Quem era Egas Moniz?

Egas Moniz: Onde Repousa o Gênio da Medicina?

31/01/2024

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Ao abordar a figura de Egas Moniz, é comum que a curiosidade se volte não apenas para as suas notáveis contribuições no campo da medicina e da política, mas também para o local onde este ilustre português encontrou o seu derradeiro repouso. No entanto, o nome “Egas Moniz” evoca duas personalidades distintas na rica tapeçaria da história de Portugal, o que por vezes gera alguma confusão. Este artigo visa desvendar a vida e o legado de António Caetano de Abreu Freire de Resende, o médico e neurocientista que adotou o nome Egas Moniz e cuja sepultura se encontra num local específico do território português, ao mesmo tempo que faremos a devida distinção com o seu homónimo medieval, o lendário aio de D. Afonso Henriques. Prepare-se para uma viagem que atravessa séculos, desde as fundações de Portugal até às mais avançadas descobertas médicas do século XX, culminando na resposta sobre o paradeiro final de um dos mais célebres intelectuais portugueses.

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Índice de Conteúdo

A Vida e Legado de António Egas Moniz: O Pioneiro da Neurociência Portuguesa

António Caetano de Abreu Freire de Resende, que viria a ser conhecido universalmente como Egas Moniz, nasceu a 29 de novembro de 1874, na pitoresca freguesia de Avanca, situada no concelho de Estarreja. Oriundo de uma família de aristocratas rurais, era filho único de Fernando de Pina de Resende de Abreu Freire e de Maria do Rosário de Oliveira de Almeida e Sousa. A adoção do apelido Egas Moniz não foi um acaso; deveu-se à insistência do seu tio paterno e padrinho, o padre Caetano de Pina Resende Abreu e Sá Freire, que nutria a convicção de que a família Resende descendia em linha direta do famoso Egas Moniz, o aio de D. Afonso Henriques, figura central na fundação da nacionalidade portuguesa. Esta homenagem ancestral, além de conferir-lhe um nome de ressonância histórica, parecia predestiná-lo a um futuro de grande relevo.

A sua formação académica começou na Escola do Padre José Ramos, em Pardilhó, e prosseguiu no Colégio de S. Fiel, dos Jesuítas, em Louriçal do Campo. Foi na Universidade de Coimbra que Egas Moniz se formou em Medicina, iniciando a sua carreira como lente substituto, lecionando anatomia e fisiologia. Em 1911, a sua carreira deu um salto significativo com a transferência para a recém-criada Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde viria a ocupar a prestigiada cátedra de neurologia como professor catedrático, cargo que manteve até à sua jubilação em 1944. A sua dedicação à neurologia foi tão profunda que, em 1950, foi fundado, no Hospital Júlio de Matos, o Centro de Estudos Egas Moniz, que presidiu e que em 1957 foi transferido para o serviço de Neurologia do Hospital de Santa Maria, onde ainda hoje existe, abrigando, entre outros, o Museu Egas Moniz, com o seu gabinete de trabalho original e manuscritos preciosos.

A Revolução da Angiografia Cerebral: Uma Janela para o Cérebro

A contribuição mais significativa de Egas Moniz para o avanço da medicina reside na sua descoberta da Angiografia Cerebral. Este feito notável, alcançado após longas e meticulosas experiências com raios X, representou um marco indelével na história da neurologia. Antes de Moniz, a visualização das estruturas vasculares cerebrais era um desafio quase intransponível, limitando drasticamente a capacidade de diagnosticar e tratar uma vasta gama de condições neurológicas. Com a angiografia, Egas Moniz conseguiu pela primeira vez dar visibilidade às artérias do cérebro, abrindo uma verdadeira “janela” para o interior da caixa craniana.

