Luz Saúde: A Gigante da Saúde Privada em Foco

30/01/2022

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O setor da saúde em Portugal tem sido palco de desenvolvimentos significativos, e no coração desta dinâmica, emerge o grupo Luz Saúde. Atualmente detido pela Fidelidade, este gigante da saúde privada portuguesa não só consolidou a sua posição no mercado como também se prepara para um possível regresso ao mercado de capitais, um movimento que promete redefinir a sua trajetória e visibilidade. Mas, afinal, quem é a Luz Saúde, como se construiu e quais os seus ambiciosos planos para o futuro?

A história da Luz Saúde é marcada por transformações estratégicas e uma evolução notável. Fundado no ano 2000, o grupo iniciou a sua jornada sob a designação de Espírito Santo Saúde. Na sua génese, a propriedade era inteiramente da família Espírito Santo, embora distribuída por diversas participações. A ambição de expansão e a procura por novos capitais levaram o grupo, então liderado por Ricardo Salgado, a dar um passo decisivo em 2014: a abertura do seu capital em bolsa. Neste processo, 49% do capital da Espírito Santo Saúde foi colocado no mercado português, enquanto os restantes 51% permaneceram sob o controlo da família fundadora.

Contudo, o cenário de propriedade alterou-se drasticamente em outubro de 2014. A Fidelidade, uma das maiores seguradoras portuguesas, lançou uma Oferta Pública de Aquisição (OPA), após assegurar a aquisição de uma participação maioritária de 51% do capital da Espírito Santo Saúde. Esta jogada estratégica culminou na aquisição de 96% do capital da empresa pela seguradora. Foi precisamente nesse ano, em que a Fidelidade se tornou a acionista dominante, que o grupo adotou a sua designação atual: Luz Saúde.

Mais tarde, em fevereiro de 2018, a Fidelidade realizou uma operação de venda de 49% do capital da Luz Saúde aos chineses da Fosun, empresa que, por sua vez, é acionista da própria seguradora. Apesar desta transação, a Fidelidade mantém-se, de forma esmagadora, como a acionista maioritária do grupo Luz Saúde, detendo uma impressionante fatia de 99,86% do capital social da empresa. Este domínio acionário reflete a forte aposta da Fidelidade no setor da saúde.

Após uma saída do mercado de capitais português em 2018, a Fidelidade está agora a explorar a possibilidade de um regresso da Luz Saúde à bolsa, através de uma Oferta Pública Inicial (IPO). Embora nenhuma decisão oficial tenha sido confirmada, as expectativas são elevadas, com a Fidelidade a ambicionar uma avaliação superior a mil milhões de euros para o grupo de saúde. Fontes próximas da operação, apuradas pelo ECO, indicam que o Citigroup e o UBS deverão ser os bancos internacionais responsáveis pela gestão da venda de 30% a 40% do capital do grupo, liderando um sindicato bancário que incluirá também instituições nacionais como a CGD e o BCP, para além de outros bancos internacionais. O objetivo é que uma decisão final sobre esta operação seja tomada no último trimestre do ano, desde que as condições de mercado o permitam.

Índice de Conteúdo

O Vastíssimo Ecossistema da Luz Saúde: Uma Presença Abrangente

O modelo de negócio da Luz Saúde é diversificado e abrange uma vasta rede de unidades de saúde em Portugal. O grupo é proprietário de:

  • 14 hospitais privados de referência, incluindo o emblemático Hospital da Luz, o Hospital do Mar e o Hospital da Misericórdia de Évora.
  • 13 clínicas em regime de ambulatório, garantindo uma cobertura geográfica mais alargada e acessível.
  • Uma residência sénior, complementando a oferta de cuidados de saúde.

O ano de 2022 foi particularmente robusto para a Luz Saúde em termos financeiros. O grupo encerrou o ano com receitas que se aproximaram dos 600 milhões de euros, o que representa um crescimento notável de 10,6% em comparação com o ano anterior. Este desempenho foi impulsionado, em grande parte, pelo crescimento do segmento de saúde privados, que atingiu os 585,9 milhões de euros, uma subida de 10,8%. O lucro antes de juros, impostos, amortizações e depreciações (EBITDA) registou um aumento ainda mais expressivo de 26,9%, alcançando os 82 milhões de euros. Já o resultado líquido atribuível aos acionistas disparou 63,8%, fixando-se em 26,9 milhões de euros. Estes números atestam a solidez financeira e a capacidade de recuperação e crescimento do grupo.

