Qual é a saúde?

Saúde: Além da Perfeição e Rumo à Harmonia

24/06/2022

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) há muito tempo define saúde não apenas como a ausência de doença, mas como uma "situação de perfeito bem-estar físico, mental e social". Embora essa definição tenha sido considerada avançada em sua época, as reflexões contemporâneas a questionam veementemente, apontando-a como irreal, ultrapassada e, em certa medida, unilateral. Este artigo aprofundará as objeções a essa visão, explorando as nuances da condição humana e propondo uma compreensão mais integrada e subjetiva do conceito de saúde.

Qual é a saúde?
A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como a ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental e social. Essa definição, até avançada para a época em que foi realizada, é, no momento, irreal, ultrapassada e unilateral.
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A Utopia do Bem-Estar Perfeito: Uma Meta Inatingível?

O cerne da crítica à definição da OMS reside na sua alusão ao "perfeito bem-estar". O que exatamente constitui a perfeição? É possível caracterizá-la, especialmente quando se trata de um estado tão intrinsecamente ligado à experiência individual? Mesmo ao se tentar recorrer a conceitos de avaliação "externos" ou "objetivos", a perfeição permanece indefinível. Trabalhar com um referencial objetivista para o bem-estar ou felicidade eleva esses termos a categorias que existem por si mesmas, desvinculadas da linguagem e da experiência íntima do sujeito. Apenas um indivíduo, dentro de suas crenças e valores, pode dar sentido e legitimidade a tal uso semântico.

Além disso, a angústia, com suas oscilações e repercussões somáticas – como um cólon irritável ou gastrite – é uma situação habitual, inerente às próprias condições do ser humano. Divergir das posturas sociais, e até mesmo ser marginalizado por elas, é comum e, por vezes, desejável para o homem sintonizado com seu ambiente. O filósofo Bergson, em 1932, contrapôs a moral estática, que se fixa em costumes conservadores, à moral dinâmica, que resulta de um impulso criador e de uma ética de ruptura e de criação de novos valores. Essa tensão é parte intrínseca da existência.

O Mal-Estar Inerente à Civilização: Uma Perspectiva Freudiana

Sigmund Freud, em diversas ocasiões (1908 e 1930), demonstrou como a perfeita felicidade de um indivíduo dentro da civilização é algo impossível. Para ele, a civilização surgiu de um pacto entre os homens, no qual trocaram uma parcela de sua liberdade pulsional por um pouco de segurança. Essa organização social, baseada em uma renúncia, gera um constante sentimento de "mal-estar". Esta condição é inescapável, e a tensão entre indivíduo e civilização é uma constante. Castoriadis (1975) até argumentou que o "mal-estar" precede a própria civilização, uma vez que o homem a construiu precisamente para escapar à insegurança de um estado de coisas ditado pela lei do mais forte. Assim, falar em "perfeito bem-estar social" torna-se insustentável.

A percepção de um estado de hiper-adaptação mental, por vezes, oculta uma vida psíquica severamente empobrecida no plano fantasmático. A vida onírica e de fantasia parece amortecida, resultando em um rebaixamento da criatividade e do potencial de intervenção sobre a realidade. Esta "síndrome dos normóticos" ou "normopatas", observada por psicanalistas como McDougall (1978) e Bollas (1992), sugere que esses indivíduos, por não contarem com a proteção de uma vida psíquica robusta para enfrentar traumas, são mais propensos à somatização. Seria dessa "felicidade" superficial que a OMS tiraria seus parâmetros para o "perfeito bem-estar mental"? A resposta, à luz dessas observações, parece ser um retumbante não.

Além da Dicotomia: O Homem Integrado (Soma, Psique e Sociedade)

Outro ponto de crítica à definição da OMS é a sua persistência em destacar a distinção entre o físico, o mental e o social. A própria expressão "medicina psicossomática" já se encontra superada, pois a vivência psicanalítica revela a inexistência de uma clivagem nítida entre mente e soma, com o aspecto social também interagindo de forma complexa. A continuidade entre o psíquico e o somático tem sido objeto de extensas investigações, mostrando que, para um bebê, por exemplo, a divisão entre mente e corpo não faz sentido. A psicossomática de inspiração psicanalítica, como a de Marty (1980), aponta que certas doenças são expressões primitivas do inconsciente, manifestadas fisicamente quando o sujeito não consegue elaborar o excesso de excitação psiquicamente. Em vez de um sintoma psíquico, o corpo real responde à turbulência afetiva.

