07/06/2022
A internação hospitalar, embora essencial para a recuperação da saúde, pode, em alguns casos, expor o paciente a riscos adicionais, sendo um deles a infecção hospitalar. Este tipo de infecção, também conhecida como Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (IRAS), representa uma preocupação global, mas é importante ressaltar que medidas eficazes de prevenção existem e são constantemente aprimoradas. Compreender o que são, como ocorrem e, principalmente, como evitá-las, é fundamental para pacientes, seus familiares e para toda a equipe de saúde.
As infecções hospitalares são reações do sistema imunológico a agentes microbianos, como vírus, bactérias, fungos e parasitas, que ocorrem dentro do ambiente hospitalar. Para que uma infecção seja considerada hospitalar, a pessoa deve estar hospitalizada por, no mínimo, 48 horas. Antes desse período, se o paciente apresentar sintomas de infecção, é provável que ela tenha sido adquirida fora da unidade de saúde, resultando do contato com algum agente externo antes da internação. Essa distinção é crucial para o diagnóstico e para as estratégias de controle.
- As Infecções Hospitalares Mais Frequentes no Brasil
- Por Que as Infecções Hospitalares Ocorrem?
- Como Ocorre o Processo de Infecção Hospitalar?
- Manifestações Comuns de Infecções Hospitalares
- Prevenção: Uma Responsabilidade Coletiva
- Controle de Infecção Hospitalar no Ambiente Hospitalar
- Tipos Comuns de Infecções Hospitalares e Seus Sinais
- Perguntas Frequentes (FAQs) sobre Infecções Hospitalares
- 1. Qual é a infecção hospitalar mais comum?
- 2. Quanto tempo de internação é necessário para uma infecção ser considerada hospitalar?
- 3. A higiene das mãos realmente faz diferença na prevenção?
- 4. Quais são os principais fatores de risco para adquirir uma infecção hospitalar?
- 5. O que devo fazer se suspeitar de uma infecção hospitalar?
As Infecções Hospitalares Mais Frequentes no Brasil
Segundo a Dra. Cláudia Vidal, médica do serviço de infectologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, a infecção do trato urinário (ITU) é o tipo de infecção hospitalar mais frequente no ambiente hospitalar. A alta incidência da ITU está frequentemente associada ao uso de sondas vesicais, um procedimento comum em pacientes acamados ou com dificuldades para urinar. Após as infecções urinárias, as infecções decorrentes de procedimentos cirúrgicos e, em seguida, as infecções respiratórias, como as pneumonias, são as mais comuns.
É importante destacar que, embora as infecções urinárias sejam as mais frequentes, nem todas as infecções hospitalares apresentam o mesmo grau de gravidade. A Dra. Cláudia Vidal aponta que, dentre as infecções que apresentam uma maior taxa de mortalidade, as pneumonias associadas à ventilação mecânica são as mais graves e as que mais contribuem para o óbito de pacientes. Isso ocorre porque essas pneumonias afetam diretamente a capacidade respiratória de indivíduos já debilitados e dependentes de suporte ventilatório.
Por Que as Infecções Hospitalares Ocorrem?
As infecções hospitalares são multifatoriais, ou seja, são causadas por uma combinação de elementos. A Dra. Cláudia Vidal detalha que elas dependem de fatores relacionados ao hospedeiro (o paciente), fatores do ambiente hospitalar e fatores do patógeno (o agente infectante).
Fatores Relacionados ao Paciente (Hospedeiro)
Algumas pessoas possuem uma predisposição maior ou apresentam fatores de risco que as tornam mais vulneráveis ao desenvolvimento de infecções. Isso inclui:
- Doenças Crônicas: Pacientes com condições como diabetes descompensada, doenças pulmonares crônicas (DPOC, asma grave) e doença renal crônica têm o sistema imunológico comprometido ou barreiras físicas enfraquecidas.
- Doenças Depressoras do Sistema Imunológico: Indivíduos com HIV/AIDS, aqueles que receberam algum tipo de transplante (devido ao uso de imunossupressores) ou que fazem tratamento contra o câncer (quimioterapia, radioterapia) possuem defesas naturais significativamente reduzidas.