Em termos de recursos humanos, a Luz Saúde é um dos maiores empregadores do setor. O grupo conta atualmente com 13.819 funcionários, dos quais aproximadamente 4 mil são médicos e cerca de 3 mil são enfermeiros. Esta vasta equipa garante a prestação de cuidados de saúde de excelência em diversas áreas.

A infraestrutura da Luz Saúde é igualmente impressionante, com 650 gabinetes para consultas, 64 especialidades médicas e cirúrgicas, 55 blocos de partos e 1.200 camas para internamento. A sua presença estende-se por várias regiões do país, incluindo o Norte, Centro, Centro Sul e Madeira. É de salientar que, em certas regiões, o grupo detém o único hospital privado em exploração, reforçando a sua importância no acesso a cuidados de saúde para as populações locais. A atividade assistencial constitui, assim, uma parte central do modelo de negócio da Luz Saúde.

Atividade Clínica: Números que Refletem o Compromisso

Apesar do "embate" da pandemia, os números de produção clínica apresentados em 2022 representam o melhor desempenho de sempre do segmento de negócio privado do grupo. Isto demonstra a resiliência e a capacidade de adaptação da Luz Saúde aos desafios do contexto global. Vejamos alguns dados comparativos da atividade assistencial:

Tipo de Atividade202020212022Crescimento 2021-2022
Consultas~1,6 milhões~1,9 milhões~2,1 milhões~10,5%
Exames de Imagiologia849 mil>1,1 milhões~1,2 milhões~9%
Episódios de Urgência253 mil277 mil393 mil~42%
Cirurgias e Partos53 mil60 mil64 mil~6,7%

Estes dados sublinham o crescimento robusto da atividade da Luz Saúde, com particular destaque para o aumento significativo nos atendimentos de urgência, num ano em que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) enfrentou consideráveis desafios neste domínio. Do total de cirurgias e partos em 2022, 4.230 correspondem a partos realizados na rede do Hospital da Luz, evidenciando a sua importância na área da obstetrícia.

Inovação e Suporte: As Linhas de Apoio ao Cliente

A Luz Saúde não se limita à prestação de cuidados em unidades físicas; o grupo também investe em serviços de apoio inovadores para os seus clientes, facilitando o acesso e a triagem de cuidados de saúde:

  • LUZ 24: Lançada no primeiro ano da pandemia, esta linha telefónica é um serviço de triagem clínica de apoio ao atendimento urgente, disponível 24 horas por dia, todos os dias do ano, para crianças e adultos. A sua equipa de enfermeiros pode encaminhar doentes e a sua informação clínica para as equipas de urgência da rede do grupo ou sugerir videochamadas urgentes. Em 2022, a LUZ 24 efetuou mais de 50 mil triagens, demonstrando a sua relevância e eficácia.
  • Linha Direta Oncologia: Este serviço é dedicado a agilizar o acesso a cuidados de diagnóstico e tratamento de doenças oncológicas, garantindo que os pacientes com cancro tenham um percurso mais célere e facilitado.

Planos para o Futuro: Uma Estratégia de Expansão Contínua

A Luz Saúde tem uma agenda ambiciosa para os próximos anos, com planos de expansão que reforçam a sua presença e capacidade de resposta em Portugal:

  • 2023: No segundo semestre, o grupo prevê a abertura de duas novas unidades ambulatórias: a Luísa Todi em Setúbal e a Carreira no Funchal. Além disso, até junho, deverão ser concluídas as obras de requalificação do Hospital da Misericórdia de Évora.
  • 2024: Estão previstas as aberturas de duas novas unidades ambulatórias na zona de influência do Hospital da Luz Coimbra, especificamente em Leiria e na Figueira da Foz.
  • 2025: O primeiro trimestre verá a abertura de uma nova clínica em Vila Franca de Xira. Para a segunda metade do ano, está planeada a abertura de um novo hospital em Santarém, um investimento significativo que reforçará a oferta de saúde na região.
  • 2026: O grupo continuará a expandir a sua presença no sul do país com a expansão e o "upgrade" clínico do Hospital da Luz Setúbal, com conclusão prevista para o segundo semestre.

Estes investimentos refletem a estratégia de crescimento orgânico e de reforço da rede de cuidados de saúde da Luz Saúde, visando servir um número crescente de pacientes e comunidades.