Esta inovação revolucionária tornou possível localizar com precisão neoplasias (tumores), aneurismas, hemorragias e outras malformações no cérebro humano. A capacidade de mapear o sistema vascular cerebral em tempo real permitiu aos médicos identificar a origem de patologias que antes eram invisíveis, transformando radicalmente o diagnóstico neurológico. A angiografia cerebral não só melhorou drasticamente a acurácia dos diagnósticos, como também abriu novos e promissores caminhos para a cirurgia cerebral, permitindo intervenções mais seguras e eficazes. A precisão que esta técnica oferecia era sem precedentes, e o seu impacto na prática clínica da neurologia e neurocirurgia foi imediato e profundo, salvando e melhorando a vida de inúmeros pacientes em todo o mundo. A sua descoberta é um testemunho da sua genialidade e perseverança científica.

Além da Medicina: Política, Literatura e Arte

A vida de Egas Moniz não se restringiu aos corredores dos hospitais ou aos laboratórios de investigação. Foi uma figura multifacetada, com um papel ativo e influente na vida política e cultural portuguesa. Foi um dos fundadores do Partido Republicano Centrista, uma dissidência do Partido Evolucionista, e apoiou o breve regime de Sidónio Pais. Durante este período, exerceu importantes funções diplomáticas e governamentais: foi Embaixador de Portugal em Madrid em 1917 e, em 1918, assumiu a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros. A sua incursão na política demonstrava a sua visão abrangente e o seu desejo de contribuir para o desenvolvimento do país em diversas frentes.

Além da sua carreira médica e política, Egas Moniz revelou-se um notável escritor e um apreciador das artes. Deixou uma vasta obra literária, que inclui títulos como “A nossa casa” e “Confidências de um investigador científico”, onde partilha as suas reflexões e experiências. Destaca-se também o seu ensaio de crítica literária, “Júlio Dinis e a sua obra” (1924), no qual demonstra com perspicácia como o escritor Júlio Dinis se inspirou em figuras reais de Ovar para criar as personagens centrais dos seus romances “A Morgadinha dos Canaviais” e “Pupilas do Senhor Reitor”. O seu interesse pelas artes plásticas era igualmente profundo, tendo reunido uma notável coleção de pintura naturalista, hoje acessível ao público na Casa-Museu Egas Moniz, em Estarreja. Esta coleção inclui obras de mestres como Silva Porto, José Malhoa e Carlos António Rodrigues dos Reis, além de peças de louça, prata e mobiliário que testemunham o seu apurado gosto e a sua paixão pelas artes decorativas.

Egas Moniz também teve a oportunidade de interagir com algumas das mentes mais brilhantes da sua época, incluindo figuras proeminentes da literatura portuguesa. Fernando Pessoa, por exemplo, consultou-o em 1907, queixando-se de neurastenia e do receio de enlouquecer, à semelhança da sua avó paterna. Egas Moniz, após uma avaliação, não encontrou anomalias e recomendou-lhe aulas de ginástica sueca, que, segundo o próprio Pessoa, o ajudaram a recuperar o vigor. Outro paciente ilustre foi Mário de Sá-Carneiro, que procurou Egas Moniz devido a queixas de desdobramento físico e psicológico. O médico, perspicaz, lembrou-se de um poema que descrevia tal estado, e surpreendentemente, Sá-Carneiro revelou ser o autor. Estes encontros sublinham a sua reputação e a sua influência para além do estritamente médico.

O Atentado e a Recuperação Milagrosa

A vida de Egas Moniz foi marcada por um episódio dramático em 14 de março de 1939, quando, aos 64 anos, sofreu um atentado no seu próprio consultório. O agressor, um engenheiro agrónomo de 28 anos, que sofria de uma crise de paranoia, alvejou-o com oito tiros, dos quais cinco o atingiram na mão direita, no tórax e na coluna vertebral. A gravidade dos ferimentos era evidente; foram-lhe retiradas três balas, mas uma permaneceu alojada na coluna dorsal. Apesar da seriedade do incidente, Egas Moniz demonstrou uma resiliência notável e recuperou por completo, sem qualquer sequela física, contrariando algumas narrativas que por vezes se espalharam. Este evento, embora traumático, não o impediu de continuar a sua vida e obra com a mesma dedicação e brilhantismo.