- Idade Extrema: Recém-nascidos e idosos, por terem sistemas imunológicos menos desenvolvidos ou mais fragilizados, são grupos de maior risco.
- Outras Condições: Pessoas com doenças dos vasos sanguíneos ou com lesões na pele (úlceras de pressão, feridas) também são mais suscetíveis.
Fatores Relacionados ao Agente Microbiano (Patógeno)
O próprio microrganismo causador da infecção desempenha um papel crucial. Algumas bactérias, vírus, fungos ou parasitas possuem um potencial maior de invasividade, ou seja, são mais agressivos e capazes de causar doenças. Além disso, a carga microbiana, que é a quantidade de microrganismos presentes em um determinado local, também se relaciona diretamente com o risco de infecção. Ambientes com alta concentração de patógenos aumentam a probabilidade de contaminação.
Fatores Relacionados ao Ambiente e à Assistência
Os procedimentos e o ambiente dentro da unidade de saúde são determinantes. O risco de infecção hospitalar é significativamente maior em pacientes que utilizam algum dispositivo invasivo ou que são submetidos a cirurgias. Dispositivos invasivos incluem:
- Cateteres: Utilizados para administrar medicamentos, fluidos ou para monitoramento.
- Sondas: Como sondas nasogástricas ou vesicais.
- Ventiladores Mecânicos: Utilizados para suporte respiratório.
A corrente sanguínea, por exemplo, é estéril. No momento em que a barreira natural da pele é rompida, seja pela introdução de um dispositivo invasivo ou durante a realização de uma cirurgia, abrimos uma porta para que bactérias, que normalmente vivem na pele, possam invadir a corrente sanguínea e provocar infecções graves.
Como Ocorre o Processo de Infecção Hospitalar?
As infecções hospitalares podem se manifestar de diferentes formas, dependendo da origem do microrganismo e da forma de transmissão. Compreender esses mecanismos é vital para a prevenção.
- Infecção Endógena: Ocorre quando os microrganismos que causam a infecção já estão presentes no próprio corpo do paciente, mas se multiplicam e causam doença devido a um desequilíbrio (muitas vezes pelo uso de antibióticos que alteram a flora normal) ou uma queda na imunidade. É mais comum em pessoas com o sistema de defesa mais prejudicado.
- Infecção Exógena: A causa é um microrganismo que não faz parte da flora normal do paciente, ou seja, vem de fora. Isso pode ocorrer através do contato com as mãos de profissionais de saúde, por meio de medicamentos ou alimentos contaminados, ou durante um procedimento médico.
- Infecção Cruzada: É um tipo de infecção exógena que ocorre frequentemente em ambientes com vários pacientes internados simultaneamente, como as Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Nesses casos, os microrganismos podem passar de uma pessoa para outra, especialmente se as medidas de higiene não forem rigorosamente seguidas.
- Infecção Inter-hospitalar: Acontece quando um paciente recebe alta de um hospital após ter adquirido uma infecção e, posteriormente, é internado em outra unidade de saúde, levando o microrganismo para o novo ambiente.
Manifestações Comuns de Infecções Hospitalares
As infecções hospitalares podem afetar diversas partes do corpo, apresentando sintomas específicos:
- Pneumonia Hospitalar: Costuma ser uma doença grave, mais comum em pacientes acamados, desacordados ou com dificuldade para engolir. É particularmente prevalente em quem respira com ajuda de aparelhos (pneumonia associada à ventilação mecânica). Os principais sintomas incluem dor no tórax, tosse (com ou sem secreção), febre, cansaço excessivo, falta de ar e perda de apetite.
- Infecção Urinária (ITU): Pode ocorrer em qualquer pessoa, mas a chance é significativamente maior se houver uso de sonda vesical. Ao urinar, o paciente pode sentir dor e ardência, além de poder apresentar sangramento. Outros sintomas incluem febre e dor na parte inferior do abdômen (dor de barriga).
