29/05/2022
A saúde é um pilar fundamental de qualquer sociedade, e em Portugal, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) desempenha um papel central na garantia do acesso a cuidados de qualidade para todos os cidadãos. No entanto, o panorama hospitalar no país é dinâmico, com a coexistência e evolução de setores público e privado. Compreender a dimensão e as tendências destes dois pilares é crucial para avaliar a capacidade de resposta do sistema de saúde português. De acordo com os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 2022, o número total de hospitais em Portugal atingiu 243 unidades, um cenário que reflete mudanças significativas na distribuição entre as esferas pública e privada ao longo dos anos. Este artigo aprofundará estas estatísticas, analisando a composição atual, as tendências históricas e o impacto destas dinâmicas na prestação de cuidados de saúde em Portugal.

- O Panorama Hospitalar Português em 2022: Público vs. Privado
- A Liderança Inquestionável do SNS na Prestação de Cuidados
- Urgências em Portugal: Um Cenário de Elevada Procura
- Recursos Hospitalares: Camas e Profissionais de Saúde
- Tabela Comparativa: Desempenho SNS vs. Privado (2022)
- Perguntas Frequentes (FAQs)
- Quantos hospitais do SNS existem em Portugal?
- O número de hospitais públicos diminuiu desde 2010?
- Quantos hospitais privados existem em Portugal?
- Onde o SNS ainda é mais dominante na prestação de cuidados?
- As urgências nos hospitais privados têm aumentado?
- Portugal utiliza mais as urgências do que a média da OCDE?
- Há falta de camas para internamento em Portugal?
- Como está a distribuição de médicos e enfermeiros em Portugal?
O Panorama Hospitalar Português em 2022: Público vs. Privado
Em 2022, Portugal contava com um total de 243 hospitais em funcionamento. Uma análise mais detalhada revela uma divisão clara entre os setores: 112 destes hospitais pertenciam ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), enquanto os restantes 131 eram do setor privado. Esta predominância numérica do setor privado é uma tendência que se consolidou a partir de 2016 e abrange tanto o Continente quanto as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. É um contraste notável com o ano de 2010, que antecedeu a intervenção da troika no país, quando o número de hospitais públicos era superior. Desde então, o SNS viu uma diminuição de 14 unidades hospitalares, enquanto o setor privado registou um aumento expressivo de 29 hospitais.
Apesar da redução no número de hospitais públicos, a quantidade de unidades do SNS tem-se mantido relativamente estável desde 2016, indicando uma fase de consolidação após a diminuição observada na década anterior. Esta mudança na distribuição de hospitais levanta questões importantes sobre a capacidade e o papel de cada setor na resposta às necessidades de saúde da população.
Embora o setor privado tenha superado o público em número de unidades hospitalares, o SNS continua a ser o principal provedor de cuidados de saúde em Portugal, especialmente no que diz respeito aos atos de maior complexidade e volume. Em 2022, os hospitais públicos ou em regime de Parceria Público-Privada (PPP) foram responsáveis por uma vasta maioria dos serviços essenciais:
- 86,2% dos atos complementares de diagnóstico e/ou terapêutica.
- 81,6% dos atendimentos em urgência.
- 74,6% dos internamentos.
- 71,5% das cirurgias em bloco operatório.
Estes números sublinham a resiliência e a capacidade de resposta do SNS, que, apesar das variações no número de unidades, mantém uma posição dominante na oferta de cuidados de saúde de elevada intensidade. Esta preponderância é um testemunho do papel insubstituível do sistema público na arquitetura da saúde portuguesa.
Consultas Médicas: Um Terreno de Crescimento para o Privado
No que concerne às consultas médicas realizadas em meio hospitalar, o SNS também mantém a liderança, assegurando 62% do total de consultas efetuadas nas unidades de consulta externa dos hospitais portugueses. Contudo, é nesta área que os hospitais privados têm conseguido um avanço mais significativo, representando 38% do total de consultas em 2022, um aumento de 6,2% face a 2021. Esta tendência é ainda mais acentuada quando se compara com 1999, ano de início de série do INE, quando os hospitais do SNS eram responsáveis por 84,4% das consultas hospitalares.
