustos mediterrânicos em 100 hectares da serra.
Ana Claudia Ruiz, diretora-geral da Coca-Cola Portugal, sublinha a visão da empresa: “A Coca-Cola tem procurado ter uma presença responsável e consciente das necessidades e da atualidade do país. Estivemos desde sempre ligados a apoios e projetos de desenvolvimento social e profissional e à proteção do ambiente. Nunca esquecendo a nossa grande missão de refrescar o mundo e fazer a diferença!”. Rui Serpa, VP & Country Director Portugal da Coca-Cola Europacific Partners, reforça o impacto económico: a Coca-Cola não só faz parte da história do país como contribui ativamente e cada vez mais para a economia nacional. Um dado revelador é que por cada euro gasto em Coca-Cola, 81 cêntimos permanecem em Portugal, evidenciando um impacto positivo significativo que é fruto do trabalho conjunto de toda a equipa, parceiros e da profunda relação com clientes e a comunidade.
Perguntas Frequentes sobre a Coca-Cola
Quem inventou a Coca-Cola?
A Coca-Cola foi inventada por John Stith Pemberton, um farmacêutico de Atlanta, Geórgia, nos Estados Unidos.
Quando a Coca-Cola foi criada e lançada ao público?
A primeira Coca-Cola foi servida a 8 de maio de 1886. Inicialmente, era vendida como um xarope medicinal em farmácias.
É verdade que a Coca-Cola começou como um remédio?
Sim, é verdade. John Pemberton, que era farmacêutico, desenvolveu a fórmula inicialmente como um xarope para aliviar dores de cabeça e distúrbios do sistema nervoso, sendo vendido em farmácias como um tónico medicinal.
Por que a Coca-Cola foi inicialmente proibida em Portugal?
A Coca-Cola foi proibida em Portugal pela Justiça Portuguesa e pelo Estado Novo, o regime político da época. Embora as razões exatas não sejam totalmente detalhadas na informação fornecida, a proibição pode ter estado relacionada com preocupações de saúde, concorrência ou uma política de proteção contra influências estrangeiras, o que atrasou a sua entrada por 50 anos.
Quando a Coca-Cola chegou oficialmente a Portugal?
A Coca-Cola foi vendida pela primeira vez em Portugal a 4 de julho de 1977, num café na Baixa de Lisboa, após um período de proibição.
Desde um modesto balcão de farmácia em Atlanta até se tornar uma das marcas mais reconhecidas e valiosas do mundo, a Coca-Cola percorreu um caminho extraordinário. A sua história é um testemunho de inovação, resiliência e adaptação cultural, superando desafios e consolidando a sua presença em quase todos os países. Em Portugal, a sua jornada foi particularmente única, marcada por uma proibição inicial e uma posterior integração profunda na sociedade, onde se tornou não apenas uma bebida, mas também um parceiro em momentos sociais, culturais e de desenvolvimento. A Coca-Cola continua a refrescar o mundo, mas também a demonstrar um compromisso crescente com as comunidades e o ambiente, provando que a sua história está em constante evolução.
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