- Infecção de Pele e Tecidos Moles: Entre as causas, estão injeções, cirurgias e lesões por pressão (escaras). A área atingida pode ficar vermelha, inchada, quente ao toque, dolorosa e, em alguns casos, com bolhas ou produção de líquido de cheiro desagradável.
- Infecção da Corrente Sanguínea (Sepse ou Bacteremia): É uma infecção grave que, sem tratamento rápido, pode ser fatal. Os sintomas incluem febre alta, tremedeira intensa (calafrios), queda da pressão arterial, fraqueza nos batimentos do coração e sonolência ou confusão mental.
Prevenção: Uma Responsabilidade Coletiva
A boa notícia é que a infecção hospitalar pode ser evitada. A principal e mais eficaz medida que profissionais de saúde, pacientes e acompanhantes devem tomar para prevenir infecções hospitalares é a higienização das mãos. A higiene das mãos é uma medida comprovadamente efetiva para a prevenção de infecções e deve ser praticada rigorosamente não apenas pelos profissionais de saúde, mas também pelos pacientes e seus familiares. É a medida básica e essencial em todos os protocolos de prevenção.
O Papel Ativo de Pacientes e Acompanhantes
A Dra. Cláudia Vidal enfatiza a importância da participação ativa dos pacientes e acompanhantes na prevenção das infecções hospitalares. Os pacientes podem e devem observar os profissionais de saúde que se aproximam para qualquer procedimento (exame físico, administração de medicação, realização de acesso venoso, aspiração de secreção, troca de curativo). Sabendo da importância crucial da higiene das mãos, o paciente ou seu acompanhante pode solicitar, de forma educada, que o profissional higienize as mãos antes de realizar o atendimento. Essa atitude proativa é um direito do paciente e um reforço fundamental para a segurança.
Protocolos e Boas Práticas Hospitalares
Além da higiene das mãos, é essencial que as unidades de saúde e os profissionais sigam rigorosamente protocolos baseados em evidências científicas para reduzir e prevenir a ocorrência dos diferentes tipos de infecções hospitalares. Alguns exemplos desses protocolos incluem:
- Para Prevenção de Pneumonia em UTIs: Elevar a cabeceira do paciente sob ventilação mecânica para evitar a aspiração de secreções da via aérea superior para a via aérea inferior. A higiene oral regular desses pacientes é fundamental para diminuir a quantidade de bactérias na boca e, consequentemente, reduzir a chance de pneumonia. Além disso, é importante suspender a sedação dos pacientes diariamente para que eles despertem. Esse “acordar diário” facilita o processo de desmame da ventilação mecânica, e quanto menor o tempo que o paciente ficar entubado e no ventilador, menor o risco de infecção.
- Para Prevenção de ITU: Manuseio adequado de sondas vesicais, técnicas assépticas na inserção e na manutenção, e remoção precoce quando não mais necessárias.
- Para Prevenção de Infecção de Sítio Cirúrgico: Preparo adequado da pele do paciente antes da cirurgia, uso correto de antibióticos profiláticos, técnica cirúrgica estéril e cuidados pós-operatórios com o curativo.
Existem protocolos específicos para cada tipo de infecção hospitalar, e em todos eles, a higiene das mãos é a medida básica e essencial.
Controle de Infecção Hospitalar no Ambiente Hospitalar
Os hospitais modernos possuem estruturas dedicadas ao controle de infecções. Muitos, como a Santa Casa de Curitiba, contam com um Núcleo de Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar (NECIH) ou comissões similares. Esses grupos têm um papel vital na definição de regras, orientações e programas de vigilância, incluindo:
- Limpeza e Desinfecção de Ambientes: Definição de quando e como limpar e desinfetar o local, e qual o melhor produto a ser usado. Esses cuidados são mais críticos em áreas de alto risco, como berçários, UTIs e centros cirúrgicos.