Onde Repousa Egas Moniz? O Local do Último Descanso

António Egas Moniz faleceu aos 81 anos de idade, na sua residência em Lisboa, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, no prédio número 73 da Avenida Cinco de Outubro. A causa do seu falecimento foi uma anemia aguda. O seu corpo foi transportado para a sua terra natal, onde encontrou o seu derradeiro repouso. Egas Moniz está sepultado no cemitério de Avanca, em Estarreja. Este local, que o viu nascer e onde estabeleceu raízes profundas, tornou-se o seu lugar de descanso eterno, um ponto de peregrinação para aqueles que reconhecem a sua imensa contribuição para a ciência e para o seu país. A sua sepultura em Avanca é um testemunho silencioso de uma vida dedicada à inovação, ao conhecimento e ao serviço da humanidade.

A Necessária Distinção: Egas Moniz, o Aio de D. Afonso Henriques

Para evitar qualquer confusão, é fundamental fazer uma clara distinção entre António Egas Moniz, o médico do século XX, e o Egas Moniz medieval, figura proeminente na história da fundação de Portugal. Este último, conhecido como Egas Moniz, o Aio, foi um nobre e mordomo-mor da corte do Infante D. Afonso Henriques, desempenhando um papel crucial na ascensão de Portugal como reino independente.

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Da sua ascensão na corte condal à revolta de 1127-28, Egas Moniz, o Aio, foi uma figura de poder e influência. A sua vida foi intrinsecamente ligada à luta pela independência portuguesa, sendo um dos mais fiéis conselheiros e apoiantes de D. Afonso Henriques. Entre 1131 e 1132, Egas Moniz dedicou-se intensamente à povoação das vastas terras que o rei lhe concedera, muitas das quais eram desabitadas ou inabitáveis, cobertas por densas florestas e montanhas bravias. A sua obra como mordomo e magnate povoador é lembrada em diversas localidades, onde distribuiu cartas de foro ou de povoação a aldeias como Cetos (em 1139), Lama Redonda, Britiande (em Lamego, onde estabeleceu uma “quinta, morada e capela”) e Ucanha. A sua esposa, Teresa Afonso, foi a principal responsável pela fundação do Mosteiro de Salzedas, ao qual ambos legaram bens. Contudo, o mosteiro mais protegido por Egas Moniz foi o Mosteiro de Paço de Sousa, situado numa região de forte ligação aos seus antepassados e onde ele possuía património significativo. Junto ao mosteiro, ordenou a construção de aposentos seus, com uma torre, que existiam ainda no século XVIII. A sua obra povoadora no Ribadouro foi tão venerada que, séculos depois, nas Inquirições Gerais, era ainda chamado Meono, um título que denotava a mais alta estirpe.

Em abril de 1132, Egas Moniz já se encontrava em Arouca com o infante, mantendo-se nos anos seguintes como seu “prudentíssimo conselheiro”, assumindo o peso maior dos negócios do reino. Em 25 de dezembro de 1134, Egas Moniz aparece pela primeira vez com o cargo de mordomo-mor da corte, reiterando em 1136: “sum maiordomus de casa de illo infante”. Participou ativamente em eventos cruciais da história portuguesa, como a célebre Batalha de Ourique em 1139, ao lado de alguns dos seus filhos, e a reconquista de Trancoso. No regresso a Lamego com D. Afonso I, já rei, assistiu ao lançamento da primeira pedra da igreja do mosteiro de S. João de Tarouca, que protegeu com dádivas.