As injunções sociais também exercem um impacto profundo sobre o sujeito. O estilo e o ritmo de vida impostos pela cultura, a organização do trabalho, e a vida nas grandes metrópoles são fatores que sugerem uma unidade "socio-psicossomática". Déjours (1980) trouxe grandes contribuições ao analisar como certas formas de organização do trabalho impedem o funcionamento mental pleno do trabalhador, levando-o a reprimir a vida fantasmática e, consequentemente, a somatizar. Doenças como infarto, úlcera péptica, colite irritativa, asma brônquica e até mesmo o câncer, guardam profundos vínculos com os estados afetivos dos sujeitos. A "doença somática" pode ser vista como mais uma via inconscientemente buscada pelo sujeito para externar sua turbulência afetiva, quando este é incapaz de harmonizar seus conflitos interiores.

Comparativo: Definição da OMS vs. Visão Integrada da Saúde

CaracterísticaDefinição da OMS (Perfeito Bem-Estar)Visão Integrada e Subjetiva
MetaPerfeição inatingível e utópica.Harmonia razoável, adaptável e realista.
AvaliaçãoPredominantemente externa e "objetiva".Intrínseca e baseada na subjetividade do indivíduo.
ComponentesFísico, mental e social como entidades separadas.Soma, psique e sociedade como um sistema interconectado.
Condição HumanaAusência de "mal-estar" ou angústia.Reconhecimento do "mal-estar" como inerente e catalisador.
AdaptaçãoHiper-adaptação como ideal de saúde.Capacidade de enfrentar e transformar a realidade, mesmo com sofrimento.

O Poder do Vínculo Afetivo na Cura

A máxima "deve-se tratar o doente e não a doença" decorre da percepção da "não clivagem" da pessoa. A inobservância dessa proposta muitas vezes leva ao sucesso das chamadas "formas não tradicionais de medicina", que visam mais à afetividade do sujeito do que à mera expressão somática de sua turbulência emocional. Há uma extrema dificuldade de aceitação, por parte de muitos profissionais de saúde, de que o êxito terapêutico reside no relacionamento afetivo com o cliente. O vínculo afetivo, imbuído de confiança recíproca entre profissional e cliente, é decisivo para a melhora do estado do cliente, para além dos aspectos cognitivos, técnicos e científicos.

Embora se admita que, no mundo atual, com a medicina muitas vezes socializada e profissionais sobrecarregados, a criação e preservação desse vínculo afetivo possa parecer irreal, as restrições não desvalorizam a importância dessa reflexão. O relacionamento profissional de saúde-paciente é uma parceria onde o conhecimento técnico-científico é posto à disposição do cliente, que o aceitará ou não. Contrariamente à visão de subjugação, é no pleno exercício da autonomia de ambas as partes que o tratamento tende ao sucesso. O fenômeno da transferência, na psicanálise, onde o paciente concede ao médico um lugar de poder absoluto, exige sensibilidade do profissional para não usar tal posição para o exercício do poder, mas sim para o benefício ético do tratamento.

Qualidade de Vida: Uma Abordagem Subjetiva e Autônoma

A "unilateralidade" da definição da OMS também se revela na discussão sobre "qualidade de vida". Dentro da Bioética e do conceito de autonomia, a qualidade de vida é intrínseca e só pode ser avaliada pelo próprio sujeito. Prioriza-se a subjetividade, pois, como Bion (1967) propôs, a realidade é a de cada um. Não existem rótulos universais de "boa" ou "má" qualidade de vida, embora a saúde pública necessite de indicadores para a elaboração de suas políticas.