Desafios e Resiliência: O Impacto da Pandemia e a PPP de Loures

A pandemia de COVID-19 representou um desafio sem precedentes para o setor da saúde global, e a Luz Saúde não foi exceção. A concentração de esforços no tratamento de doentes Covid levou ao adiamento de consultas e cirurgias. No entanto, o grupo demonstrou uma notável resiliência, com a recuperação da atividade a iniciar-se de forma vigorosa no segundo ano da pandemia.

A partir do segundo trimestre de 2021, a atividade em todas as unidades do grupo registou uma franca recuperação, superando os níveis de 2019 em todas as áreas, com a exceção das urgências. Em 2022, esta situação consolidou-se, com todas as linhas assistenciais a apresentarem um crescimento significativo, à exceção das análises clínicas, que sofreram uma "redução drástica da testagem para Covid-19" após o pico da pandemia.

Neste contexto de desafios, a Luz Saúde, tal como outros grupos de saúde privados, avançou para um tribunal arbitral contra o Estado Português. O objetivo é a "reposição do reequilíbrio financeiro" do contrato de gestão da Parceria Público-Privada (PPP) do Hospital Beatriz Ângelo, que era gerido pela SGHL, uma empresa detida pelo grupo Luz Saúde. O litígio foca-se na compensação pela alegada "perda de remuneração" e "despesas adicionais" incorridas nos anos de 2020 e 2021 devido à situação epidemiológica. Em causa, segundo o Jornal de Notícias, estarão entre 45 milhões e 48 milhões de euros pelos prejuízos decorrentes da pandemia. Embora o desfecho do processo ainda não seja conhecido, o grupo esperava que o mesmo fosse encerrado no primeiro semestre de 2023.

Este não foi o primeiro litígio entre o Estado e a Luz Saúde. Anteriormente, já tinham ocorrido desentendimentos relacionados com os pagamentos para o tratamento do VIH/Sida e os encargos com a formação de médicos. O contrato de gestão para a PPP do Hospital Beatriz Ângelo, assinado em 2009, terminou em janeiro do ano passado. No primeiro ano da pandemia, esta PPP provocou perdas de dezenas de milhões de euros ao grupo, com o resultado operacional do segmento público a ser negativo em 29,9 milhões de euros em 2020, um impacto "absolutamente determinante" no desempenho consolidado global negativo do grupo nesse ano.

Perguntas Frequentes (FAQ) sobre a Luz Saúde

1. Quem é o atual proprietário da Luz Saúde?

Atualmente, o grupo Luz Saúde é detido maioritariamente pela seguradora Fidelidade, que possui 99,86% do capital social da empresa.

2. Qual a origem do grupo Luz Saúde?

O grupo foi fundado em 2000 com o nome Espírito Santo Saúde, sob a propriedade da família Espírito Santo. Em 2014, a Fidelidade adquiriu a maioria do capital, e o grupo foi renomeado Luz Saúde.

3. Onde estão localizadas as unidades da Luz Saúde?

A Luz Saúde possui uma vasta rede de hospitais e clínicas distribuídas pelas regiões Norte, Centro, Centro Sul e Madeira de Portugal.

4. Quais são os principais serviços oferecidos pela Luz Saúde?

O grupo oferece uma ampla gama de serviços de saúde, incluindo consultas médicas em diversas especialidades, exames de imagiologia, cirurgias, partos, atendimento de urgência e serviços de apoio ao cliente como a LUZ 24 e a Linha Direta Oncologia.

5. A Luz Saúde tem planos de expansão para o futuro?

Sim, o grupo tem planos ambiciosos de expansão, incluindo a abertura de novas clínicas em Setúbal, Funchal, Leiria, Figueira da Foz e Vila Franca de Xira, bem como um novo hospital em Santarém e a expansão do Hospital da Luz Setúbal nos próximos anos.

6. Como a pandemia afetou a Luz Saúde?

A pandemia causou uma redução inicial na atividade assistencial devido ao foco em doentes Covid. No entanto, o grupo demonstrou grande resiliência, recuperando e superando os níveis de atividade pré-pandemia em 2022, com exceção das análises clínicas devido à diminuição da testagem para Covid-19. O grupo também entrou em litígio com o Estado para compensação por perdas financeiras relacionadas com a PPP do Hospital Beatriz Ângelo durante a pandemia.

A Luz Saúde continua a ser um pilar fundamental no panorama da saúde em Portugal, com uma história de crescimento, resiliência e uma visão clara para o futuro. A sua possível reentrada no mercado de capitais sublinha a confiança no seu modelo de negócio e na sua capacidade de continuar a expandir e a inovar na prestação de cuidados de saúde de qualidade.

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