A lenda de Egas Moniz, o Aio, é um dos episódios mais célebres da história portuguesa e um exemplo sublime de honra e lealdade, recontada por Luís Vaz de Camões no Canto III dos Lusíadas (estrofes 35-40). Durante o cerco de Afonso VII a Guimarães, o Imperador exigiu um juramento de vassalagem a seu primo D. Afonso Henriques. Egas Moniz dirigiu-se ao Imperador, assegurando que o primo aceitaria a submissão. Contudo, após D. Afonso Henriques ter consolidado o seu poder e transferido a capital para Coimbra em 1131, sentiu-se forte o suficiente para romper os laços com Afonso VII, invadindo a Galiza. Ao saber que D. Afonso Henriques não cumprira o prometido por seu Aio, Egas Moniz, num ato de sacrifício e honra, dirigiu-se a Toledo, a capital imperial, acompanhado da mulher e dos filhos, todos descalços, vestidos de branco e com um baraço ao pescoço. Apresentando-se assim ao Imperador, deixou a sua vida e a dos seus à mercê de Afonso VII, como penhor pela manutenção do juramento de fidelidade prometido, mas não cumprido, pelo seu pupilo. Diz-se que o Imperador, comovido por tamanha demonstração de honra, perdoou-o e permitiu-lhe regressar em paz a Portugal. Esta lenda imortalizou Egas Moniz como um símbolo de integridade e devoção inabaláveis.

Comparativo: Os Dois Egas Moniz na História Portuguesa

CaracterísticaAntónio Egas Moniz (Médico)Egas Moniz (Aio)
Período HistóricoSéculos XIX e XX (1874-1955)Século XII (época da fundação de Portugal)
Principal Área de AtuaçãoMedicina (Neurociência), Política, LiteraturaNobreza, Política, Guerra, Povoamento
Contribuição NotávelPioneiro da Angiografia Cerebral, autor de obras literáriasMordomo-mor de D. Afonso Henriques, figura central na independência de Portugal
Local de SepultamentoCemitério de Avanca, EstarrejaDesconhecido (o texto não especifica)
Lenda AssociadaNenhuma lenda notável, mas uma vida de grandes feitos científicos e políticosA lenda do juramento de Toledo (recontada por Camões)

Perguntas Frequentes (FAQs) sobre Egas Moniz

Quem foi António Egas Moniz?
António Egas Moniz, cujo nome de nascimento era António Caetano de Abreu Freire de Resende, foi um proeminente médico neurologista, professor catedrático, político e escritor português. Ele é amplamente reconhecido pela sua inovadora contribuição para a medicina com a descoberta da angiografia cerebral.

Qual foi a principal inovação médica de Egas Moniz?
A principal inovação médica de Egas Moniz foi a Angiografia Cerebral. Esta técnica revolucionária permitiu pela primeira vez a visualização das artérias do cérebro através de raios X, possibilitando o diagnóstico preciso de condições como tumores, aneurismas e hemorragias cerebrais, e abrindo novos caminhos para a cirurgia neurológica.

Onde está sepultado o Dr. Egas Moniz?
O Dr. António Egas Moniz está sepultado na sua terra natal, no cemitério de Avanca, no concelho de Estarreja, em Portugal.

Houve mais de um Egas Moniz importante na história de Portugal?
Sim, houve duas figuras históricas proeminentes com o nome Egas Moniz. Além do médico António Egas Moniz (séculos XIX-XX), existiu Egas Moniz, o Aio (século XII), um nobre e mordomo-mor de D. Afonso Henriques, fundamental na formação do reino de Portugal e conhecido pela sua lenda de lealdade e honra.

Que prémios ou honrarias Egas Moniz recebeu?
Egas Moniz foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem de Benemerência em 5 de outubro de 1928, e com a Grã-Cruz da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico, em 3 de março de 1945.

Qual a relevância da Casa-Museu Egas Moniz?
A Casa-Museu Egas Moniz, localizada em Estarreja, é de grande relevância por preservar e expor a notável coleção de pintura naturalista de Egas Moniz, bem como peças de louça, prata e mobiliário. Além disso, o Museu Egas Moniz, parte do Centro de Estudos Egas Moniz no Hospital de Santa Maria em Lisboa, recria o seu gabinete de trabalho original com peças e manuscritos, permitindo aos visitantes uma imersão na vida e obra deste distinto cientista.

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