06/01/2026
Em Portugal, o feijão não é apenas um alimento; é uma parte intrínseca da nossa cultura gastronómica e da nossa história. Desde o humilde feijão-frade até ao robusto feijão-encarnado, cada variedade carrega consigo séculos de história, de cultivo e de adaptação aos paladares e solos lusitanos. Entre estas inúmeras variedades, o feijão catarino destaca-se como um dos mais conhecidos e apreciados, embora a sua função específica seja, na verdade, a mesma de tantos outros feijões: alimentar, nutrir e enriquecer a culinária portuguesa com o seu sabor e versatilidade.
O feijão catarino, tal como o feijão manteiga, o branco ou o encarnado, é uma das muitas variedades do feijão-comum (Phaseolus vulgaris) cultivadas em Portugal. Não possui uma utilidade única ou exclusiva que o diferencie radicalmente das outras leguminosas, mas sim características específicas de sabor, textura e tempo de cozedura que o tornam preferido em certas receitas. É amplamente utilizado em pratos tradicionais portugueses, desde sopas reconfortantes a acompanhamentos de carne ou peixe, e claro, em guisados e feijoadas. A sua capacidade de absorver os sabores dos temperos e de se manter macio após a cozedura faz dele um ingrediente versátil e indispensável na cozinha portuguesa. O seu consumo, como o de outras variedades de feijão, contribui significativamente para uma dieta equilibrada e saudável, sendo uma excelente fonte de proteínas vegetais, fibras e diversos micronutrientes essenciais. Assim, o feijão catarino serve primariamente como um alimento nutritivo e saboroso, fundamental na dieta e nas tradições culinárias do país.
- Uma História Milenar: A Chegada do Feijão a Portugal
- A Incrível Diversidade do Feijão Português
- A Ciência por Trás do Grão: O Estudo das Variedades Nacionais
- Desafios e Oportunidades: A Valorização do Feijão Tradicional
- Benefícios Nutricionais Inegáveis
- Tabela Comparativa: Centros de Origem do Feijão Comum
- Perguntas Frequentes sobre o Feijão em Portugal
Uma História Milenar: A Chegada do Feijão a Portugal
A história do feijão em Portugal é tão rica e fascinante quanto a sua diversidade genética. Contrariamente ao que muitos poderiam pensar, o feijão-comum não é uma planta nativa da Europa, mas sim das Américas. A sua chegada ao Velho Continente ocorreu durante o século XVI, no período dos Descobrimentos, quando os navegadores portugueses e espanhóis o trouxeram do Novo Mundo. Acredita-se que os portugueses encontraram o feijão já cultivado e fazendo parte da alimentação das populações autóctones tanto na América Central como na América do Sul, como é referido no livro A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses, de José Mendes Ferrão.
Estudos científicos recentes lançam luz sobre esta jornada. Uma equipa de investigadores portugueses e croatas, liderada pela agrónoma Carlota Vaz Patto do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB), em Oeiras, revelou num artigo científico na revista Frontiers in Plant Science que a maior parte das variedades portuguesas de feijão são geneticamente mais próximas das variedades existentes nos Andes. Isto sugere que as sementes que mais prosperaram e se disseminaram em Portugal tiveram origem predominantemente nesta região sul-americana, embora também houvesse contribuições da Mesoamérica.
Já no século XVI, o agricultor e estudioso português Gabriel de Sousa, na sua obra Notícia do Brasil, salientava a imensa diversidade do feijão que se dava naquela terra: “Dão-se nesta terra infinidade de feijões naturais dela, uns são brancos, outros pretos, outros vermelhos, e outros pintados de branco, e preto (…)”. Esta diversidade, que fascinava os primeiros observadores, foi também transportada para Portugal, onde, ao longo dos séculos, se multiplicou e se adaptou às condições locais, dando origem a uma miríade de variedades únicas.
A Incrível Diversidade do Feijão Português
Se perguntar a um especialista quantas variedades de feijão existem em Portugal, a resposta poderá surpreendê-lo. A investigadora Carlota Vaz Patto arrisca mesmo a dizer que existem centenas, talvez até milhares de variedades. Esta riqueza deve-se, em grande parte, ao trabalho contínuo e secular dos agricultores. As variedades tradicionais portuguesas são o resultado de um processo de seleção natural e artificial promovido pelas próprias famílias de agricultores ao longo de gerações. Cada agricultor, ao cultivar os seus próprios feijões, selecionava as sementes que melhor se adaptavam às condições da sua terra e ao seu paladar, criando assim variedades únicas e altamente adaptadas às regiões onde são produzidas.