- Regras para Profissionais, Pacientes e Visitantes: O núcleo pode limitar o número de visitas, definir normas e programas de treinamento sobre higiene, coletas para exames, uso de medicamentos, realização de curativos e preparo de alimentos.
- Estimular Medidas de Higiene: Especialmente a higiene das mãos, um dos principais meios de transmissão de microrganismos. Tanto acompanhantes quanto médicos recebem orientação constante para lavar as mãos ou usar álcool em gel.
- Uso Consciente de Antibióticos: É crucial evitar que os pacientes tomem esses medicamentos sem necessidade ou que tomem um antibiótico errado, o que pode levar ao desenvolvimento de bactérias muito resistentes (resistência antimicrobiana).
- Vigilância dos Casos de Infecção: Monitoramento constante dos casos de infecção para entender suas causas, identificar tendências e definir as melhores formas de prevenção e controle.
Tipos Comuns de Infecções Hospitalares e Seus Sinais
| Tipo de Infecção | Principais Causas/Fatores de Risco | Sintomas Comuns |
|---|---|---|
| Infecção do Trato Urinário (ITU) | Uso de sondas vesicais, higiene inadequada, microrganismos da própria flora. | Dor e ardência ao urinar, febre, dor abdominal, sangue na urina. |
| Infecção de Sítio Cirúrgico | Quebra da barreira da pele durante cirurgia, contaminação de instrumentos. | Vermelhidão, inchaço, calor, dor na incisão, secreção (com ou sem odor). |
| Pneumonia Associada à Ventilação Mecânica (PAV) | Intubação prolongada, aspiração de secreções, posição do paciente. | Tosse, febre, falta de ar, dor no tórax, cansaço. |
| Infecção da Corrente Sanguínea (Sepse) | Uso de cateteres intravenosos, procedimentos invasivos, foco infeccioso em outro local. | Febre alta, tremores, queda da pressão arterial, sonolência, fraqueza. |
| Infecção de Pele e Tecidos Moles | Injeções, cirurgias, lesões por pressão, quebra da barreira cutânea. | Vermelhidão, inchaço, calor, dor, bolhas, secreção com mau cheiro. |
Perguntas Frequentes (FAQs) sobre Infecções Hospitalares
1. Qual é a infecção hospitalar mais comum?
A infecção do trato urinário (ITU) é a mais frequente, especialmente em pacientes que utilizam sondas vesicais. Em seguida, vêm as infecções de sítio cirúrgico e as respiratórias, como as pneumonias.
2. Quanto tempo de internação é necessário para uma infecção ser considerada hospitalar?
Para que uma infecção seja classificada como hospitalar, o paciente deve estar internado há pelo menos 48 horas. Infecções que se manifestam antes desse período geralmente são adquiridas fora do ambiente hospitalar.
3. A higiene das mãos realmente faz diferença na prevenção?
Sim, a higiene das mãos é a medida mais simples e eficaz na prevenção de infecções hospitalares, e deve ser praticada por profissionais de saúde, pacientes e acompanhantes. Ela interrompe a cadeia de transmissão de microrganismos e é a base de todas as estratégias de controle.
4. Quais são os principais fatores de risco para adquirir uma infecção hospitalar?
Os principais fatores incluem doenças crônicas ou que comprometem o sistema imunológico (como diabetes, HIV/AIDS, câncer), idade avançada ou muito jovem (recém-nascidos), e a realização de procedimentos invasivos como cirurgias, uso de cateteres ou ventilação mecânica.
5. O que devo fazer se suspeitar de uma infecção hospitalar?
É fundamental comunicar imediatamente a equipe de saúde responsável pelo paciente. Descreva os sintomas e suas preocupações para que a equipe possa avaliar a situação e iniciar as investigações e o tratamento adequado, se necessário.
As infecções hospitalares são um desafio constante na área da saúde, mas com a conscientização e a aplicação rigorosa de medidas preventivas, é possível reduzir significativamente sua incidência e garantir um ambiente mais seguro para todos. A colaboração entre pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde é a chave para o sucesso no combate a esses microrganismos e para a promoção da recuperação plena.
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