O que é doença? É, liminarmente, apenas um conceito estatístico, que considera doentes todos aqueles que se situam fora da "normalidade"? Principalmente em psiquiatria, onde muitas vezes nem alterações morfológicas dão chancela à diversidade dos indivíduos, questiona-se o direito de intervir sobre essas diferenças quando o sujeito, manifestando sua vontade, não deseja tal intervenção. O sofrimento é uma dor inteiramente subjetiva, e o tratamento de uma doença só será legítimo e ético se o "doente" manifestar vontade de ser ajudado. Caso contrário, o "tratamento" pode se converter em "defesa social", como frequentemente ocorre na psiquiatria, onde a noção de doença mental, historicamente construída por Foucault (1972), serviu mais ao controle e à normalização sociais do que à cura genuína.

A prioridade do subjetivismo em toda reflexão sobre qualidade de vida é crucial. Poderá alguém afirmar que um portador de colostomia tem qualidade de vida pior do que um seguidor obsessivo de regras religiosas, intimidado por um Deus imposto, independentemente de sua vontade? A realidade é uma convergência de subjetivismos, e não um conceito externo e absoluto. Não se pode, aprioristicamente, considerar alguém com qualidade de vida pior apenas por não ter recursos para se alimentar segundo certos padrões. Essas considerações, embora aparentemente radicalizantes, visam atenuar a tendência positivista dos conceitos de saúde vigentes.

Rumo a uma Nova Compreensão da Saúde

Este enfoque ampliado da saúde pública, que observa, descreve, avalia e administra indicadores para a política de saúde, não exclui a abordagem "de dentro para fora" do ser humano. Pelo contrário, o destaque à autonomia do indivíduo, à sua "vontade" e a uma "psyche" que transcende o ambiente sociocultural e a bagagem genética, pode oferecer uma melhor compreensão da virtual ineficácia de políticas de saúde em determinados casos. Essa visão antipositivista e mais humana das atividades dos profissionais de saúde pode contribuir para um contato mais sintônico, mais empático e, consequentemente, mais ético, entre eles e a população assistida.

Em suma, não se poderá dizer que saúde é um estado de razoável harmonia entre o sujeito e a sua própria realidade? Esta perspectiva valoriza a autonomia individual, reconhece a complexidade da condição humana e a interconexão inseparável entre corpo, mente e sociedade. Ao invés de buscar uma perfeição utópica, propõe uma saúde que acolhe o "mal-estar" como parte da existência e que se constrói a partir da experiência íntima e subjetiva de cada um, permitindo que o indivíduo seja o principal avaliador de seu próprio bem-estar.

Perguntas Frequentes sobre o Conceito de Saúde

  • O que a Organização Mundial da Saúde (OMS) define como saúde?

    A OMS define saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença ou enfermidade.

  • Por que a definição da OMS é considerada ultrapassada?

    É considerada ultrapassada por buscar uma "perfeição" inatingível, ignorar o "mal-estar" inerente à condição humana e à civilização, e por separar artificialmente os aspectos físico, mental e social, que na realidade estão profundamente interconectados.

  • O que significa o "mal-estar na civilização"?

    Conforme Freud, o "mal-estar na civilização" refere-se ao sentimento de desconforto e renúncia de liberdade que surge do pacto social necessário para a convivência em grupo, gerando uma tensão constante entre o indivíduo e a sociedade.

  • Qual a importância da relação entre corpo, mente e sociedade na saúde?

    A abordagem integrada reconhece que corpo (soma), mente (psique) e sociedade (social) não são entidades separadas, mas sim aspectos de um "homem integrado". Problemas em um desses aspectos podem manifestar-se nos outros, como a somatização de conflitos emocionais no corpo.

  • Como o conceito de qualidade de vida se relaciona com a subjetividade?

    A qualidade de vida é vista como algo intrínseco, que só pode ser avaliado pelo próprio sujeito. Não existem padrões objetivos de "boa" ou "má" qualidade de vida, pois a "realidade" é uma construção subjetiva e pessoal, priorizando a autonomia do indivíduo em sua própria avaliação.

  • Qual o papel do profissional de saúde nessa nova perspectiva?

    O profissional de saúde deve buscar um contato mais sintônico e empático, reconhecendo o vínculo afetivo como crucial para o êxito terapêutico. A relação deve ser uma parceria baseada na autonomia do cliente, e não uma subjugação.

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