A planta do feijão-comum é anual e pode apresentar-se como trepadora ou rasteira, cultivando-se geralmente na Primavera e no Verão. Precisa de dias longos, temperaturas elevadas e bastante água para se desenvolver plenamente. Desta diversidade de cultivares resultam feijões de diferentes cores, formas e tamanhos. Além do já mencionado feijão catarino, encontramos nomes bem familiares como o feijão encarnado, o branco ou o manteiga. Mas a riqueza da tradição portuguesa vai muito além, com nomes pitorescos e originais para as variedades tradicionais, como o patareco, o vassouro, o raboto, o torino, o papo-de-rola, o crista-de-galo, o cuco, ou até o arrebenta-panelas e o bigode-de-homem.
Um exemplo notável desta diversidade é o chamado “feijão-dos-almoços”, uma variedade miudinha, redondinha, entre o amarelo e o verde, de uma planta trepadeira, que uma agricultora de Oliveira do Hospital cultivava. Este feijão era tão apreciado pela sua qualidade que era reservado apenas para almoços especiais. Histórias como esta demonstram o valor cultural e genético intrínseco de cada uma destas variedades, muitas das quais, apesar da sua qualidade, não são tão produtivas como as variedades comerciais importadas, o que as mantém restritas a pequenas comunidades rurais.
A Ciência por Trás do Grão: O Estudo das Variedades Nacionais
Para desvendar os segredos da diversidade do feijão português, a equipa de Carlota Vaz Patto realizou um estudo abrangente, o primeiro com tamanha escala no país. Foram estudadas 175 variedades de feijão português, das quais 166 eram de Portugal continental (Norte, Centro e Sul) e nove das regiões autónomas da Madeira e dos Açores. As sementes foram recolhidas em campo pelos investigadores em 2005 e complementadas com uma coleção de sementes do Departamento de Biotecnologia e Recursos Genéticos do INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária).
O trabalho consistiu na caracterização molecular para estudar a diversidade genética e na análise das características morfológicas da planta e da semente, como o porte (rasteiro ou trepador) e as particularidades da semente (forma ou cor). Para efeitos de comparação com as origens americanas, os investigadores selecionaram um número mais reduzido de variedades que representassem toda a diversidade das 175 iniciais.
Os resultados foram reveladores: as variedades portuguesas são, de facto, mais semelhantes às dos Andes. Além disso, verificou-se que cerca de um terço das sementes analisadas resultou de cruzamentos e combinações genéticas entre feijões dos dois grupos originais (Andes e Mesoamérica). Este intercâmbio genético contribuiu para a elevada variedade genética do feijão português, que, embora menor que a das variedades americanas nos centros de domesticação, é notavelmente expressiva para uma região de introdução. Este “mistura e adapta” foi fundamental para que o feijão conseguisse adaptar-se às condições que não existiam na sua região de origem, criando uma diversidade única e tipicamente portuguesa.
Desafios e Oportunidades: A Valorização do Feijão Tradicional
Apesar de os portugueses terem uma verdadeira conversão ao feijão, que representa 75% do consumo total de leguminosas no país, apenas 9,4% é de origem portuguesa. A maioria das variedades disponíveis no mercado é importada, e as variedades tradicionais portuguesas são consumidas sobretudo por pequenas comunidades rurais. Isto ocorre porque, embora as variedades tradicionais sejam de elevada qualidade e muito apreciadas gastronomicamente, tendem a ser menos produtivas do que as variedades comerciais. Esta é uma das razões pelas quais a valorização económica destes recursos genéticos é um objetivo primordial para os investigadores.
Um excelente exemplo de sucesso na valorização é o feijão tarreste. Originário das aldeias serranas do Soajo e da Peneda, no concelho de Arcos de Valdevez, este feijão semi-trepador de porte baixo, com casca fina e vários padrões cromáticos, foi registado no Catálogo Nacional de Variedades em 2017. O seu processo de valorização começou com a Associação Regional de Desenvolvimento do Alto Lima, em colaboração com o Ministério da Agricultura e o Banco Nacional de Germoplasma. Atualmente, o feijão tarreste é vendido no comércio local e usado em pratos típicos como o arroz de feijão tarreste acompanhado com posta de cachena. Existem inclusive projetos para a criação de produtos inovadores, como o pastel de feijão tarreste, que reforçam o seu valor económico e cultural.