O número total de consultas médicas em meio hospitalar atingiu um novo máximo em 2022, com cerca de 21,9 milhões de consultas realizadas, um aumento de 3% em relação a 2021. Este crescimento demonstra uma maior procura por serviços de saúde, e o setor privado tem vindo a captar uma fatia crescente dessa procura, particularmente em áreas como as consultas de especialidade, onde a acessibilidade e os tempos de espera podem influenciar a escolha do utente.
Urgências em Portugal: Um Cenário de Elevada Procura
Os serviços de urgência são um barómetro crucial da pressão sobre o sistema de saúde, e em 2022, Portugal registou um volume impressionante de atendimentos. Foram realizados cerca de 8 milhões de atendimentos nas urgências, um aumento notável de 1,5 milhões em relação a 2021 (+23,9%).
A Ascensão das Urgências Privadas
Apesar de o SNS continuar a ser o principal ponto de entrada para as urgências, com 6,6 milhões de atendimentos (mais 20,1% face ao ano anterior), o setor privado registou um crescimento ainda mais acentuado. Os hospitais privados realizaram 1,5 milhões de atendimentos de urgência, o que representa um aumento de 448,9 mil atendimentos (+43,7%) em comparação com o ano anterior, atingindo o número mais elevado desde 1999. Embora os hospitais públicos ou em regime PPP ainda sejam responsáveis por 81,6% do total dos atendimentos de urgência, a fatia dos privados, embora menor (18,4%), demonstra uma clara tendência de crescimento.
A maioria dos atendimentos nos serviços de urgência em 2022 foi assegurada pela urgência geral (71,8%). No entanto, a urgência pediátrica registou o maior aumento em relação ao ano anterior, crescendo 46,5% (mais 580,8 mil atendimentos), o que pode indicar uma maior pressão sobre estes serviços, talvez impulsionada por picos sazonais de doenças infantis ou por uma perceção de maior facilidade de acesso nas urgências.
Portugal e a Utilização Excessiva das Urgências
É importante notar que Portugal é um dos países da OCDE com maior recurso aos serviços de urgência. As idas a estes serviços em território nacional são, de facto, o dobro da média dos países da OCDE. Esta elevada procura levanta questões sobre a adequação do uso das urgências para situações que poderiam ser resolvidas em cuidados de saúde primários, gerando sobrecarga e potencialmente atrasando o atendimento de casos mais graves.
Para mitigar esta situação, o Governo socialista avançou com projetos-piloto em algumas unidades hospitalares e urgências básicas. Em locais como o Hospital da Póvoa de Varzim, hospitais de Gaia/Espinho e Feira, e urgências básicas de Arouca, Oliveira de Azeméis e São João da Madeira, os utentes são incentivados a ligar para a linha SNS 24 antes de se dirigirem à urgência. Caso a situação não seja considerada urgente, são encaminhados para os centros de saúde, visando uma utilização mais racional dos recursos. Paralelamente, nos cinco maiores hospitais do país, foram criadas equipas dedicadas à urgência para otimizar o fluxo e a qualidade do atendimento.
Recursos Hospitalares: Camas e Profissionais de Saúde
A capacidade de um sistema de saúde não se mede apenas pelo número de hospitais, mas também pela disponibilidade de recursos essenciais como camas e profissionais de saúde.
Disponibilidade de Camas para Internamento
Em 2022, os hospitais portugueses dispunham de 36,2 mil camas disponíveis e apetrechadas para internamento imediato, um ligeiro decréscimo de 87 camas em relação a 2021. Este número corresponde a um rácio de 3,5 camas de internamento por 1.000 habitantes. A grande maioria destas camas (67,7%) encontrava-se em hospitais públicos ou em parceria público-privada. É relevante destacar que, desde 1999, o número total de camas disponíveis encolheu 5,4%, uma redução atribuída principalmente à queda do número de hospitais do sistema de saúde público, que perderam cerca de 5,2 mil camas, o equivalente a menos 17,5% da sua capacidade original.
Profissionais de Saúde: Médicos e Enfermeiros
A força de trabalho é o coração do sistema de saúde. Em 2022, estavam inscritos na Ordem dos Médicos 60.396 profissionais, dos quais 58.120 no Continente e os restantes nas Regiões Autónomas. O rácio de médicos por 1.000 habitantes aumentou ligeiramente para 5,8, um pequeno incremento em relação a 2021. No entanto, existem disparidades regionais significativas: a Grande Lisboa apresentava o rácio mais elevado (8,3 médicos por mil habitantes), enquanto a região Oeste e Vale do Tejo registava o mais baixo (2,5 médicos por mil habitantes), evidenciando desafios na distribuição de profissionais médicos pelo território nacional.
Quanto aos enfermeiros, em 2022, estavam inscritos na Ordem 81.799 profissionais, o que corresponde a 7,8 enfermeiros por 1.000 habitantes, valor similar ao de 2021. As Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores apresentavam os rácios mais elevados (9,8 e 10,1 enfermeiros por mil habitantes, respetivamente), enquanto a região Oeste e Vale do Tejo registava o mais baixo (4,9). O crescimento no número de enfermeiros em 2022 (1,9%) foi inferior à média anual de 2,9% observada desde 2017, sugerindo uma desaceleração na taxa de aumento desta classe profissional.
Tabela Comparativa: Desempenho SNS vs. Privado (2022)
| Indicador | % SNS/PPP | % Privado |
|---|---|---|
| Atos Complementares de Diagnóstico/Terapêutica | 86,2% | 13,8% |
| Atendimentos em Urgência | 81,6% | 18,4% |
| Internamentos | 74,6% | 25,4% |
| Cirurgias em Bloco Operatório | 71,5% | 28,5% |
| Consultas Médicas (Consulta Externa) | 62,0% | 38,0% |
Perguntas Frequentes (FAQs)
Quantos hospitais do SNS existem em Portugal?
De acordo com os dados de 2022 do INE, existem 112 hospitais pertencentes ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal.
O número de hospitais públicos diminuiu desde 2010?
Sim, em 2022, o número de hospitais públicos era 14 unidades inferior ao registado em 2010. No entanto, o número tem-se mantido relativamente estável desde 2016.
Quantos hospitais privados existem em Portugal?
Em 2022, Portugal contava com 131 hospitais pertencentes ao setor privado, um aumento de 29 unidades face a 2010.
Onde o SNS ainda é mais dominante na prestação de cuidados?
O SNS e os hospitais em regime de PPP continuam a ser dominantes na maioria dos atos de saúde, sendo responsáveis por mais de 70% dos atos complementares de diagnóstico/terapêutica, atendimentos em urgência, internamentos e cirurgias.
As urgências nos hospitais privados têm aumentado?
Sim, em 2022, os hospitais privados registaram o número mais elevado de atendimentos de urgência desde 1999, com um aumento de 43,7% face ao ano anterior, totalizando 1,5 milhões de atendimentos.
Portugal utiliza mais as urgências do que a média da OCDE?
Sim, o recurso aos serviços de urgência em Portugal é o dobro da média dos países da OCDE, o que indica uma elevada procura por este tipo de serviço.
Há falta de camas para internamento em Portugal?
Em 2022, existiam 36,2 mil camas disponíveis para internamento, o que representa um ligeiro decréscimo face a 2021. O número de camas encolheu 5,4% desde 1999, principalmente devido à redução da capacidade no setor público.
Como está a distribuição de médicos e enfermeiros em Portugal?
Em 2022, o rácio de médicos por 1.000 habitantes era de 5,8, com disparidades regionais significativas (ex: Grande Lisboa com 8,3 e Oeste e Vale do Tejo com 2,5). O rácio de enfermeiros era de 7,8 por 1.000 habitantes, também com diferenças regionais.
Em suma, o sistema hospitalar português em 2022 apresenta um cenário de contrastes e evoluções. Embora o setor privado tenha crescido em número de unidades, especialmente desde 2010, e ganhe terreno em áreas como as consultas e as urgências, o Serviço Nacional de Saúde continua a ser o pilar central na prestação da maioria dos cuidados de saúde de maior complexidade e volume. Os dados do INE revelam a importância contínua do SNS na resposta às necessidades da população, ao mesmo tempo que assinalam desafios persistentes, como a elevada procura pelos serviços de urgência e a necessidade de uma distribuição mais equitativa de profissionais de saúde e camas hospitalares pelo território. A capacidade de adaptação e investimento contínuo em ambos os setores será crucial para garantir um sistema de saúde robusto e acessível a todos os portugueses no futuro.
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