A investigação sobre o feijão português não se limita apenas à sua origem e diversidade. Já estão em curso estudos para caracterizar a resistência a diferentes doenças e ao stress hídrico das variedades portuguesas, bem como a sua qualidade organoléptica (sabor e aromas) e nutricional. Estes estudos abrem portas para futuras estratégias de melhoramento e de promoção destas variedades tão valiosas.
Benefícios Nutricionais Inegáveis
Para além de ser um pilar da gastronomia portuguesa, o feijão é um verdadeiro tesouro nutricional. As suas sementes são extremamente ricas em proteínas, tornando-o uma excelente alternativa às proteínas de origem animal, especialmente para dietas vegetarianas e veganas. Mas os benefícios da sua nutrição não ficam por aqui.
O consumo regular de feijão está associado à prevenção de doenças cardiovasculares, graças ao seu teor de fibras solúveis que ajudam a reduzir os níveis de colesterol. Além disso, as fibras presentes no feijão são benéficas para a saúde digestiva e podem auxiliar no controlo da obesidade, promovendo a saciedade e regulando o trânsito intestinal. Para pessoas com diabetes, o feijão é um aliado importante, pois o seu baixo índice glicémico ajuda a controlar os níveis de açúcar no sangue. A cientista Carlota Vaz Patto reforça que o feijão, por si só, não contribui para o aumento de peso. Ao contrário, quando se pensa numa feijoada, “o problema não é o feijão mas os enchidos. O feijão é a parte saudável da feijoada.” Esta afirmação sublinha a importância de distinguir o valor nutricional intrínseco do feijão dos ingredientes que o acompanham em pratos mais calóricos.
Tabela Comparativa: Centros de Origem do Feijão Comum
Para entender a herança genética do feijão português, é crucial conhecer os seus centros de domesticação originais nas Américas.
| Centro de Origem | Região Geográfica | Características Notáveis | Relação com Feijão Português |
|---|---|---|---|
| Andes | América do Sul (região andina) | Geralmente grãos maiores, cores variadas (branco, roxo, preto). | Maior proximidade genética com as variedades portuguesas. |
| Mesoamérica | América Central e México | Geralmente grãos menores, cores mais escuras (preto, vermelho). | Contribuição genética menor, mas presente em cruzamentos. |
Perguntas Frequentes sobre o Feijão em Portugal
O que é o feijão catarino e para que serve?
O feijão catarino é uma das muitas variedades do feijão-comum (Phaseolus vulgaris) cultivadas em Portugal. Não tem uma função exclusiva, mas é amplamente utilizado na culinária portuguesa em pratos como sopas, feijoadas, guisados e acompanhamentos, devido ao seu sabor e textura agradáveis após a cozedura. Serve como uma excelente fonte de proteínas vegetais, fibras e outros nutrientes essenciais, contribuindo para uma dieta saudável.
Quantas variedades de feijão existem em Portugal?
Estima-se que existam centenas, talvez até milhares de variedades de feijão em Portugal. Esta vasta diversidade é resultado de séculos de seleção por parte dos agricultores, que adaptaram as sementes às condições locais e às preferências regionais, criando um património genético único e rico.
De onde vieram os feijões para Portugal?
Os feijões foram introduzidos em Portugal a partir das Américas (América Central e do Sul) durante o século XVI, na época dos Descobrimentos. Estudos genéticos indicam que as variedades portuguesas têm uma maior proximidade com as variedades originárias da região dos Andes, embora também haja influência de variedades da Mesoamérica.
Por que é importante valorizar as variedades tradicionais de feijão?
A valorização das variedades tradicionais de feijão é crucial por várias razões: são um recurso genético valioso, adaptado às condições locais; possuem qualidades organolépticas únicas e são apreciadas gastronomicamente; e a sua promoção pode impulsionar a economia local e a biodiversidade agrícola. Apesar de serem menos produtivas que as variedades comerciais, a sua qualidade e singularidade justificam o investimento na sua preservação e comercialização.
Em suma, o feijão, em todas as suas formas e variedades, desde o popular catarino até ao raro tarreste, é um pilar da alimentação e da cultura portuguesa. A sua adaptação ao longo dos séculos em terras lusas, a sua rica diversidade genética e os seus inegáveis benefícios para a saúde tornam-no um alimento de valor incalculável, digno de ser celebrado e preservado para as futuras gerações.
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